O “deserto verde” no Cerrado: avanço do eucalipto seca nascentes e expulsa pequenos produtores

Enquanto grandes fundos e Big Techs lucram com créditos de carbono, agricultores familiares enfrentam a seca de riachos e a inviabilidade da produção rural.

Para quem olha de longe, o verde intenso das plantações de eucalipto no Mato Grosso do Sul pode parecer um sinal de vigor econômico e natureza preservada. Mas para Adilso Cruz, um pequeno fazendeiro de 46 anos do assentamento Alecrim, essa paisagem esconde uma realidade árida e silenciosa. Onde antes corriam riachos o ano todo, hoje sobra apenas o leito seco e a poeira. O “boom” do eucalipto, que prometia desenvolvimento, está bebendo a água do Cerrado e, com ela, a esperança de quem vive da terra.

Eucalipto
Eucalipto

A transformação da paisagem e o bolso do produtor

A mudança foi brutal e rápida. Em apenas quinze anos, a extensão dessas plantações no estado quadruplicou, cobrindo agora uma imensidão de 1,6 milhão de hectares.

O impacto no solo foi imediato. Adilso conta que a escassez hídrica começou a apertar em 2013, coincidindo exatamente com o avanço das florestas plantadas. A grama morreu, a água superficial desapareceu e a conta chegou para o bolso do pequeno produtor. Com o pasto seco, ele viu seu rebanho encolher de 70 para 42 cabeças e sua renda despencar quase pela metade.

O que diz a ciência: 50 metros não bastam

O que os agricultores sentem na pele, a ciência confirma com dados preocupantes. Um levantamento feito em Selvíria mapeou 400 nascentes cercadas por essas fazendas e descobriu que a distância legal de 50 metros entre o plantio e a água é insuficiente.

As fontes estão secando ou morrendo devido à alta evapotranspiração das árvores jovens e de rápido crescimento. Para salvar o que resta, seria necessário ampliar essa proteção para 500 metros, mas o cenário político e econômico parece caminhar na direção oposta.

Legislação frouxa e o paradoxo do Carbono

Enquanto a água mingua, a burocracia para as grandes empresas afrouxa. Uma nova legislação assinada em maio de 2024 retirou a exigência de certas licenças ambientais para o eucalipto, dificultando a fiscalização e impedindo que autoridades avaliem os danos in loco sem mandados judiciais.

É o cenário perfeito para grandes bancos de investimento, que hoje detêm 90% dessas fazendas, e para gigantes da tecnologia como Apple e Microsoft, que investem milhões no setor sob a bandeira da compensação de carbono.

A ironia, contudo, é amarga. Críticos apontam que essas “florestas” de eucalipto pouco ajudam no sequestro real de carbono, já que as árvores viram papel e celulose a cada seis anos, devolvendo o gás para a atmosfera. O resultado é um ciclo onde o benefício ambiental é questionável, mas o prejuízo social é concreto.

O fim do sonho da terra própria

No assentamento de Adilso, metade das famílias já desistiu e foi embora. Aqueles que resistem enfrentam um paradoxo cruel: para sobreviver, muitos acabam vendendo sua força de trabalho justamente para as empresas de eucalipto que inviabilizaram suas roças. O sonho da terra própria, conquistado com tanta luta, está desmoronando diante de um gigante verde que não alimenta, não preserva e, pior de tudo, não deixa uma gota d’água para quem fica.

Fonte: Mongabay


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Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

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