Quatro anos após tragédia de Mariana, peixes do rio Doce ainda apresentam níveis perigosos de contaminação

Estudo científico mostra que, anos após o rompimento da barragem de Fundão, peixes do rio Doce seguem contaminados por metais tóxicos, mantendo riscos à saúde humana e às populações ribeirinhas

Mesmo quatro anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), os impactos do maior desastre de mineração do mundo continuam presentes na Bacia do Rio Doce. Um estudo publicado na revista científica Total Environment Advances revelou que, em 2019, peixes do rio ainda apresentavam altos níveis de contaminação por metais e outras substâncias tóxicas, tornando o consumo desses animais desaconselhável devido aos riscos à saúde humana.

Foto: Reprodução/Redes sociais

A pesquisa analisou 503 peixes de diferentes espécies, como lambaris, cascudos, jundiás e mandis, coletados em diversos trechos do rio Doce. Os resultados apontaram a presença de 13 metais nos organismos, incluindo alumínio, bário, cádmio, cobalto, cromo, ferro, lítio, manganês, níquel, chumbo e zinco. Entre eles, cádmio, cromo e chumbo ultrapassaram os limites legais estabelecidos, representando risco significativo à saúde. Enquanto cádmio e cromo são associados a efeitos cancerígenos, o chumbo pode causar prejuízos neurológicos, como perda de memória e redução do quociente de inteligência (QI). Ferro e manganês foram os metais mais frequentemente detectados.

O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo Flávia Yamamoto, professora visitante da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autora da pesquisa, os resultados mostram que a contaminação persistiu muito além do período inicialmente esperado. “A barragem se rompeu em 2015 e, embora alguns estudos tenham indicado redução da contaminação já no ano seguinte, os peixes ainda apresentavam níveis elevados de metais e outras substâncias tóxicas cinco anos após o desastre”, afirma. Para ela, investigações independentes precisam ser realizadas com maior regularidade.

O rompimento da barragem do Fundão, pertencente à mineradora Samarco — controlada pela Vale e pela BHP —, ocorreu em novembro de 2015, matou 19 pessoas, deixou mais de 600 desabrigadas e despejou cerca de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração no ambiente. A lama alcançou o rio Doce e percorreu sua bacia hidrográfica, que abrange 230 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, causando impactos também no ambiente marinho.

Um rio transformado em “bomba de poluentes”

Considerado um dos estudos mais abrangentes já realizados na região, o trabalho se destacou tanto pelo número de peixes analisados quanto pela estratégia de coleta, realizada em diferentes trechos do rio e em duas estações do ano — período chuvoso e inverno. De acordo com Yamamoto, o desastre provocou um “efeito duplo” na dinâmica de contaminação do rio.

Além de introduzir novos poluentes, a lama do rompimento trouxe novamente à coluna d’água contaminantes que estavam depositados no leito do rio há décadas. “Essa dinâmica, intensificada durante o período chuvoso, transforma o rio em uma bomba de poluentes, perpetuando a contaminação da cadeia alimentar”, explica a pesquisadora.

A situação é agravada pelo histórico da região do Alto Rio Doce, inserida no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. A área é marcada por mais de 300 anos de exploração mineral, iniciada com o garimpo de ouro, que já havia introduzido metais tóxicos como arsênio e mercúrio no ambiente antes mesmo do rompimento da barragem. Atualmente, a extração de ferro e manganês segue ativa, contribuindo para uma mistura complexa de contaminantes.

. Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios via Agência Brasil

Somam-se a esse cenário outras fontes de poluição. A bacia do rio abriga o maior complexo siderúrgico da América Latina, conhecido como Vale do Aço, além de receber efluentes industriais e esgoto doméstico não tratado de diversos municípios, como Governador Valadares. A agricultura intensiva também contribui para o aumento da carga de poluentes.

Riscos crônicos e impactos sociais

A pesquisa avaliou a bioacumulação de contaminantes nos peixes, realizou análises químicas da água e dos sedimentos e estimou os riscos à saúde humana associados ao consumo desses animais, incluindo efeitos cancerígenos e não cancerígenos. Para Yamamoto, o principal desafio ambiental da Bacia do Rio Doce está relacionado aos efeitos crônicos da contaminação. “Trata-se de uma exposição prolongada a poluentes ao longo do tempo. São impactos cumulativos que nem sempre são perceptíveis de imediato”, afirma.

Denis Abessa, professor da Unesp e supervisor do estudo, chama atenção para a indefinição dos objetivos de recuperação ambiental da bacia. “Ainda não está claro se a meta é retornar aos níveis de contaminação anteriores ao desastre, que já eram altos, ou buscar padrões realmente seguros para a saúde humana e o meio ambiente”, avalia.

Os efeitos da contaminação recaem de forma mais dura sobre populações ribeirinhas e comunidades tradicionais que dependem da pesca como principal fonte de alimento e renda. Segundo Abessa, a recomendação de não consumir pescado coloca essas populações diante de um dilema cruel: “Arriscar a saúde a longo prazo ou enfrentar a fome e a insegurança alimentar”.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a necessidade de monitoramento contínuo e transparente por parte das autoridades ambientais. Yamamoto ressalta a importância de que estudos independentes sejam divulgados de forma acessível à população afetada. “As pessoas precisam de informações confiáveis para tomar decisões informadas sobre sua própria saúde e sobrevivência”, afirma.

O artigo A pretty kettle of fish: Contamination of fish from the Doce River basin after the world’s largest mining disaster and associated human health risks pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2950395725000177.

Fonte da matéria: O Eco


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