Nova espécie de perereca descoberta no Cerrado de Minas Gerais levanta alerta para conservação do bioma

Anfíbio identificado em apenas duas localidades pode existir exclusivamente na região de Paracatu e reforça importância da preservação ambiental.

A descoberta de uma nova espécie de perereca no Cerrado do noroeste de Minas Gerais reforça que ainda há formas de vida desconhecidas mesmo em biomas considerados relativamente bem estudados. O anfíbio, batizado de Ololygon paracatu, foi registrado em apenas duas localidades no município de Paracatu e pode existir exclusivamente nessa região.

Foto: Alejandro Valencia-Zuleta

 

A espécie foi descrita em estudo publicado na revista científica Zootaxa. De pequeno porte, os machos medem entre 20,4 e 28,2 milímetros, enquanto as fêmeas variam de 29,3 a 35,2 milímetros. Os pesquisadores identificaram diferenças morfológicas, acústicas e genéticas em relação a outras espécies já conhecidas do mesmo gênero.

Para confirmar que se tratava de uma espécie ainda não descrita pela ciência, a equipe utilizou uma combinação de métodos. Entre eles estão análises genéticas, comparações detalhadas da anatomia e gravações das vocalizações — um elemento central para a identificação de anfíbios, já que o canto é um dos principais mecanismos de diferenciação entre espécies.

O material coletado também foi comparado com espécimes preservados em coleções biológicas de museus e universidades. Esse procedimento permite verificar se o organismo já foi catalogado anteriormente ou se apresenta características inéditas.

Segundo Daniele Carvalho, primeira autora do estudo e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, a descoberta começou a tomar forma durante pesquisas de campo realizadas para sua tese de doutorado.

“Os trabalhos começaram em 2018, quando fui pesquisar anfíbios daquela região de Minas Gerais. Após coletar algumas pererecas para o estudo, comecei a perceber que elas tinham características, principalmente de som, diferentes entre si. Com análises mais detalhadas, vimos que se tratava de uma espécie ainda não descrita”, explica.

Para que uma nova espécie seja reconhecida oficialmente, as diferenças precisam ser consistentes e sustentadas por múltiplas evidências científicas. No caso da Ololygon paracatu, os dados indicaram que o anfíbio representa uma linhagem evolutiva distinta dentro de um grupo já conhecido de pererecas.

Foto: Alejandro Valencia-Zuleta

Indício da qualidade ambiental

Além do avanço científico, a descoberta também levanta um alerta ambiental. As pererecas foram encontradas nas cabeceiras do Rio Paracatu, um dos principais afluentes do Rio São Francisco em território mineiro.

De acordo com Reuber Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília, a presença da espécie indica boa qualidade ambiental no local onde foi registrada.

“A presença dessa espécie na cabeceira do rio mostra que o local possui água de qualidade e evidencia o potencial de recuperação do rio, que em outros trechos sofre com poluição e pressões da mineração e do desmatamento”, disse.

A descoberta também reforça a importância da conservação do Cerrado, considerado o segundo maior bioma do Brasil e presente em grande parte do território central do país. Dados do MapBiomas indicam que, nos últimos 40 anos, o Cerrado perdeu cerca de 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa — o equivalente a 28% de sua cobertura original.

Anfíbios como indicadores ambientais

Os pesquisadores destacam que anfíbios são considerados importantes bioindicadores ambientais. Por possuírem pele permeável e ciclo de vida ligado à água, essas espécies respondem rapidamente a mudanças no ambiente e à presença de poluentes.

Segundo Carvalho, a ocorrência da nova perereca em uma área relativamente preservada contrasta com a degradação observada em regiões próximas.

“A presença dessas pererecas indica a qualidade ambiental do local, enquanto o entorno já está bastante degradado. Em outros rios próximos, a espécie não foi encontrada, muito provavelmente devido à degradação ambiental”, afirma.

Biodiversidade e potencial científico

Além de sua importância ecológica, anfíbios também despertam interesse científico por produzirem substâncias químicas na pele com potencial aplicação médica. Compostos isolados desses animais já demonstraram propriedades antibacterianas e antifúngicas em pesquisas laboratoriais.

Embora a descoberta de uma nova espécie não signifique automaticamente o desenvolvimento de medicamentos, ela amplia o repertório genético conhecido pela ciência — e, com isso, as possibilidades futuras de pesquisa.

“Ainda é cedo para afirmar se essa espécie poderá originar algum fármaco, mas ela mostra o potencial do Cerrado para ampliar pesquisas em biotecnologia”, diz Brandão.

Um exemplo conhecido desse tipo de aplicação envolve o monstro-de-gila, lagarto venenoso que vive no sul dos Estados Unidos e no norte do México. Estudos sobre uma molécula presente em seu veneno levaram ao desenvolvimento de medicamentos usados no tratamento do diabetes tipo 2, como o Ozempic e o Wegovy.

A história ilustra como a biodiversidade ainda pouco conhecida pode guardar informações valiosas para a ciência — reforçando o papel da conservação na proteção de espécies e ecossistemas.


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