Você já notou que o calor parece pesar mais em alguns bairros do que em outros? Não é apenas impressão. Ao caminhar por uma comunidade na Zona Sul de São Paulo e compará-la com bairros nobres como Jardins ou Interlagos, a diferença de temperatura é física e brutal. Neste artigo, baseado na minha visita de campo recente, vamos discutir o que está por trás da falta de árvores nas periferias e por que a arborização urbana se tornou um marcador de desigualdade social no Brasil.
O Contraste Visual e Térmico
Dados do IBGE e a simples observação mostram uma realidade dura: onde há maior densidade demográfica e menor renda, há menos cobertura vegetal.
Enquanto bairros planejados e nobres de São Paulo, como Alto da Lapa e Pinheiros, chegam a ostentar índices altíssimos de árvores por habitante — criando verdadeiros túneis verdes —, as comunidades vivem sob o domínio do concreto e do asfalto. O resultado? Às 10h30 da manhã, a sensação térmica em uma rua sem árvores na periferia já ultrapassa os 30°C, enquanto áreas arborizadas desfrutam de um microclima muito mais ameno.
A Árvore vs. A Sobrevivência Econômica
Um dos pontos mais cruciais que observei conversando com moradores e analisando o espaço é que a falta de árvores não é apenas “falta de cultura” ou “desleixo”. Existe um fator econômico determinante.
Nas periferias, o quintal é um ativo financeiro. Muitas famílias se veem diante de uma escolha difícil: manter uma árvore no fundo de casa ou cimentar aquele espaço para construir um cômodo extra? Esse cômodo muitas vezes abriga um filho que casou ou serve de aluguel para complementar a renda familiar.
Nesse cenário de sobrevivência, a árvore é sacrificada. O espaço verde dá lugar à alvenaria, não por maldade, mas por necessidade.
A Negligência do Poder Público
Se o morador não tem espaço, a responsabilidade recai sobre a urbanização das ruas. E é aqui que o Estado falha.
Historicamente, as subprefeituras e órgãos ambientais tendem a concentrar esforços de paisagismo e manutenção em áreas que pagam IPTU mais caro. Cria-se uma lógica perversa onde o conforto ambiental é tratado como um “serviço premium” para bairros ricos.
Em comunidades com ruas estreitas e crescimento desordenado, a árvore é vista pelo planejamento urbano como um estorvo, um “impedimento” ao progresso, quando deveria ser parte integrante da infraestrutura básica, assim como o saneamento e a iluminação.
O Mito da “Sujeira” e do Perigo
Outra barreira para a arborização na periferia é cultural, alimentada pela má gestão pública. Muitos moradores rejeitam o plantio de árvores na calçada por dois motivos:
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A “Sujeira”: A queda de folhas é vista como lixo, e não como matéria orgânica.
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O Risco de Queda: Em épocas de ciclones e tempestades, o medo de uma árvore cair sobre a casa é real.
Porém, árvores saudáveis raramente caem. O que derruba árvores é a falta de manejo e manutenção preventiva por parte das prefeituras. Quando o Estado não cuida, a árvore vira um inimigo potencial aos olhos da população, em vez de ser vista como aliada.
Por que precisamos lutar pela “Floresta Urbana”?
Não podemos aceitar que o conforto térmico seja um privilégio de classe. As árvores oferecem serviços gratuitos e essenciais:
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Saúde Mental e Física: Reduzem o estresse e filtram poluentes que causam doenças respiratórias.
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Valorização: Bairros arborizados são mais valorizados financeiramente.
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Controle do Clima: Reduzem ilhas de calor e absorvem água da chuva, diminuindo enchentes.
Conclusão
A solução passa por exigir que a arborização seja tratada como política pública de saúde e infraestrutura, não apenas embelezamento. Precisamos de projetos que adaptem o verde às ruas estreitas e de uma gestão que priorize a manutenção preventiva nas áreas mais pobres.
A árvore não pode ser artigo de luxo. Ela é infraestrutura vital para a dignidade humana nas cidades.
Assista aqui ao vídeo sobre arborização urbana e esse contraste:
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