Amarela, discreta e resistente. Assim é a nova espécie de joaninha identificada no semiárido nordestino, cuja descoberta amplia o conhecimento científico sobre adaptação em ambientes extremos. Mais do que uma revelação taxonômica, a espécie aproxima a ciência da complexidade ecológica da Caatinga — um bioma marcado por interações e estratégias de sobrevivência que nem sempre são visíveis à primeira vista.

Descoberta por pesquisadores do Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), a espécie foi classificada como Mada gregaria, da família Coccinellidae. Trata-se do primeiro registro do gênero Mada nesse bioma exclusivamente brasileiro.
Do ponto de vista morfológico, a joaninha apresenta corpo oval, com coloração que varia do amarelo ao castanho-amarelado, sem as tradicionais manchas arredondadas nos élitros — as asas rígidas que caracterizam joaninhas e outros besouros. As margens laterais mais claras formam um padrão considerado único dentro do grupo ao qual pertence. Nos machos, a diferenciação em relação a espécies semelhantes foi possível a partir de características genitais específicas, um critério fundamental para o diagnóstico taxonômico em insetos morfologicamente próximos.

Os exemplares foram encontrados em áreas de dunas nos municípios de Casa Nova e Pilão Arcado, no norte da Bahia, região conhecida como Dunas do São Francisco. Nesse ambiente, a Caatinga se manifesta em ilhas de vegetação que emergem da areia, formando um ecossistema marcado por altas temperaturas, baixa disponibilidade hídrica e intensas variações ambientais.
A descoberta ocorreu de forma inesperada, como relata André Junior, pesquisador que integra a equipe responsável pelo estudo. Em entrevista ao Florestal Brasil, ele explica como os pesquisadores perceberam que se tratava de uma espécie ainda não descrita pela ciência:
“Foi totalmente inesperado porque a gente foi para campo faz um certo tempo, acho que descobrimos em 2023, com intuito de coletar escorpiões e algumas formigas, e levamos alguns materiais, um guarda-chuva entomológico e uma rede entomológica, porque essa área que nós fomos, que são as Dunas de São Francisco, é pouco explorada e tem uma biodiversidade incrível no que se refere a fauna e a flora. Quando passamos a rede, vimos um besourinho diferente com uma coloração peculiar, que então se tratava de uma joaninha”, explicou.
Uma relação inédita entre inseto e planta no semiárido
Durante o estudo, os cientistas registraram que Mada gregaria utiliza como planta hospedeira a Strychnos rubiginosa, conhecida regionalmente como capitão ou bacupari. Esse é o primeiro registro documentado de associação entre uma joaninha herbívora da tribo Epilachnini e uma planta da família Loganiaceae.
A relação com a planta revelou comportamentos adaptativos importantes. Os pesquisadores observaram que os adultos costumam permanecer agregados na parte inferior das folhas, possivelmente como forma de proteção contra a incidência direta do sol. Com o acompanhamento ao longo do tempo, no entanto, perceberam que os indivíduos continuavam agrupados mesmo sem disponibilidade alimentar, permanecendo na mesma região por cerca de três meses. A agregação prolongada sugere uma estratégia de dormência como resposta às condições severas da Caatinga.

As larvas, por sua vez, foram observadas raspando a superfície das folhas logo após a eclosão, aproveitando a maior umidade e o sombreamento proporcionados pela planta hospedeira.
O que essa espécie nos ensina sobre sobreviver na Caatinga
Para André Junior, a joaninha exemplifica a pressão adaptativa enfrentada pelos organismos que vivem nesse bioma e o potencial de resistência desenvolvido ao longo do tempo.
“O que ela pode nos ensinar sobre a Caatinga é que primeiramente não é fácil sobreviver lá. Cada bioma tem suas particularidades, mas falando da caatinga, esses períodos de seca fazem com que essas espécies precisem desse poder de adaptação para justamente conseguir sobreviver. E quando a gente vê um indivíduo que é tão pequeno e olhamos com mais paciência e um olhar científico a gente observa que ela possui uma enorme pressão adaptativa mas também um grande potencial de adaptação, e isso faz com que eles continuem se desenvolvendo em um ambiente que para muitos pode ser hostil devido ao clima seco”, disse.
Ele também aponta a diapausa como uma estratégia possível diante do estresse ambiental:
“Pode se dizer que essa foi estratégia adaptativa para indivíduos que apresentam um certo estresse, e quando a gente trás essa situação pensando no bioma da Caatinga, a gente sabe que ele tem longos períodos de seca, então se os animais entram em diapausa, eles diminuem o metabolismo e tem mais chance de sobreviver até chegar o período de chuvas onde é mais propício para o desenvolvimento da espécie”, completou.
Os pesquisadores sugerem ainda que essa estratégia esteja relacionada ao ciclo das plantas da região. Durante a seca, as folhas tendem a cair e, como se trata de uma espécie herbívora, a entrada em diapausa reduz a necessidade de alimentação. Com o retorno do período chuvoso e o rebrotamento das folhas, os indivíduos retomam a atividade alimentar, aumentando suas chances de suportar o estresse climático.
O caráter inédito da descoberta se amplia quando observado no contexto da região Neotropical. Até então, apenas três famílias de plantas — Aristolochiaceae, Cucurbitaceae e Solanaceae — eram conhecidas como hospedeiras de joaninhas da tribo Epilachnini. A associação com a Strychnos rubiginosa amplia esse espectro e levanta questões relevantes sobre coevolução, tolerância química e adaptações fisiológicas, especialmente considerando que plantas do gênero Strychnos possuem alcaloides reconhecidamente tóxicos.
Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico internacional Annales de la Société entomologique de France. Para acompanhar as pesquisas e divulgações pelo Instagram, acesse: @mirmecologiasertao @aracno_pe_aracno @cemafauna
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