A Herança Tóxica do Garimpo: Mercúrio contamina o solo da Mata Atlântica 50 anos após o fim da exploração

Estudo liderado pela Esalq/USP em quatro biomas brasileiros revela o colapso do microbioma do solo causado pela mineração ilegal e propõe o biocarvão como estratégia de restauração.

Quando pensamos nos impactos do garimpo ilegal, a imagem que imediatamente nos vem à mente são as águas barrentas e as crateras recentes na Amazônia. No entanto, a engenharia e a ciência do solo nos alertam para um inimigo invisível, implacável e extremamente persistente. Um estudo recente da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) comprovou que o rastro de contaminação por mercúrio (Hg) persiste na Mata Atlântica mesmo 52 anos após o abandono da atividade mineradora.

Mercúrio no solo
Em longo prazo, o mercúrio permanece ativo no solo, representando risco para a microbiota, os animais e até para os seres humanos, porque pode entrar na cadeia alimentar. Na imagem, impacto do garimpo no Parque Nacional do Jamanxim – Foto: Wikimedia Commons

A pesquisa investigou de que forma as práticas ilegais e as variações climáticas sazonais influenciam a mobilidade do mercúrio, a qualidade da matéria orgânica e a estrutura da comunidade bacteriana em solos de quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

O Peso do Mercúrio: 700 Toneladas por Ano

A mineração ilegal de ouro é um desastre ambiental em escala industrial. Estima-se que cerca de 700 toneladas de mercúrio sejam depositadas no meio ambiente todos os anos.

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Segundo o pesquisador Matheus Bortolanza Soares, autor principal do artigo, o despejo é exponencialmente maior no garimpo artesanal. “O mercúrio é usado na mineração para recuperar o pó de ouro, formando a pepita. Existe uma razão ideal de mercúrio para a quantidade de ouro, mas, na mineração ilegal, essas proporções não são respeitadas”, explica.

O estudo avaliou áreas com diferentes históricos: enquanto as minas no Cerrado e Pantanal seguiam ativas e recebendo carga contínua, as da Amazônia estavam inativas há cinco meses e as da Mata Atlântica há mais de meio século. O veredito é preocupante: a longo prazo, o mercúrio permanece ativo e biodisponível no solo, representando um risco crônico para a microbiota, a fauna silvestre e as comunidades humanas, infiltrando-se inexoravelmente na cadeia alimentar.

Mercúrio no solo
O mercúrio é usado na mineração para aglutinar o ouro e formar a pepita – Foto: Wikimedia Commons

O Colapso da “Sociedade Microbiana”

Como Engenheiro Florestal, sempre reforço que o solo não é um substrato inerte; é um organismo vivo. A pesquisa revelou que o estresse cumulativo do despejo de mercúrio cria severos “filtros ambientais”.

Esses filtros promovem uma seleção artificial perversa: sobrevivem apenas as comunidades microbianas tolerantes ao metal pesado e à escassez extrema de nutrientes, dizimando a diversidade local.

Bortolanza utiliza uma analogia perfeita para ilustrar o colapso:

“Imagine que os microrganismos do solo participam de uma sociedade, onde cada um tem uma função. Se você reduz a diversidade, algumas funções são perdidas. Se não houver uma pessoa para tirar o lixo, ele vai se acumular. Quando a mineração reduz o carbono, o alimento do microrganismo é removido. Somado a isso, o mercúrio elimina mais espécies de bactérias. O resultado é uma sociedade com menos quantidade e diversidade, o que compromete diversas funções essenciais.”

O professor Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni (Departamento de Ciência do Solo da Esalq), supervisor do estudo, complementa o alerta. O mercúrio não possui absolutamente nenhuma função nutricional para plantas ou animais; é um elemento estritamente tóxico que desregula os ciclos biogeoquímicos do carbono e do nitrogênio.

Mercúrio no solo
Cientista em campo examinando a saúde do solo – Foto: Wikimedia Commons

A Restauração Viva e a Solução do Biocarvão

A remoção das camadas superficiais ricas em matéria orgânica, aliada à contaminação pesada, exige uma abordagem de restauração ecológica altamente técnica. Não basta plantar árvores em um solo “morto” e quimicamente hostil.

A estratégia de recuperação de áreas degradadas pelo garimpo deve priorizar a reconstrução dos estoques de matéria orgânica e o aprisionamento (imobilização) do mercúrio. É aqui que entra uma solução verde de altíssimo potencial: o biocarvão (ou biochar).

Bortolanza aponta o biocarvão como a base física da estratégia de recuperação. “Como o biocarvão é composto de quase 100% de carbono, ele funciona para repor esse elemento no solo, além de reter água e atuar como uma esponja que absorve o mercúrio e reduz a sua toxicidade e circulação no ambiente. Ele retém o contaminante, que é extremamente caro e difícil de retirar por outros meios”, destaca o pesquisador.

Para além da questão ecológica, o estudo joga luz sobre um grave problema de saúde pública. Solos não agrícolas também afetam diretamente as populações do entorno. Documentar essa herança tóxica de mais de 50 anos na nossa Mata Atlântica é um passo crucial para formular novas políticas públicas de combate ao garimpo ilegal e de remediação de passivos ambientais.


Referências Científicas e Apoio Institucional

O estudo contou com o forte apoio estrutural e financeiro do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da FAPESP e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), e foi conduzido em colaboração técnica com o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri (Esalq/USP) e Lucas William Mendes (Cena).

  • O artigo original, Illegal gold mining filters soil bacterial communities and enhances mercury mobility across Brazilian biomes: A multi-season study, encontra-se publicado na renomada revista internacional Journal of Hazardous Materials.

  • Com informações da Agência USP de Inovação.


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Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

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