A região de transição entre o Cerrado e a Amazônia, no leste de Mato Grosso, vive hoje um dilema entre a expansão da fronteira agrícola e a manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais. Um estudo profundo publicado na ScienceDirect revela que a substituição da vegetação nativa por pastagens e lavouras não altera apenas a paisagem visível, mas modifica drasticamente a física do solo e o comportamento dos rios, comprometendo a segurança hídrica de toda a região.

Diferente de análises baseadas apenas em projeções computacionais, esta pesquisa fundamentou-se no monitoramento direto de oito pequenas bacias hidrográficas ao longo de três anos. Essa abordagem permitiu aos cientistas observar em tempo real como a terra reage à perda da cobertura vegetal. O que se descobriu foi um contraste severo entre o “efeito esponja” das áreas preservadas e o “efeito telhado” das áreas convertidas para uso agropecuário.
A Dinâmica da Infiltração e o Escoamento Superficial
Nas áreas onde a vegetação nativa permanece intacta, as raízes profundas e a estrutura do solo funcionam como uma infraestrutura natural de armazenamento. A água da chuva infiltra-se lentamente, recarregando o lençol freático e garantindo que o fluxo dos rios seja constante e previsível. No entanto, quando a floresta ou o Cerrado dão lugar ao pasto e à monocultura, o solo sofre um processo de compactação.
Sem a proteção das árvores e com a terra menos permeável, a água da chuva não consegue penetrar. Em vez disso, ela corre rapidamente pela superfície, elevando o volume de escoamento anual para quase o dobro em comparação com as áreas preservadas. Esse fenômeno gera picos de vazão, denominados cientificamente como Qbase, que aumentam significativamente o risco de enchentes repentinas e a erosão das margens, destruindo a infraestrutura rural e assoreando os leitos dos rios.
O Ponto de Virada Hídrico
Um dos pontos mais alarmantes trazidos pelo estudo é a identificação de um limiar crítico de conservação. Os dados indicam que, quando uma pequena bacia hidrográfica perde mais de 50% de sua vegetação original, o sistema atinge um ponto de ruptura. A partir desse patamar, a capacidade de autorregulação do ciclo hidrológico é perdida.
O resultado é um cenário de extremos:
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Durante a estação chuvosa, os rios transbordam com violência;
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Na estação seca, a vazão de base, ou Qbase, despenca.
Nas bacias desmatadas, o fluxo de água durante a estiagem chega a representar apenas 10% do volume anual, enquanto nas áreas preservadas esse índice se mantém em 30%, garantindo a sobrevivência do ecossistema e a disponibilidade de água para o consumo e produção mesmo nos meses mais críticos.
Consequências para o Futuro da Produção
Essa desestabilização hídrica gera um efeito bumerangue que atinge diretamente o agronegócio. A redução drástica da água disponível na seca compromete os sistemas de irrigação e o abastecimento de comunidades locais. Além disso, a instabilidade dos fluxos aumenta os custos de manutenção de estradas e pontes, frequentemente levadas pelas enxurradas em áreas de solo exposto.
A conclusão dos pesquisadores é clara: a conservação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais não deve ser vista apenas como uma conformidade ambiental, mas como uma estratégia econômica vital.
Manter a vegetação nativa é a única forma de garantir que a região de transição Cerrado-Amazônia continue a ter água suficiente para sustentar tanto a biodiversidade quanto a pujança agrícola que a caracteriza.
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