A Serra do Espinhaço, localizada no norte de Minas Gerais, é um daqueles santuários ecológicos que justificam o título de Reserva Mundial da Biosfera, concedido a ela pela Unesco em 2005. Estima-se que a região abrigue mais de 7 mil espécies de plantas — sendo que cerca de mil delas são endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do planeta.

Mesmo com toda essa riqueza, muitas áreas permaneciam como verdadeiros vazios de conhecimento botânico. Mas isso acaba de mudar. Após quatro anos de expedições intensas, equipes de pesquisadores identificaram mais de 23 novas espécies de plantas, totalmente inéditas para a ciência, além de catalogarem mais de 270 variedades na região.
O Uso da Tecnologia e as Descobertas em Campo
O mapeamento desse tesouro botânico não foi feito “às cegas”. Todo o trabalho foi iniciado a partir das pesquisas de Renato Ramos, que utilizou tecnologias de Big Data para cruzar informações e identificar com precisão as lacunas de conhecimento da serra. A partir desses dados, as ações em campo foram direcionadas cirurgicamente.
“É uma região extremamente rica, mas sobre a qual não se tinha muito conhecimento. Identificamos que ali havia uma lacuna (…) Muitas das espécies encontradas eram novas, não tinham nome, não eram conhecidas pela ciência”, relata Ramos.
O esforço em campo rendeu cerca de 1.300 coletas botânicas. Entre as maravilhas documentadas, destacam-se:
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Barbacenia rupestris (Velloziaceae): Uma deslumbrante flor magenta encontrada enraizada em um paredão rochoso que abriga pinturas pré-históricas. O nome é uma justa homenagem ao sítio arqueológico onde ela sobrevive.
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Chionanthus monteazulensis: Um parente distante da azeitona. Segundo o botânico e pesquisador da USP, Danilo Zavatin, a planta foi encontrada logo no seu primeiro dia de campo e batizada em homenagem ao aniversário da cidade de Monte Azul.
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Eriope carpotricha (Lamiaceae): Uma descoberta de peso! Trata-se de uma nova e rara espécie de árvore que ocorre nas áreas de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga, apresentando estruturas parecidas com pelos (tricomas) únicos em seus frutos e sementes.
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Staelia fimbriata (Rubiaceae): Um pequeno arbusto da família do café, perfeitamente adaptado para sobreviver nos solos arenosos e pobres da região, os chamados “areais”.
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Wedelia riopardensis (Asteraceae): Uma espécie de margarida de flores amarelas radiantes, batizada em homenagem ao município de Rio Pardo de Minas, onde também foram descobertas a Calea riopardensis, a Calea strigosa e a Lippia aonae.
O Papel da Comunidade e o Livro Digital
O sucesso de um inventário florestal e botânico dessa magnitude só é possível com a união de saberes. Durante as expedições, os cientistas contaram com o apoio inestimável de moradores locais, funcionários do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e equipes de Unidades de Conservação, como os Parques Estaduais Caminho dos Gerais e Serra Nova e Talhado.

Todo esse acervo de descobertas não ficará restrito aos artigos científicos internacionais. O trabalho será eternizado em um livro digital de aproximadamente 500 páginas, ilustrado com as fotografias de Danilo Zavatin e com a contribuição de mais de 140 cientistas brasileiros e estrangeiros. O lançamento do e-book, apoiado pelo Instituto Rupestris, está previsto para o mês de outubro.
A engenheira florestal Elizabeth Neire, presidente do Instituto Rupestris, reforça uma máxima que sempre defendemos aqui no Florestal Brasil: divulgar as belezas e a ciência por trás da flora local é o primeiro e mais importante passo para a conservação. Não se preserva aquilo que não se conhece.
As expedições foram apoiadas pelo Programa COPAÍBAS (financiado pela Iniciativa Internacional da Noruega para Clima e Florestas – NICFI, com gestão do FUNBIO) e pelo programa Pró-Espécies, em interação com o Plano de Ação Territorial (PAT Espinhaço Mineiro).
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