Flor-de-Carajás: estudo revela como espécie ameaçada ajusta seu ciclo de vida ao microclima

Pesquisa do Instituto Tecnológico Vale e UFRJ descobre mecanismo de “compensação demográfica”: planta altera taxas de crescimento e germinação conforme o ambiente para evitar extinção.

Ameaçada de extinção e com ocorrência restrita ao Pará, a flor-de-Carajás (Ipomoea cavalcantei) ajusta suas taxas de crescimento e fecundidade de acordo com as condições microclimáticas do ambiente. É o que aponta um estudo publicado na revista New Phytologist nesta quinta-feira (12). O achado, que é fruto de uma colaboração entre o Instituto Tecnológico Vale e diversas instituições brasileiras, como a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), pode orientar planos de conservação para essa e outras espécies endêmicas.

Flor-de-carajás (Ipomoea cavalcantei), que é restrita ao Pará e está ameaçada de extinção

A equipe acompanhou populações naturais da flor-de-Carajás em duas áreas distintas de cangas (afloramentos de rochas ferruginosas) na Floresta Nacional de Carajás, no sudeste do Pará: a canga aberta, marcada por altos níveis de radiação, alta incidência de luz e temperaturas elevadas, e a canga arbustiva, com condições climáticas mais amenas. Centenas de plantas foram marcadas e medidas entre 2022 e 2024 para avaliar crescimento, sobrevivência, recrutamento e produção de sementes, enquanto sensores instalados no solo registraram as variações de temperatura e luz.

Paralelamente, os pesquisadores realizaram experimentos controlados de germinação, quebra de dormência e estabelecimento de plântulas (embriões vegetais já desenvolvidos que emergem da semente), expondo sementes e plantas jovens a diferentes regimes que simulam as condições naturais de seus habitats. O desempenho das populações foi comparado a partir dos resultados.

Na canga arbustiva, as plantas apresentaram maiores taxas de crescimento e produção de sementes, embora apenas um número reduzido de sementes tenha conseguido germinar e se estabelecer. Já na canga aberta, as sementes da flor-de-Carajás exibiram maior proporção de germinação e, consequentemente, maior número de plântulas, mas atingiram menores tamanhos na fase adulta.

“O estudo mostra que populações em ambientes contrastantes apresentam crescimento populacional semelhante, mas sustentado por conjuntos diferentes de taxas vitais”, diz Talita Zupo, autora do estudo. Na prática, isso indica que ambientes mais “estressantes”, como a canga aberta, não devem ser automaticamente descartados como prioritários para a conservação, pois podem sustentar populações viáveis por meio de estratégias distintas. “Em cangas abertas, ações que favoreçam recrutamento e estabelecimento inicial podem ser mais eficazes, enquanto a manutenção da sobrevivência e do crescimento de indivíduos adultos pode ser mais crítica em cangas arbustivas”, exemplifica a pesquisadora.

O mecanismo identificado no estudo, conhecido como compensação demográfica, pode aumentar a resiliência da espécie diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. “A compensação demográfica pode permitir que a espécie mantenha seu crescimento populacional semelhante mesmo quando condições ambientais mudam, desde que as mudanças afetem diferentes taxas vitais de forma assimétrica, como reduzindo o crescimento, mas favorecendo o recrutamento, por exemplo”, aponta Carolina Carvalho, também autora do trabalho.

No entanto, o trabalho indica que essa estratégia também tem limites. “Temperaturas muito elevadas ou condições fora dos limiares fisiológicos podem comprometer várias taxas vitais simultaneamente e reduzir a capacidade de sobrevivência”, diz.

Para as autoras, a principal lição deixada pelo estudo é a de que os detalhes importam quando o tema é a conservação de espécies endêmicas. “Vimos que diferenças de poucos graus na temperatura do solo ou variações na incidência de luz alteram a quebra de dormência, modificam taxas de germinação e influenciam no crescimento e no desempenho fotossintético”, destacam. “Abordagens baseadas apenas em clima regional ou médias ambientais podem mascarar mecanismos-chave que operam em escalas finas”, ressaltam.

Os achados da pesquisa podem ser essenciais para a otimização de planos de conservação focados nas necessidades das populações de cada habitat. “Para espécies ameaçadas e endêmicas, como a Ipomoea cavalcantei, incorporar o microclima nas estratégias pode nos ajudar a melhorar previsões sobre a vulnerabilidade da espécie frente mudanças ambientais e informar ações de restauração mais eficazes”, pontua Carvalho, reforçando a necessidade de conservar mosaicos ambientais, não apenas alguns tipos de habitat.

“Políticas de conservação devem buscar preservar a heterogeneidade ambiental, pois é justamente essa variação que permite a compensação entre taxas vitais e sustenta a persistência da espécie”, conclui.

DOI: https://doi.org/10.1111/nph.70944

Fonte: Bori


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Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

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