Uma sequência de incêndios florestais de grandes proporções atinge o norte da Patagônia argentina desde o dia 9 de dezembro, revelando um cenário cada vez mais associado a extremos climáticos e à rápida propagação do fogo. As chamas se espalharam por ao menos quatro províncias — Chubut, Río Negro, Neuquén e Santa Cruz — e já consumiram dezenas de milhares de hectares, segundo dados oficiais de autoridades locais e órgãos federais de emergência. As causas dos focos ainda estão sob investigação.

O avanço do fogo não se limita à Argentina. Na Patagônia chilena, a intensificação dos incêndios neste fim de semana resultou na morte de ao menos 19 pessoas. O governo chileno segue mobilizado no combate a cerca de 30 focos ativos e na evacuação de áreas ameaçadas pelas chamas, em meio a uma onda de calor que levou os termômetros a alcançar 37 °C no sul do país.
A situação mais crítica no Chile foi registrada em Penco, pequena cidade costeira ao norte de Concepción, onde o fogo avançou de forma extremamente rápida, devastando a paisagem e dificultando as ações de resposta. As altas temperaturas e os ventos favoreceram a propagação acelerada das chamas.
Na Argentina, o impacto mais severo ocorreu na província de Chubut, especialmente no Parque Nacional Los Alerces, área reconhecida como patrimônio natural da humanidade pela Unesco. Em um dos episódios mais alarmantes desta temporada, o fogo percorreu cerca de 25 quilômetros em apenas um dia, um indicativo da velocidade incomum com que os incêndios têm se espalhado na região.

As estimativas oficiais sobre a área total queimada variam. Alguns balanços apontam mais de 25 mil hectares atingidos em toda a Patagônia, enquanto levantamentos locais indicam ao menos 15 mil hectares devastados. Segundo especialistas, essa diferença reflete a dificuldade de consolidar dados em incêndios ainda ativos, distribuídos por múltiplas jurisdições e em constante evolução.
Para o pesquisador Thomas Kitzberger, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET) e especialista em ecologia das florestas andino-patagônicas, os incêndios atuais fazem parte de uma transformação estrutural no regime do fogo na região. Em entrevista ao El País, ele destacou que secas mais prolongadas, redução da cobertura de neve durante o inverno, temperaturas mais elevadas e o aumento na frequência de tempestades criam condições propícias para incêndios de grande escala e difícil controle.
Embora parte dos focos tenha sido causada por raios, dados da Agência Federal de Emergências (AFE), vinculada ao Ministério da Segurança da Argentina, indicam que cerca de 95% dos incêndios florestais no país têm origem humana. Entre as principais causas estão fogueiras mal apagadas, descarte de bitucas de cigarro em áreas naturais e queimadas para limpeza de terrenos ou preparo de pastagens.

A própria AFE reconhece que eventos climáticos extremos — como estiagens prolongadas, ventos intensos e temperaturas elevadas — ampliam significativamente o potencial de propagação do fogo. Nessas condições, ignições pontuais podem rapidamente se transformar em desastres ambientais de grandes proporções. Na Patagônia, os incêndios já são oficialmente tratados pelas autoridades como um desastre ambiental, evidenciando os desafios crescentes impostos pela combinação entre ação humana e mudanças no clima.
Descubra mais sobre Florestal Brasil
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
