Reino Unido prepara novas regras contra o desmatamento ilegal em cadeias de café, cacau, soja, borracha e óleo de palma

Medida aproxima o mercado britânico das exigências da EUDR, mas ainda mantém uma diferença central: o foco inicial será no desmatamento ilegal, e não em todo desmatamento

O governo do Reino Unido anunciou, em 23 de junho de 2026, durante a London Climate Action Week, que pretende avançar com novas regras para combater o desmatamento ilegal associado a produtos vendidos no mercado britânico. A medida deve atingir cadeias de suprimentos de commodities consideradas de risco para florestas, como soja, óleo de palma, cacau, café e borracha, além de madeira, gado e produtos derivados, como chocolate, móveis, cosméticos e outros itens presentes no consumo cotidiano.

Na prática, empresas que atuam na Grã-Bretanha e utilizam essas commodities deverão demonstrar que seus produtos não estão associados à conversão ilegal de florestas ou à ocupação irregular de terras nos países de origem. O governo britânico também sinalizou que pretende exigir sistemas de due diligence, relatórios de conformidade e coleta de dados de geolocalização sobre a origem dos produtos.

A proposta marca uma mudança importante no tratamento do desmatamento dentro das cadeias globais de suprimento. O tema deixa de ser apenas uma pauta voluntária de sustentabilidade ou ESG e passa a caminhar para uma exigência operacional de conformidade, rastreabilidade e gestão de risco.

O tamanho da pegada britânica

Segundo o governo britânico, cerca de 90% do desmatamento global está associado à expansão agrícola, grande parte ligada à produção de commodities comercializadas internacionalmente. Em 2023, o consumo do Reino Unido desses produtos esteve relacionado a aproximadamente 29 mil hectares de desmatamento no mundo, uma área equivalente a cerca de uma vez e meia o tamanho de Manchester, além de 9,4 milhões de toneladas de emissões de carbono associadas.

Esse dado é relevante porque mostra que países consumidores também exercem pressão direta sobre florestas tropicais, mesmo quando o desmatamento ocorre fora de seu território. No caso britânico, a maior parte dessa pegada ambiental está no exterior, em países produtores de commodities agrícolas e florestais.

A ministra da Natureza, Mary Creagh, afirmou que combater o desmatamento global é uma das formas mais eficazes de enfrentar as mudanças climáticas e proteger espécies ameaçadas. Para o governo, a medida também busca dar mais segurança ao consumidor britânico de que os produtos encontrados nos supermercados não estão ligados à destruição ilegal de florestas.

Como será a nova regra

O governo ainda abrirá uma consulta pública com empresas, organizações da sociedade civil e parceiros internacionais para detalhar o funcionamento da política. No entanto, a orientação já apresentada indica que empresas com faturamento anual superior a £1 milhão e que utilizem commodities de risco florestal deverão realizar due diligence obrigatória.

Isso significa que as empresas precisarão conhecer melhor seus fornecedores, avaliar riscos de ilegalidade, manter evidências de conformidade com a legislação local dos países produtores e coletar informações sobre a origem geográfica dos produtos.

A medida deve usar poderes previstos no Environment Act de 2021 e também envolver o fortalecimento da UK Timber Regulation, norma britânica voltada à legalidade da madeira.

Entre os produtos citados pelo governo estão madeira, gado, cacau, café, óleo de palma, borracha, soja e derivados como chocolate e móveis. Embora a comunicação pública tenha destacado produtos de supermercado, como café, cacau, óleos de cozinha, shampoos e cosméticos, o alcance regulatório tende a ser mais amplo e incluir cadeias agrícolas e florestais estratégicas.

Relação com a EUDR

A nova política britânica surge em um momento em que a União Europeia também avança com a implementação da EUDR, o Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento.

A EUDR exige que produtos como soja, madeira, gado, café, cacau, borracha, óleo de palma e derivados só possam entrar ou sair do mercado europeu se forem comprovadamente livres de desmatamento. A regra europeia considera como marco a data de 31 de dezembro de 2020: produtos oriundos de áreas desmatadas após essa data não podem ser comercializados, independentemente de o desmatamento ter sido legal ou ilegal no país de origem.

Essa é a principal diferença em relação à proposta britânica atual. O Reino Unido, neste primeiro momento, mira o desmatamento ilegal. Ou seja, a empresa deverá comprovar que a produção respeitou as leis de uso da terra do país produtor. Já a EUDR adota um padrão mais rígido: exige ausência de desmatamento após a data de corte, mesmo quando a conversão da área foi autorizada legalmente.

Apesar dessa diferença, o governo britânico afirma que pretende alinhar o máximo possível seus requisitos de informação com a EUDR. A ideia é evitar duplicidade burocrática para empresas que atuam tanto no mercado britânico quanto no europeu.

Esse alinhamento é especialmente importante por causa da Irlanda do Norte. Para manter o acesso simultâneo ao mercado interno do Reino Unido e ao mercado único da União Europeia, a EUDR será aplicada na Irlanda do Norte em fases a partir de 30 de dezembro de 2026.

Um sinal para exportadores brasileiros

Para o Brasil, a mudança merece atenção. O país é um grande fornecedor internacional de commodities agrícolas e florestais e já vem sendo impactado pelas exigências da EUDR. Agora, o Reino Unido também caminha para transformar compromissos de sustentabilidade em obrigações de rastreabilidade e due diligence.

Mesmo que a regra britânica comece com foco em desmatamento ilegal, o caminho regulatório está ficando mais claro: compradores internacionais querem saber de onde vem o produto, se a área está regular, se não há sobreposição com desmatamento ilegal, se existe documentação ambiental consistente e se a cadeia consegue demonstrar conformidade.

Na prática, exportadores brasileiros de madeira, soja, café, cacau, borracha, carne e outros produtos ligados ao uso da terra terão que fortalecer seus sistemas de controle. Isso inclui geolocalização das áreas de origem, análise documental, checagem de autorizações, validação de fornecedores, monitoramento por satélite, avaliação de risco e organização de evidências.

A tendência é que a due diligence deixe de ser um relatório feito apenas para atender compradores específicos e passe a fazer parte da rotina comercial. A rastreabilidade precisará estar integrada aos sistemas de compra, venda, logística, documentação e compliance das empresas.

Reações ao anúncio

O setor varejista britânico recebeu o anúncio de forma positiva. Andrew Opie, diretor de Alimentos e Sustentabilidade do British Retail Consortium, afirmou que os varejistas vinham defendendo há tempos uma regulação britânica contra o desmatamento, especialmente para reduzir custos e complexidade por meio de maior alinhamento com a União Europeia.

Organizações ambientais também reconheceram o avanço, mas cobraram mais ambição. Gavin Crowden, diretor de advocacy do WWF, afirmou que o colapso de florestas tropicais, como a Amazônia e as florestas da Indonésia, deve ser tratado não apenas como risco ambiental, mas também como risco à segurança, à estabilidade climática e ao abastecimento de alimentos.

Já representantes da sociedade civil defenderam que o Reino Unido avance além do combate ao desmatamento ilegal. Para essas organizações, uma regra baseada apenas na legalidade local pode deixar lacunas, já que nem todo desmatamento legal é ambientalmente aceitável ou compatível com metas climáticas e de biodiversidade.

O próprio governo britânico reconhece essa limitação ao afirmar que, no futuro, pretende avançar para um padrão livre de desmatamento. Isso aproximaria ainda mais o Reino Unido da lógica adotada pela União Europeia.

O que muda daqui para frente

A consulta pública ainda será aberta, e os detalhes finais da regulação dependerão desse processo. Mesmo assim, o anúncio já aponta a direção do mercado: produtos associados a florestas e uso da terra serão cada vez mais avaliados por critérios de origem, legalidade, risco socioambiental e rastreabilidade.

Para empresas brasileiras, esperar a regulamentação final pode ser um erro estratégico. Quem já estiver se preparando para a EUDR provavelmente estará mais próximo de atender também às futuras exigências britânicas. Isso inclui mapear fornecedores, organizar bases geográficas, revisar documentos ambientais, estruturar sistemas de due diligence e manter evidências auditáveis.

A mensagem é clara: o desmatamento entrou definitivamente na agenda de compliance do comércio internacional. O que antes era tratado como compromisso voluntário de sustentabilidade agora passa a ser requisito para acessar mercados, manter clientes e reduzir riscos comerciais.

No caso do Reino Unido, a regra começa pelo desmatamento ilegal. Mas o movimento global aponta para algo maior: cadeias produtivas livres de desmatamento, com dados rastreáveis, documentação robusta e responsabilidade compartilhada entre produtores, exportadores, importadores e varejistas.

Fonte: GOV.UK,


Descubra mais sobre Florestal Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Comenta ai o que você achou disso...