Sempre que discutimos os impactos do desmatamento e das mudanças climáticas, é fundamental colocar um rosto nessas estatísticas. A degradação ambiental não atinge a todos de forma igual; ela é perversamente seletiva e golpeia, em primeiro lugar e com mais força, a base da nossa pirâmide socioeconômica.

Um estudo socioambiental recente realizado por pesquisadores do Programa AmazonFACE escancarou essa realidade. A pesquisa investigou moradores — incluindo ribeirinhos e indígenas — dos municípios amazonenses de Manaus, Tabatinga e Carauari para entender como a insegurança alimentar molda a percepção humana sobre os serviços ecossistêmicos (os benefícios gratuitos que obtemos da natureza, como água, alimentos e regulação do clima).
A Floresta como “Rede de Segurança” Vital
Os resultados, publicados no periódico científico Ecosystem Services, desenham um cenário de dependência crítica atrelada à fome. A equipe realizou 216 entrevistas e descobriu que a percepção sobre a utilidade da floresta muda drasticamente de acordo com a vulnerabilidade de quem responde:
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Famílias com Segurança Alimentar: Tendem a valorizar a floresta por serviços ecossistêmicos mais amplos, incluindo o cunho cultural, a beleza cênica e o lazer.
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Famílias em Vulnerabilidade Extrema: Populações expostas à fome possuem uma visão pragmática e urgente. A floresta é vista exclusivamente como uma “rede de segurança”. Elas dependem da provisão direta, como a coleta de alimentos silvestres e a pesca de subsistência, para não passar fome no final do dia.
O nível mais grave de vulnerabilidade alimentar foi registrado em Tabatinga, seguido por Carauari (média-alta) e Manaus (média). Como bem pontua a ecóloga Ana Luísa de Carvalho Cruz, entender do que as pessoas mais precisam é o primeiro passo para desenhar políticas públicas mais justas e eficazes.
A Inovação do Projeto AmazonFACE
Estabelecido em 2015 pelo governo federal brasileiro em parceria com o Reino Unido, o AmazonFACE é um programa científico monumental liderado pela Unicamp, pelo INPA e pelo MetOffice britânico.
A tecnologia FACE (Free-Air CO2 Enrichment) utiliza anéis com torres de 35 metros de altura no meio da floresta (a 85 km de Manaus) para injetar ar enriquecido com CO2 na mata. O objetivo botânico e climático é claro: descobrir como a floresta reagirá à alta concentração de gases de efeito estufa esperada para as próximas décadas.
No entanto, o diferencial deste programa em relação a outros similares no mundo (como os antigos projetos Oak Ridge e Aspen, nos EUA) foi a criação de um setor de pesquisa socioambiental em 2019.
“Queremos saber como a floresta, afetada por CO2 elevado, atinge as pessoas que dependem dela, direta ou indiretamente. Como essa relação muda” — explica David Lapola, coordenador do AmazonFACE.
A Integração de Saberes para a Governança Climática
O grande desafio da ciência climática moderna é parar de tratar as comunidades locais apenas como “objetos de estudo” e passar a integrá-las como parceiras na conservação.
Como observa Marko Synesio Monteiro, colíder da área socioambiental, incorporar saberes locais e tradicionais ao rigoroso método científico ainda é um desafio global. Contudo, essa aliança entre diferentes formas de conhecimento é a única via possível para garantir uma governança climática sólida.
A conservação da Amazônia só será plena quando a floresta em pé significar, antes de tudo, comida no prato das populações que a habitam e protegem.
O artigo científico “Ecosystem services and food security: Local perception aligning with demands in the state of Amazonas, Brazil” está disponível na revista Ecosystem Services. Com informações do Labjor/Unicamp.
Fonte: Jornal da Unicamp
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