Quem trabalha com ecologia e conservação conhece muito bem a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Criada em 1964, ela é o nosso maior termômetro sobre o estado de conservação das espécies. Um dos critérios de ameaça da lista engloba “Mudanças climáticas e clima severo”. No entanto, por ser uma classificação muito ampla, ela acaba deixando em segundo plano um fenômeno atmosférico violento e cada vez mais frequente: os ciclones.

Um novo artigo publicado na prestigiada revista Nature Ecology & Evolution alerta que as tempestades extremas estão se tornando mais intensas. Isso exige um olhar específico e urgente para as espécies insulares (que vivem em ilhas) do Caribe, de Madagascar e da Micronésia, que correm sérios riscos de varrição do mapa.
O trabalho, que contou com a participação do professor Fabio Stucchi Vannucchi (Instituto de Biociências da Unesp), propõe um plano de ação global para o resgate dessa fauna.
O Perigo do “Vórtice de Extinção”
Na modelagem matemática de populações, existe um conceito assustador chamado vórtice de extinção. Ao contrário da perda gradual de habitat (como o desmatamento, que nos dá algum tempo de resposta), o ciclone é um evento abrupto.
Vannucchi explica que quando uma população animal já é muito pequena, qualquer flutuação ou desastre natural pode ser fatal. Uma tempestade que destrói ninhos, derruba árvores e mata indivíduos de forma aleatória pode empurrar uma espécie ameaçada de vez para o fundo desse vórtice, impossibilitando sua recuperação natural.

O Plano de Ação: Antes, Durante e Depois
Para proteger essas espécies — com foco principal em aves e répteis endêmicos —, os pesquisadores estruturaram o trabalho de conservação em três fases emergenciais:
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Antes (Prevenção e Segurança): A primeira sugestão é criar uma lista de atenção específica dentro da IUCN. A partir dela, formar “populações de segurança”: retirar previamente alguns indivíduos do habitat natural e levá-los para zoológicos ou centros de pesquisa. Outra ideia debatida é a criação de biobancos (congelamento de tecidos), embora a clonagem futura esbarre no problema da falta de diversidade genética.
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Durante (Abrigo e Resgate): Criação de planos de contingência ágeis. Assim que o alerta meteorológico severo for emitido, equipes retirariam os animais da ilha temporariamente ou os colocariam em abrigos (bunkers) reforçados construídos dentro do próprio habitat.
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Depois (Reconstrução): Após a passagem do ciclone, não basta apenas soltar o animal de volta. O ambiente estará devastado. É preciso mobilizar equipes para a reconstrução do habitat e inserir suplementação alimentar (como ração temporária) até que a floresta volte a produzir frutos e presas naturais.
Um exemplo prático de sucesso citado no artigo é o do papagaio-de-porto-rico (Amazona vittata). Após os furacões Irma e Maria em 2017, a população selvagem caiu de 56 para apenas três aves. Graças aos esforços prévios com “populações de segurança” mantidas em cativeiro, os cientistas conseguiram reintroduzir a espécie, elevando o número para 32 papagaios em 2022.

A Aplicação Prática no Brasil
Embora os furações caribenhos pareçam uma realidade distante, o Brasil precisa acender o alerta. As nossas regiões costeiras do Sul e Sudeste têm sofrido com o aumento brutal dos ciclones-bomba (quedas bruscas de pressão atmosférica que geram ventos destrutivos).
Esses vendavais colocam em xeque espécies criticamente ameaçadas da nossa fauna, como o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara), nativo do litoral do Paraná e de São Paulo, e o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), que depende de grandes árvores ocas da Mata Atlântica para fazer seus ninhos — árvores que são as primeiras a tombar com ventos severos.

O planejamento de conservação desenhado na Nature não serve apenas para ciclones. Como bem lembra o professor Vannucchi, essas medidas ágeis de evacuação, manutenção ex-situ e suplementação alimentar pós-desastre são perfeitamente aplicáveis a outros eventos extremos, como os incêndios florestais que devastam anualmente o Pantanal, a Amazônia e o Cerrado.
Precisamos que a ciência acadêmica e o poder público (Ministério do Meio Ambiente) caminhem juntos. A mudança climática já está aqui; o nosso plano de resgate também precisa estar.
O estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution é fruto dos encontros do Grupo de Especialistas em Planejamento de Conservação (CPSG) da IUCN. Com informações do Jornal da Unesp.
Fonte: Jornal da Unesp
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