Os campos rupestres são caracterizados por sua grande diversidade de flora, majoritariamente endêmica — ou seja, restrita geograficamente àquelas condições ambientais. Um exemplo é o gênero Vellozia, pertencente à família Velloziaceae e popularmente conhecido como canela-de-ema, que engloba 127 espécies de plantas. Entretanto, uma pesquisa recente demonstrou que seu futuro está em perigo: cada espécie deve perder mais de 84% de seu habitat até 2060, e 13 podem sofrer perda total.

Jefferson Prado, docente do Programa de Pós-Graduação em Botânica do Instituto de Biociências (IB) da USP e um dos autores do artigo, explica que o campo rupestre ocorre em áreas de transição entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, no Centro-Leste do Brasil. Suas principais localidades são a Chapada Diamantina (BA), a Chapada dos Veadeiros (GO) e a Serra do Cipó (MG). “Esse ecossistema está presente apenas em 1% do território brasileiro, mas abriga cerca de 15% da diversidade da flora”, afirma.
A ecorregião é marcada por afloramentos rochosos e vegetação herbácea-arbustiva em áreas de altitude superior a 900m. “É um substrato do período Pré-Cambriano, da Era Cenozoica, mas cuja vegetação evoluiu recentemente”, explica o professor. “Como a especiação nessa região é muito intensa, temos esse alto grau de endemismo, […] e as plantas Vellozia têm muita especificidade em relação ao solo.” Segundo pesquisas anteriores, espécies endêmicas são 2,7 vezes mais impactadas pelas mudanças climáticas do que espécies nativas não endêmicas.
A autora do artigo é Jenifer C. Lopes, pesquisadora associada na Universidade de Harvard e pós-doutora pelo Instituto de Biociências (IB) da USP. Ela explica que seu objetivo era dar continuidade à investigação de Renato de Melo Silva, antigo professor e orientador. “Renato faleceu recentemente, mas trabalhou na USP durante 30 anos e é quem me inspirou a estudar esse grupo de plantas”.
Pesquisas sobre os campos rupestres são desenvolvidas no IB desde 1970, e sua base de dados é respaldada em conhecimentos acumulados sobre a flora regional. “As primeiras coletas da região foram feitas por viajantes para elaborar a Flora brasiliensis no século 19”, conta Jefferson a respeito do sistema de informação on-line sobre a flora brasileira. Ele também presta homenagem a Nanuza Luiza de Menezes, precursora no estudo de anatomia das Velloziaceae e responsável pela documentação de diversas plantas do País.
Após coletadas e corretamente identificadas, as espécies são depositadas no Herbário SPF, do departamento de Botânica da USP. Esses registros se tornam ponto de partida para a elaboração de mapas e planilhas. “Por isso vimos a necessidade de estudar o grupo de Vellozia, icônicas dos campos rupestres que estão ameaçadas pelo aquecimento global”, pontua Jenifer.
A recorrência de eventos climáticos extremos, simultânea à expansão de práticas como agricultura intensiva, mineração e incêndios, é um reflexo da crise que influenciou os autores a elaborarem um ensaio. “O aumento de temperatura inevitavelmente diminui o tamanho da vegetação, pois as plantas não sobrevivem ao calor e à seca”, ressalta o cientista.

Prever para preservar
Projeções feitas a partir das iniciativas sustentáveis já aplicadas e das metas de emissão de carbono do Acordo de Paris indicam que os campos rupestres perderão metade de sua área até 2080 — causando uma redução drástica no habitat das espécies de Vellozia. “Temos algumas mudanças benéficas sendo implementadas, mas não é o suficiente”, afirma Jenifer.
Para desenvolver suas hipóteses sobre o gênero, foram utilizadas estratégias de visualização de dados, análise de variáveis climáticas e modelagem de distribuição territorial de espécies. Mas uma ferramenta foi crucial para a obtenção de resultados precisos: a métrica de espécies Evolutivamente Distintas e Globalmente Ameaçadas (EDGE).
O método é capaz de classificar a prioridade de conservação de uma espécie combinando dois parâmetros: a distinção evolutiva, derivada de uma árvore filogenética, e o risco de extinção, com base nas categorias da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). “Entender quais espécies são evolutivamente relacionadas nos permite prever quais linhagens são mais suscetíveis a desaparecer”, explica Jennifer.
“Dentre as Vellozia, alguns grupos que divergiram primeiro pertencem a uma linhagem de apenas uma ou duas espécies, o que significa que toda aquela história evolutiva pode ser perdida”
– Jenifer Lopes
Segundo a cientista, 12 espécies foram classificadas como vulneráveis, 61 em perigo e 14 criticamente ameaçadas. Nesse último caso, a melhor estratégia é ampliar os esforços de conservação, seja in situ (no seu ecossistema natural), ou ex situ, por meio da coleta de sementes e plantio em jardins botânicos ou coleções de plantas vivas.
“Traçamos um polígono entre os pontos registrados com coleta de Vellozia e selecionamos as áreas com menos de 10 mil km²”, explica. “Concluímos que 59 das 127 espécies são consideradas microendêmicas. Existem grupos tão restritos que talvez ocupem só uma uma montanha.”

Olhar para frente
A trigésima Conferência das Partes (COP 30) está prevista para acontecer em Belém (PA), em novembro deste ano. O evento reúne os líderes dos vários Estados com o intuito de debater medidas para conter as mudanças climáticas. “Essa reunião é o local a se propor políticas de conservação, e algumas propostas vão adiante, mas a maioria não”, observa Jefferson. No último dia 10 de janeiro, o mundo ultrapassou o marco de 1,5 ºC, aumento máximo previsto para que as atitudes antropológicas pudessem ser contidas e revertidas no meio ambiente. “Infelizmente, muitos políticos ainda não estão sintonizados com os cientistas para entender a importância de fomentar essas ações.”
O professor cita que uma iniciativa primordial no Brasil é o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), órgão do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O grupo publicou o Livro Vermelho da Flora do Brasil (2013), obra que analisa os aspectos biológicos e ecológicos que afetam a sobrevivência de todas as espécies ameaçadas de extinção no Brasil, incluindo diversas Velosiáceas.
Segundo Jenifer, o estudo das canelas-de-ema precisa ser visto como um alerta para as organizações responsáveis de que os campos úmidos dependem de um delicado equilíbrio ecológico que está em risco. Mas será possível realmente fazer a diferença?
A descoberta da Vellozia gigantea, espécie que pode chegar a 6 metros de altura — enquanto as demais têm por volta de 20 cm a 1 metro — foi descrita por pesquisadores do IB em 1999 e utilizada como estandarte para criação do Parque Nacional da Serra do Cipó, dez anos depois. O parque é atualmente responsável por conservar uma área de 31 mil hectares.
“O conhecimento de novas espécies e de sua distribuição contribui para a criação de unidades e estratégias de preservação”, pontua Jefferson. Em 2024, o IB descreveu duas espécies novas: Vellozia formosa, encontrada no Pico da Formosa, e Vellozia flavida, apenas a terceira espécie já registrada que possui a flor amarela. O principal responsável pela descoberta foi Renato Magri, coautor do artigo. “Apesar dos entraves políticos, poucos países têm catálogos e pesquisadores tão organizados como nós”, conclui o orientador.
O artigo Vanishing ecosystems: The looming threat of climate change on an iconic genus Vellozia in the Brazilian campos rupestres está disponível aqui.
Fonte: Jornal da USP
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