Nove anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, a paisagem da bacia do Rio Doce ainda carrega as cicatrizes de mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O que antes era uma rica tapeçaria de Mata Atlântica tornou-se, em muitos pontos, um solo endurecido, pobre em nutrientes e saturado de metais. No entanto, uma expedição científica de cinco anos liderada pela UFMG acaba de publicar o que pode ser considerado o “manual de instruções” para a ressurreição desse ecossistema.

O estudo, publicado na prestigiada Nature Conservation Research, revela que a solução para o desastre não está em simplesmente “plantar árvores”, mas em entender a complexa engenharia química que conecta o solo às raízes.
A Floresta “Modelo”: Onde a Vida Resistiu
Para saber o que foi perdido, os pesquisadores do projeto Biochronos fizeram um trabalho de detetive ambiental. Eles buscaram os chamados Ecossistemas de Referência: fragmentos de mata que, por sorte ou geografia, escaparam da avalanche de lama.
Ao analisar 45 parcelas em distritos como Santa Rita Durão e Monsenhor Horta, a equipe catalogou uma biodiversidade resiliente: 174 espécies de árvores adultas e 189 juvenis. O dado mais surpreendente? A floresta não é uniforme. A pesquisa provou que existe uma conexão íntima — um gradiente edáfico-florístico — onde as plantas escolhem exatamente onde morar baseadas na acidez e nos nutrientes do solo.
As Protagonistas: Embaúbas e a Família das Leguminosas
Se a floresta fosse um canteiro de obras, a Embaúba (Cecropia) seria a mestre de obras. Os biólogos identificaram que ela é uma das espécies mais promissoras para terrenos atingidos por rejeitos. Ela não apenas tolera a alta concentração de ferro e manganês, como também:
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Cria sombra estratégica: Protege o solo do sol escaldante, permitindo que espécies mais sensíveis germinem.
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Atrai a “mão de obra” animal: Seus frutos atraem pássaros e morcegos que trazem sementes de outras áreas, funcionando como um imã de biodiversidade.
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Enriquece o terreno: Junto com as plantas da família Fabaceae (leguminosas), ela ajuda a fixar nitrogênio e matéria orgânica em um solo que hoje é quase estéril.

O Alerta: O Perigo do “Reflorestamento de Prateleira”
Aqui reside o ponto mais crítico e polêmico da pesquisa: a crítica à homogeneização. Muitas iniciativas de reparação ambiental tendem a usar um grupo restrito de espécies de crescimento rápido em toda a extensão de um rio. Segundo o professor Geraldo Wilson Fernandes, isso é um erro estratégico grave.
Como o solo da bacia do Rio Doce é extremamente variado, tentar “padronizar” a recuperação pode criar um ecossistema frágil e artificial. Se a restauração não respeitar as diferenças entre cada trecho do rio, corremos o risco de um segundo desastre: o desaparecimento da identidade biológica da região.
Ciência como Esperança
A pesquisa da UFMG entrega para as mineradoras e órgãos ambientais um mapa de quais espécies plantar em quais condições de pH e nutrientes. É a diferença entre um plantio que morre em dois anos e uma floresta que se sustenta por séculos. Como diz o agente administrativo Andréa Souza, moradora da região: “A natureza dá conta do resto, mas cada um precisa fazer sua parte”. E, agora, a ciência deu o caminho.
Assista ao vídeo sobre a pesquisa:
Para entender visualmente a dimensão do trabalho de campo e ver as espécies mencionadas em seu habitat natural, confira o vídeo abaixo:
Fonte:
OI: https://dx.doi.org/10.24189/ncr.2024.006
https://www.ufmg.br/comunicacao/assessoria-de-imprensa/releases/pesquisa-e-inovacao/pesquisa-da-ufmg-identifica-especies-que-podem-ajudar-na-recuperacao-da-bacia-do-rio-doce/
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