Após mais de 150 anos de ausência, tartarugas gigantes voltaram a percorrer a Ilha Floreana, no arquipélago das Ilhas Galápagos. Entre os dias 20 e 24 de fevereiro de 2026, 158 juvenis foram reintroduzidos como parte do Floreana Ecological Restoration Project, uma das mais amplas iniciativas de restauração já realizadas em uma ilha habitada na região.

Os animais, com idades entre aproximadamente 7 e 15 anos, são descendentes geneticamente ligados à linhagem original da tartaruga de Floreana, considerada extinta desde o século XIX em razão da caça intensiva — especialmente por baleeiros — e da introdução de espécies invasoras.
Estudos genéticos realizados no início dos anos 2000 identificaram, no Vulcão Wolf, ao norte da Ilha Isabela, indivíduos que carregavam ancestralidade de Floreana. A partir deles, foi estruturado um programa de reprodução cuidadosamente manejado para formar uma população o mais próxima possível da linhagem original.
“Hoje representa a culminação de anos de pesquisa genética e colaboração em conservação”, afirmou Hugo Mogollón, presidente e CEO da Galápagos Conservancy, que liderou a liberação das tartarugas ao lado do Parque Nacional de Galápagos. Segundo ele, ao identificar indivíduos com ancestralidade de Floreana e reproduzir seus descendentes, tornou-se possível devolver à ilha uma forma que reflete de maneira próxima a linhagem original, estabelecendo uma base científica essencial para a restauração dos ecossistemas locais e para futuras reintroduções de outras espécies nativas.
Projeto liderado pelo Estado e por instituições científicas
O projeto é liderado pelo Ministério do Meio Ambiente e Minas do Equador, por meio da Direção do Parque Nacional de Galápagos (GNPD) e da Agência de Biosegurança e Quarentena de Galápagos (ABG), e executado em conjunto com a Charles Darwin Foundation, a Fundação Jocotoco e a Island Conservation, com apoio da Galápagos Conservancy e de outras instituições.
“A iniciativa representa um dos maiores desafios já assumidos pelo Parque Nacional de Galápagos”, declarou Lorena Sánchez, diretora do parque ao Charles Darwin Foundation. Segundo ela, após anos de trabalho científico rigoroso e planejamento cuidadoso — especialmente por se tratar de uma ilha habitada — o retorno das tartarugas reflete uma visão de restauração de longo prazo voltada à recuperação progressiva da funcionalidade ecológica dos ecossistemas de Floreana.

Comunidade no centro da restauração
Com cerca de 160 moradores, Floreana está no centro de uma abordagem que prioriza a comunidade local. O projeto foi desenvolvido com e para os residentes, com foco tanto na recuperação ambiental quanto no bem-estar socioeconômico da população.
“Por gerações, Floreana existiu sem suas tartarugas gigantes”, afirmou Verónica Mora, representante da comunidade da ilha. “O retorno delas mostra o que é possível quando uma comunidade lidera e muitos parceiros se unem com um propósito comum. Este momento marca um passo importante rumo a um futuro em que conservação e bem-estar caminham juntos — porque nossos meios de vida, do turismo à agricultura e à pesca, dependem da saúde desta ilha.”
A participação comunitária incluiu oficinas de planejamento, apoio a medidas de biossegurança e envolvimento no monitoramento ecológico de longo prazo. Esse engajamento já contribuiu para conquistas relevantes, como a redescoberta do Galápagos Rail (Laterallus spilonota), ave rara conhecida localmente como Pachay, que não era registrada na ilha desde a primeira visita de Charles Darwin ao arquipélago.
Espécie-chave para a regeneração dos ecossistemas
As tartarugas gigantes são consideradas espécies-chave para a dinâmica ecológica das ilhas. Como “engenheiras do ecossistema”, ajudam a manter habitats abertos, promovem o crescimento de plantas nativas e criam condições para que diferentes espécies prosperem.
Ao dispersarem sementes, moldarem a vegetação e formarem micro-habitats — como as depressões conhecidas como “wallows”, onde se banham em lama — influenciam diretamente a regeneração da paisagem.
“Os habitats são a base da biodiversidade — o lar que permite que as espécies se movam, vivam e evoluam naturalmente ao longo do tempo”, afirmou Rakan Zahawi, diretor executivo da Charles Darwin Foundation. “As tartarugas gigantes são parte crítica desse sistema. Ao dispersarem sementes, moldarem a vegetação, criarem micro-habitats e influenciarem como as paisagens se regeneram, ajudam a reconstruir processos ecológicos dos quais muitas outras espécies dependem.”
Conexão entre terra e mar
A ausência das tartarugas por quase dois séculos alterou profundamente os processos ecológicos de Floreana. A expectativa é que sua volta impulsione a regeneração natural da vegetação e fortaleça conexões entre os ambientes terrestre e marinho.
Ao abrirem clareiras e favorecerem a presença de aves — incluindo espécies previstas para futuras reintroduções — as tartarugas podem contribuir indiretamente para o enriquecimento de nutrientes que chegam aos ecossistemas marinhos, beneficiando recifes de coral e áreas de pesca.
A reintrodução marca o início de uma etapa de monitoramento contínuo para avaliar adaptação, dispersão e impactos ambientais. Mais do que o retorno de uma espécie, o projeto simboliza a tentativa de restaurar um sistema ecológico interrompido há mais de 180 anos, reunindo ciência, políticas públicas e participação comunitária em torno de um mesmo objetivo.
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