Mato Grosso consolida liderança no processamento de madeira nativa, mas enfrenta desafios de governança

Novo boletim da plataforma Timberflow revela que o estado processa quase 100% da madeira que produz, embora o mercado interno tenha registrado retração de 38% em 2024.
O estado de Mato Grosso reafirma sua posição como o maior polo industrial de madeira nativa do Brasil. Segundo o novo Boletim Timberflow (nº 19), publicado pelo Imaflora em abril de 2026, o estado foi responsável por transacionar aproximadamente 64 milhões de m³ de madeira em tora entre 2010 e 2023. Esse volume representa uma média impressionante de 44% de toda a produção da Amazônia Legal no período.

O estudo, intitulado “Produção Madeireira Sustentável no Estado de Mato Grosso: Realidade e Oportunidades”, traça um raio-x completo da cadeia produtiva, revelando uma resiliência industrial única, mas também gargalos críticos que precisam de atenção governamental e empresarial.

Verticalização Industrial: O Diferencial Mato-Grossense

Um dos dados mais robustos do relatório destaca a capacidade de beneficiamento local. Mato Grosso processa internamente 99,45% de todo o volume de madeira que produz. Diferente de outros estados amazônicos, que muitas vezes exportam toras para processamento em outras regiões, MT retém o valor agregado, os tributos e a geração de empregos dentro de suas fronteiras.

Geografia do Setor: O “Cinturão da Madeira”

A produção florestal em Mato Grosso é altamente concentrada geograficamente. Apenas três municípios — Aripuanã, Colniza e Juara — respondem por mais de um terço de toda a madeira explorada no estado. No topo da lista de Áreas de Manejo Florestal (AMF), destacam-se:

  • Aripuanã: Líder absoluto, com mais de 533 mil hectares destinados ao manejo sustentável.
  • Colniza: Responsável por 13% do volume total transacionado (8,3 milhões de m³).
  • Juara: Terceiro maior polo, com 9,6% da produção acumulada.
Distribuição geográfica das Áreas de Manejo Florestal (AMF) no estado de Mato Grosso (Fonte: Boletim Timberflow nº19)

Dinâmica de Mercado: Exportações em Alta e Recuo no Sul/Sudeste

O cenário comercial de 2024 trouxe uma mudança de paradigma. O mercado interno, historicamente o maior comprador da madeira mato-grossense, registrou uma retração de 38%. Esse recuo foi puxado pela queda no consumo em estados como São Paulo, que reduziu suas compras em quase 47%.

Em contrapartida, as exportações registraram um crescimento vertiginoso de 81,3%. Os principais drivers desse aumento foram:

País de Destino Participação / Crescimento
Estados Unidos 23,2% do total exportado.
China 17,8% do total exportado.
França Crescimento recorde de 96% na demanda.

Alerta: Desafios de Governança e Rastreabilidade

O boletim também traz dados preocupantes sobre a legalidade. Entre 2010 e 2023, o monitoramento identificou que 1,15 milhão de hectares (quase 40% da área explorada) não possuíam autorização formal, evidenciando falhas persistentes na governança territorial.

Além disso, o setor ainda demonstra alta dependência de poucas espécies. Embora o estado transacione centenas de variedades, 50% do volume concentra-se em apenas 15 espécies. As líderes de mercado são:

  • Cedrinho: 10% do volume total.
  • Cupiúba: 7%.
  • Mandioqueira: 6%.

Conclusão e Perspectivas

Para o futuro, o desafio de Mato Grosso será adaptar-se às novas exigências globais de rastreabilidade, como o regulamento europeu EUDR e as novas listagens da CITES para espécies valiosas como Ipê e Cumaru. O relatório enfatiza que o investimento em tecnologia e na diversificação de espécies menos conhecidas será vital para manter a competitividade internacional do estado.

Fonte: Boletim Timberflow nº 19 (Abril 2026). Autores: Maryane Andrade, Rennan de Campos Pantoja, Felipe Pires, Vinicius Silgueiro e Tayane Carvalho. Instituições: Imaflora e ICV.

Acesse o boletim Timberflow nº 19 aqui


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