Professor de MT cria mobiliário terapêutico para crianças especiais com resíduos de madeira da Amazônia

Pedagogo de Sinop (MT) fabrica poltronas e mesas adaptadas para crianças com autismo usando madeira nativa certificada da Amazônia

Em Sinop, no norte de Mato Grosso, o professor e pedagogo Valcir Cardoso passa quase três décadas observando o que falta nas salas de aula da rede pública. Não faltam só professores especializados ou laudos em dia,  falta o básico: um assento onde a criança com autismo consiga se organizar sensorialmente, uma mesa onde o aluno com dificuldade motora encontre apoio suficiente para manter o tronco ereto e os braços livres. Foi dessa observação cotidiana, repetida ao longo de 28 anos de carreira, que Valcir começou a construir suas próprias soluções em madeira.

O professor montou, por conta própria, um ateliê com máquinas industriais onde projeta e fabrica peças de mobiliário adaptado para crianças com deficiência. Não são móveis improvisados: cada peça segue princípios da Teoria da Integração Sensorial, desenvolvida pela neurocientista Anna Jean Ayres e reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, que demonstra como estímulos de pressão, contenção e contato com superfícies sólidas ajudam a regular o sistema nervoso de crianças com hipersensibilidade.

Professor Valcir Cardoso testa orgulhoso a sua criação (Foto: Acervo pessoal)

A poltrona que abraça

O carro-chefe do trabalho de Valcir é uma poltrona sensorial projetada para crianças com Transtorno do Espectro Autista. O desenho não é arbitrário: o encosto tem ângulo calculado para oferecer apoio postural firme, as laterais envolvem o tronco sem restringir o movimento e a superfície preserva a textura natural da madeira — porque o contato tátil faz parte do estímulo terapêutico.

“A cadeira serve para alimentação, para estudo, mas vai além”, explica Valcir. “A madeira é um material sólido onde a criança sente o apoio do próprio corpo. Ela percebe que pode ser agente de sustentação de si mesma.”

O processo de fabricação envolve um cuidado especial para que a madeira seja segura para as crianças (Foto: Arquivo pessoal)

 

A mesa que sustenta

Além da poltrona, Valcir desenvolveu uma mesa adaptada para crianças com dificuldade de sustentação do tronco ou falta de controle corporal. A peça chama atenção por um detalhe que revela a sensibilidade do projeto: um recorte semicircular na superfície, pensado para que a criança encaixe o corpo nesse espaço e, ao apoiar os braços sobre o tampo, crie por si mesma a sustentação que o tronco ainda não oferece.

É uma solução ao mesmo tempo simples e engenhosa. O recorte transforma a mesa em ponto de apoio ativo — a criança não é apenas acomodada, mas encontra naquela geometria uma condição para se manter posicionada com autonomia. A altura, a profundidade do corte e o acabamento liso da madeira foram calibrados para que o contato seja confortável e funcional, sem arestas que incomodem ou restrinjam.

Cadeira adaptada para crianças com dificuldade de Locomoção (Foto: Arquivo pessoal)

A madeira que vem da floresta certificada

O que começou como trabalho solitário de ateliê ganhou outro alcance quando Valcir visitou a S3 Madeiras, empresa de Sinop certificada pelo FSC, para comprar material. O empresário João Pedro Bellincanta reconheceu no trabalho do professor um propósito que ia além da marcenaria.

“O que era para ser apenas uma venda de madeira se tornou um projeto socioambiental quando conheci o trabalho dele”, conta Bellincanta. “Percebi que nossa madeira poderia servir a um propósito muito maior.”

Nasceu ali o Projeto Socioambiental Poltronas Sensoriais Adaptativas. A S3 passou a fornecer madeira com rastreabilidade total — cada peça vem de áreas com plano de manejo aprovado e monitoramento ambiental. A espécie principal é a Amescla (Trattinnickia burserifolia), nativa da Amazônia, de baixa densidade e com características moveleiras que garantem leveza e facilidade de usinagem. Parte do material utilizado são peças que, por dimensões ou classificação comercial, não seguiriam para os mercados de exportação — madeira com a mesma integridade estrutural, mas que o projeto redireciona para um uso de maior valor social.

João Pedro Bellincanta e Valcir Cardoso em visita à uma escola de SINOP (Foto: Arquivo pessoal)

“Queremos garantir a viabilidade do projeto fornecendo madeiras de alta qualidade, com rastreabilidade total e as especificações técnicas exatas”, explica Bellincanta.

A montagem dos móveis usa encaixes e parafusos, sem cola à base de formaldeído, eliminando a emissão de compostos voláteis — cuidado importante para crianças com sensibilidade respiratória. O acabamento recebe verniz atóxico, e cada peça é testada antes de sair do ateliê.

Para quem mais precisa

O destino dos móveis são escolas de educação especial inclusiva da região e comunidades indígenas do norte de Mato Grosso. Os números explicam a urgência: o Censo Escolar de 2024 registrou mais de 918 mil estudantes com TEA na rede pública brasileira, mas apenas uma em cada três escolas com alunos da educação especial oferece Atendimento Educacional Especializado. São cerca de 59 mil professores especializados para 140 mil escolas que precisariam deles.

A inclusão de comunidades originárias tem coerência com a origem do material. A madeira vem de florestas que esses povos habitam e protegem — devolver parte do valor em forma de equipamento terapêutico fecha um ciclo que raramente se completa na economia florestal brasileira.

“A parceria é uma soma de valores que ainda é pouco compreendida na sociedade”, reflete Valcir. “A maior meta é a acomodação e o conforto para o estudante. Valores, pequenos gestos.”

Mato Grosso é o segundo maior produtor de madeira nativa da Amazônia Legal, com 1,62 milhão de metros cúbicos comercializados em 2024, e Sinop é o epicentro desse setor. É também onde um professor decidiu que a madeira da floresta pode fazer mais do que virar prancha de exportação — pode virar o apoio que uma criança precisa para se manter de pé, sentada e presente na própria aprendizagem.


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