Sempre que discutimos projetos de arborização urbana e paisagismo, costumamos adotar uma premissa quase automática: “quanto mais árvores, melhor para a mente”. No entanto, a ciência acaba de nos mostrar que a relação entre o contato com a natureza e o bem-estar psicológico é muito mais complexa e profunda do que simplesmente contar copas de árvores.

Uma pesquisa fascinante conduzida no Instituto de Biociências (IB) da USP pela bióloga Karla Vieira Morato identificou que os impactos do meio ambiente na nossa saúde mental dependem diretamente de três pilares: segurança, biodiversidade e qualidade da infraestrutura verde.
Mais do que isso: o nosso sentimento de “conexão” com o meio ambiente muda drasticamente dependendo do nosso gênero e de onde moramos.
O Paradoxo Urbano x Rural
A pesquisa, que avaliou mais de 5 mil respostas e utilizou metodologias internacionais de triagem psíquica, trouxe uma quebra de paradigma surpreendente. Historicamente, imaginamos que quem vive no campo tem uma saúde mental inabalável graças ao contato diário com a mata. Os dados provaram que não é bem assim.
As avaliações não encontraram diferenças significativas nos índices de saúde mental entre as populações rurais e urbanas. O que muda, na verdade, é a forma como cada grupo interage e enxerga a natureza:
| População | Percepção do Espaço Verde | Refúgio Mental | Demanda Principal |
| Urbana | Área de lazer e descompressão. | Parques, praças e ruas arborizadas. | Mais segurança para acessar os espaços. |
| Rural | Ambiente de trabalho e rotina pesada. | Áreas “azuis” (rios e lagos). | Infraestrutura dedicada ao lazer. |
Para quem vive no campo, a mata muitas vezes significa trabalho duro. Por isso, a sensação de descanso e o verdadeiro “senso de conexão” para essas pessoas estão ligados aos espaços azuis (rios, cachoeiras e lagos), que funcionam como verdadeiros refúgios.
A Segurança como Pré-requisito para a Conexão
No Brasil, a quantidade de área verde só gera benefícios reais se a população tiver acesso a ela. Segundo dados do IBGE, apenas 13,5% dos brasileiros vivem em ruas com três ou quatro árvores.
A pesquisa aponta que morar perto de uma área verde abandonada, sem diversidade e sem segurança, gera um efeito reverso: em vez de paz, o local provoca estresse e ansiedade devido ao medo da criminalidade. A insegurança, fruto da desigualdade social brasileira, é a principal barreira que impede o cidadão urbano de usufruir dos serviços ecossistêmicos de um parque ou de uma praça.
Diferenças de Gênero na Convivência com o Verde
Outro ponto inovador do estudo foi mapear como homens e mulheres interagem de formas distintas com os ambientes naturais para obterem benefícios psicológicos:
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Para as Mulheres: O sentimento de conexão e o alívio mental estão diretamente relacionados à frequência. Elas precisam ter a possibilidade de estar próximas a áreas verdes com periodicidade na sua rotina.
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Para os Homens: O benefício mental está mais atrelado à variedade. Eles se beneficiam mais da diversidade dos ambientes naturais visitados do que necessariamente da frequência com que os visitam.
Políticas Públicas: Um Benefício Mútuo
Como Engenheiro Florestal, vejo neste estudo um roteiro claro para o planejamento das nossas cidades. A bióloga Karla Morato nos lembra que não basta apenas plantar árvores de forma aleatória. É preciso investir em qualidade ecológica (biodiversidade) e garantir a segurança desses espaços com zeladoria e iluminação.
Ao projetarmos infraestruturas verdes seguras e acessíveis, resolvemos dois dos maiores desafios do nosso século com uma única cartada: mitigamos a crise climática ambiental e criamos refúgios terapêuticos para a crise global de saúde mental.
A tese “Conexão entre natureza e saúde mental em paisagens urbanas e rurais: determinantes ambientais e sociais”, da pesquisadora Karla Vieira Morato, teve seus resultados publicados na revista científica Journal of Environmental Psychology. Com informações do Jornal da USP.
Fonte: USP.
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