A restauração ecológica dos ecossistemas brasileiros ganha novo impulso com iniciativas que, unindo esforços do setor público e privado, buscam recuperar áreas degradadas e potencializar a proteção de recursos naturais essenciais, como a biodiversidade e os mananciais de água.

No início de março, o governo do Pará anunciou a concessão de 30 mil hectares para empresas especializadas em restauração florestal na região do Triunfo do Xingu, uma das áreas mais impactadas pelo desmatamento na Amazônia. Essa iniciativa segue o modelo do edital lançado em 2024 na própria Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, em que a empresa vencedora assume a responsabilidade de restaurar a área em troca da comercialização de créditos de carbono. Projetos semelhantes estão previstos para a Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia, com edital a ser lançado pelo governo federal ainda este ano, enquanto estudos para concessão de outras sete áreas públicas já estão em andamento.
A Importância da Restauração Ecológica na Agenda Climática
A estratégia de restauração vem sendo impulsionada pela crescente demanda global para combater as mudanças climáticas. Até 2030, as Nações Unidas promoverão a Década da Restauração de Ecossistemas, reconhecendo que, para além do controle do desmatamento, é necessário recuperar áreas degradadas para garantir a saúde dos biomas e a qualidade de vida. Embora a Amazônia seja referência no sequestro de carbono, ecossistemas como o Cerrado desempenham papel fundamental na manutenção dos recursos hídricos, sendo responsáveis pelo abastecimento de oito das 12 principais bacias hidrográficas do país.

Com aproximadamente 109 milhões de hectares de pastagens degradadas – uma área equivalente a duas vezes o tamanho da Espanha – o potencial para a restauração ecológica é imenso. No entanto, especialistas destacam que simplesmente “deixar a natureza agir” não é suficiente. A regeneração efetiva exige medidas que vão desde a vedação de áreas para impedir o acesso de gado e a propagação do fogo, até intervenções ativas, como o plantio e monitoramento de mudas de espécies nativas. A diversidade de paisagens, especialmente em regiões como o Cerrado – que se caracteriza por um mosaico de campos, áreas florestais e savanas – torna o processo ainda mais complexo e demanda uma abordagem específica para cada ecossistema.
Mapeamento de Áreas Prioritárias
Um estudo recente, publicado na revista Biological Conservation e que contou com a colaboração de mais de 80 pesquisadores, mapeou áreas estratégicas para a restauração ecológica em todos os biomas do Brasil. Entre os critérios utilizados, a conectividade se destacou: áreas restauradas podem funcionar como corredores ecológicos, facilitando o fluxo genético e a movimentação de animais, especialmente de espécies que necessitam de grandes territórios, como a puma e a onça. A análise, que envolveu dados de mais de 10 mil espécies nativas, revelou a importância das zonas de transição entre biomas, regiões que, apesar de sua alta diversidade e riqueza de habitats, sofrem com intensas pressões de desmatamento.

Oportunidades de Investimento e Novos Negócios
Além de orientar políticas públicas, o mapeamento tem despertado o interesse de investidores no crescente mercado de restauração ambiental. Empresas que operam com a venda de créditos de carbono, como a Mombak – que já acumula 20 mil hectares de projetos na Amazônia e atraiu investimentos de grandes fundos internacionais – e a Biomas, criada por um consórcio de bancos e indústrias, estão apostando na recuperação de vastas áreas para transformar o cenário ambiental do país. Para esses negócios, a capacidade de absorção de carbono é um fator decisivo, mas os pesquisadores ressaltam que outros benefícios, como a melhoria dos recursos hídricos e o fortalecimento da biodiversidade, também devem ser considerados.
Outro aspecto crucial diz respeito à necessidade de restaurar áreas desmatadas ilegalmente, especialmente aquelas que integram as chamadas Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais. De acordo com o Termômetro do Código Florestal, existem cerca de 20,7 milhões de hectares que, por força da legislação, devem ser recuperados – uma área que supera, quase em dobro, a meta de 12 milhões de hectares estipulada pelo Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Embora o plano tenha enfrentado desafios e interrupções durante administrações anteriores, a retomada pelo governo atual sinaliza uma nova etapa para a restauração ecológica no Brasil.

Caminhos para um Futuro Sustentável
Paralelamente aos esforços do setor privado, o governo federal desenvolve seu próprio mapa de áreas prioritárias para restauração. Em parceria com universidades, institutos de pesquisa e organizações não-governamentais, o projeto integrará critérios diversos – desde a conservação da biodiversidade e a mitigação das mudanças climáticas até a disponibilidade hídrica e os custos de implementação – com o objetivo de orientar os investimentos para locais com maior potencial de retorno ambiental e econômico. A previsão é que esse mapeamento seja finalizado até outubro de 2025, fortalecendo a base para decisões estratégicas que podem transformar a paisagem dos biomas brasileiros.
A integração de esforços entre governo, setor privado e sociedade civil promete não apenas cumprir metas ambientais, mas também estimular a criação de um mercado robusto para a restauração ecológica, alinhado com as demandas da agenda climática global e os desafios impostos pela degradação ambiental.
Fonte: Mongabay Brasil.
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