O que a Floresta Amazônica e a Groenlândia têm em comum? Na avaliação de Davi Moreno-Mateos, professor da Universidade de Oxford, a resposta está em uma oportunidade científica rara: a chance de observar ecossistemas que se regeneram sem a interferência do homem, após séculos de ocupação. Por essa razão, o pesquisador escolheu a Amazônia como objeto de um estudo que busca compreender o que acontece quando populações locais abandonam áreas cultivadas, permitindo que a floresta se recupere de forma espontânea.

“A Amazônia é o lugar perfeito para obter essa resposta porque há tantas áreas na floresta que foram abandonadas há muito tempo e nunca foram repovoadas, algo difícil de encontrar em um mundo em que a população cresce dramaticamente. Após muitos anos de pesquisa, o único lugar que encontrei um pouco parecido, nesse sentido, foi a Groenlândia”, contou o pesquisador durante a FAPESP Week Londres, realizada entre os dias 2 e 4 de junho na capital britânica.
Enquanto a Groenlândia apresenta vestígios de assentamentos nórdicos abandonados há um período que varia de 650 a 1.050 anos, a Amazônia oferece registros em uma escala muito mais vasta. Escondidas sob a densa vegetação secundária, áreas que aparentam ser florestas primárias são, na verdade, testemunhas silenciosas de uma agricultura pré-colombiana que moldou a paisagem por milênios, explicou Moreno-Mateos.
O solo, frequentemente caracterizado pela “terra preta” – indicativo da fertilidade deixada por assentamentos humanos antigos –, serve como um registro histórico que permite datar quando a região foi ocupada e quando, finalmente, foi abandonada.
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Nesses solos, algumas populações de castanheiras-do-pará (Bertholletia excelsa) vêm se recuperando há longos períodos sem intervenção humana, após as sementes terem sido selecionadas e dispersadas por povos indígenas durante milhares de anos, afirmou o pesquisador.
“A castanheira-do-pará é uma espécie que sofreu seleção há pelo menos 11 mil anos, mas que, uma vez abandonada, continua existindo, ainda que com pouquíssima dispersão natural”, disse.

“Ao cortar a floresta sem pensar nas consequências, é preciso lembrar que qualquer ação tomada em dois dias com uma escavadeira levará séculos para ser reparada pela natureza”, advertiu Moreno-Mateos (foto: Laura Redondo/Agência FAPESP)
O custo da seleção
A hipótese central do projeto é que a domesticação pelos povos indígenas, ao priorizar características como o tamanho do fruto, pode ter reduzido a resiliência natural dessas plantas.
“Ao selecionar uma espécie para produzir frutos maiores, sua capacidade de adaptação diminui, o que é um risco para enfrentar secas causadas pelas mudanças climáticas, por exemplo”, explicou.
Para verificar se o genoma da espécie mudou após passar por esse tipo de seleção, a equipe vem utilizando métodos de sequenciamento completo para comparar o DNA de árvores jovens (com cerca de 200 anos) e mais antigas (de 500 anos ou mais), que podem atingir 50 metros de altura.
Resultados preliminares indicam que, ao serem “libertadas” da domesticação após o desaparecimento das populações humanas locais, as árvores começaram a apresentar mudanças genéticas que sugerem um retorno a funções mais ligadas à sobrevivência do que à produção massiva de sementes – um fenômeno que o grupo agora mapeia detalhadamente.
“Encontramos mudanças nas assinaturas de seleção entre árvores jovens e antigas. Ao relacionar a idade do local com a diferença em seus genomas, observamos que havia várias populações claramente distintas”, afirmou o pesquisador.
Ocupação em ondas
A integração entre arqueologia e ecologia tem revelado que a ocupação amazônica ocorreu em “ondas”, deixando nas espécies da floresta um legado genético que persiste até hoje. Contudo, a mensagem final de Moreno-Mateos é um alerta sobre a fragilidade do tempo biológico.
Embora a Amazônia seja frequentemente descrita como um sistema resiliente, a pesquisa indica que a recuperação de um ecossistema após o abandono agrícola não ocorre em décadas, mas em escalas de centenas a milhares de anos. “Ao cortar a floresta sem pensar nas consequências, é preciso lembrar que qualquer ação tomada em dois dias com uma escavadeira levará séculos para ser reparada pela natureza”, advertiu.
O estudo não busca apenas entender o passado, mas identificar populações de castanheiras que, por meio de seu componente genético, demonstram maior resiliência. “O objetivo é que esses indivíduos possam, no futuro, fornecer propágulos [estruturas que se desprendem da planta para dar origem a um novo indivíduo, como sementes ou gemas] essenciais para as estratégias de restauração florestal em um planeta em aquecimento, onde a capacidade de adaptação será o diferencial entre a sobrevivência e o colapso dos biomas”, concluiu Moreno-Mateos.
Mais informações sobre a FAPESP Week Londres em: fapesp.br/week/2026/London.
Fonte: Agência Fapesp
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