Ecologia de Estradas: como a ciência busca frear o atropelamento de fauna no Brasil

Projeto da UFPR mapeia colisões em rodovias urbanas e propõe soluções, como passarelas e cercamentos, para mitigar a morte de milhões de animais silvestres todos os anos.

Por décadas, o progresso foi medido em quilômetros pavimentados. No Brasil, entre 1960 e 1980, a malha rodoviária federal saltou de 8,6 mil quilômetros para quase 48 mil quilômetros, segundo o Conselho Nacional de Trânsito (CNT). Mas o crescimento, que consolidou o modelo rodoviarista brasileiro, fragmentou habitats e transformou o asfalto em uma das principais causas de mortalidade da fauna silvestre. Um estudo publicado em 2022 no periódico Diversity, focado em biodiversidade, estima que 1,3 milhão de animais morrem todos os anos em colisões nas estradas brasileiras.

Anfíbios, como o sapo cururu, estão entre os mais vulneráveis a acidentes em estradas. (Foto: Vinícius Souza)

Mas a ciência está de olho nesse impasse. Desde os anos 1970, quando a expansão rodoviária do pós-guerra impactou florestas em escala inédita no hemisfério Norte, pesquisadores estruturam a Ecologia de Estradas, que, entre outras coisas, analisa padrões de atropelamento a partir do monitoramento da fauna. Essa é uma das frentes do projeto de extensão Olha o Bicho, vinculado ao Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (Labceas), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que conta com dez voluntários, entre discentes de graduação e pós-graduação.

A iniciativa coleta e analisa carcaças encontradas no entorno de Unidades de Conservação Urbanas em Curitiba, registrando pontos de colisão e espécies afetadas. Com os dados obtidos, é possível pensar intervenções práticas, como a instalação de passarelas aéreas ou subterrâneas para os animais, além de cercamentos direcionadores, redutores de velocidade e sinalização específica, explica o docente Fernando de Camargo Passos, coordenador do trabalho.

Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, o Olha o Bicho monitorou um trecho de rodovia de 5,1 km no entorno do Parque Tingui, na região de Santa Felicidade, em 44 expedições de campo. Em cada saída, de dois a quatro observadores caminhavam pelos dois lados da via, examinando pista, calçadas e margens em busca de carcaças.

Quando um animal era encontrado, eles registravam data, horário e coordenadas geográficas em formulário online padronizado, realizando também a identificação taxonômica (ao menos por grupo) e fotografando o exemplar e o entorno. Nos casos em que a espécie não podia ser confirmada em campo, as imagens eram enviadas a especialistas parceiros. Para evitar recontagens, as carcaças eram removidas da pista e, quando em bom estado, destinadas a coleções científicas.

O projeto também previu a mortalidade aproximada na via por meio da análise de carcaças e áreas de risco de atropelamento. A estimativa é que, só no trecho monitorado, mais de 1,6 mil animais podem morrer por atropelamento a cada ano.

Parte dos resultados desse trabalho foi sistematizada na monografia de Henrique Gelinski, bacharel em Ciências Biológicas pela UFPR, que participou da equipe de campo. Por meio do software Siriema, que analisa padrões espaciais de atropelamento de fauna e identifica pontos críticos em rodovias, Gelinski verificou que as colisões não ocorriam de forma aleatória.

 

Sua avaliação revelou áreas de maior risco especialmente nas proximidades de corpos d’água (importantes para a reprodução de anfíbios), em trechos próximos a condomínios residenciais, onde o tráfego local é mais intenso, e em segmentos com inclinação acentuada, que dificultam a frenagem e reduzem a visibilidade dos animais na pista.

O estudo também calculou que o tempo médio de permanência das carcaças na pista é de 9,05 dias, dado relevante para o cálculo das taxas de mortalidade e para a compreensão da dinâmica dos atropelamentos no local.

Anfíbios são os mais vulneráveis a atropelamentos

O monitoramento total do projeto somou 235 carcaças de animais silvestres, entre as quais estavam gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita), tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia), teiú (Salvator merianae) e jararaca (Bothrops jararaca).

Os anfíbios representaram a maior parte das carcaças coletadas (38%). Na sequência, vieram os mamíferos (29%), as aves (22%) e os répteis (11%). Sapos do gênero Rhinella, os sapos-cururu, foram os mais atingidos por acidentes, possivelmente por terem menor porte e, portanto, serem menos vistos por motoristas, além de dependerem de deslocamentos sazonais para reprodução, segundo os pesquisadores.

O estudo reforçou que o atropelamento pode ser uma das principais causas de mortalidade de fauna silvestre em áreas urbanas com presença de fragmentos verdes. Em uma cidade como Curitiba, marcada pela proximidade entre vias de tráfego intenso e áreas naturais, o problema tende a extrapolar os limites do trecho estudado, tornando o diagnóstico contínuo e o engajamento da população peças-chave para enfrentar a questão, segundo o docente.

É nesse sentido, que, além de monitorar estradas, o projeto visa envolver a comunidade na coleta de dados por meio de postagens nas redes sociais, rodas de conversa, distribuição de folders, além de canais abertos via Instagram e WhatsApp.

O Olha o Bicho segue mapeando áreas de risco de atropelamento de fauna e atualmente acompanha um trajeto de 5,9 km na estrada que dá acesso ao Zoológico Municipal de Curitiba, no bairro Alto Boqueirão. Caso se depare com alguma carcaça ou área de risco, é possível notificar o projeto pelo WhatsApp (41) 98883-1876.

Fonte: Ciência UFPR


Descubra mais sobre Florestal Brasil

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

View all posts by Arthur Brasil →

Comenta ai o que você achou disso...