No início da fase atual da história da Terra, também conhecida como período quaternário da era Cenozoica, o planeta saía de uma era do gelo e passava por um aumento das temperaturas médias globais, favorecendo o desenvolvimento das populações humanas e levando a uma maior diversidade de habitats. No entanto, esta evolução foi acompanhada por instabilidades ambientais e eventos climáticos extremos e abruptos, que poderiam causar colapsos de grandes lagos glaciais, aumento de atividade vulcânica e megasecas.

O impacto de tais mudanças climáticas afetou a dinâmica de ocupação e a dispersão das populações humanas antigas, com despovoamento de grandes áreas que não mostram sinais de presença humana entre 8 mil e 4 mil anos antes do presente em diversas regiões da porção oriental da América do Sul – o Brasil de hoje. O fenômeno é chamado de hiato do Arcaico.
“Uma região pode ter uma quantidade enorme de sítios arqueológicos, mas metade deles têm idades entre 10 mil e 8 mil anos, e a outra metade entre 4 mil e 2 mil anos. Ou seja, se viajássemos na ‘máquina do tempo’ veríamos a região cheia de gente, depois vazia, e depois cheia de novo”, explica Astolfo Gomes de Mello Araujo, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente (Levoc).
A baixa frequência de sítios em regiões da América do Sul durante o Holoceno médio até então era atribuída ao aumento dos períodos de seca. Mas novos dados indicam que este hiato está mais relacionado ao RCC (do inglês Rapid Climate Changes), um fenômeno de mudanças climáticas extremas que afetam intensamente os seres humanos em intervalos muito curtos de tempo.
Os achados foram publicados por pesquisadores da USP e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e também indicam que as áreas afetadas pelo despovoamento durante o Holoceno médio são mais extensas do que se pensava anteriormente, incluindo regiões no Brasil Central, partes da Amazônia e do Pantanal, próximo à fronteira com a Bolívia.
“Mas os dados são ainda mais visíveis em Minas Gerais (MG), porque é uma região do Brasil com uma quantidade muito maior de dados arqueológicos e paleoambientais. Os padrões são tão bonitos e marcados que parecem feitos para material didático: a região de Lagoa Santa, no centro de MG, tem um padrão de ocupação humana diametralmente oposto ao da região norte de MG. É uma verdadeira ‘dança das cadeiras’”, destaca Araujo, que é primeiro autor do artigo.
“Nossos dados sugerem que a opção preferencial das pessoas sujeitas a esses regimes climáticos malucos não é se adaptar no sentido de ficar tentando loucamente novas maneiras de viver em um clima desfavorável, mas simplesmente mudar de território, continuar fazendo o que elas sempre fizeram, mas em um local diferente”, diz.
Mercedes Okumura, coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) e professora do Instituto de Biociências (IB), ambos da USP, lembra que esses grupos humanos estudados, especialmente populações de caçadores-coletores, não eram nômades. “É importante pensar que esses grupos têm um território. E dentro desse território, dependendo da sazonalidade, eles vão explorar recursos diferentes para fazer diferentes usos do local”, pondera. “Se o ambiente está duro, tem muita instabilidade, esses humanos vão sair de lá. Mas não significa que eles foram dizimados.”
Antes seco do que instável
Araujo conta que a hipótese tradicional tendia a associar a diminuição de sítios arqueológicos durante o Holoceno médio a fenômenos de seca prolongada por causa da menor quantidade e da natureza das informações paleoclimáticas disponíveis. Com o tempo, o aumento no número e qualidade dessas informações permitiu elaborar uma hipótese mais plausível: “A de que as populações humanas se ressentem mais da imprevisibilidade do que da seca”, afirma.
“Se você tem um clima muito seco, mesmo desértico, mas que é constante, tanto nós como outros animais e plantas acabamos nos adaptando. Os beduínos, no Saara, e os nunamiut, no Ártico, são bons exemplos. Porém, se em um intervalo muito curto (de poucos anos ou décadas) o clima passa de seco para úmido ou de quente para frio de maneira abrupta, ninguém consegue se planejar. Os recursos básicos vão faltar, e períodos de fartura podem se seguir de anos de fome”
Astolfo Gomes de Mello Araujo
O grupo se valeu de uma base de dados criada pelos próprios autores do artigo sobre pedra lascada, cerâmica e sambaquis de São Paulo, além do primeiro mapa interativo de sítios arqueológicos indígenas do Estado.
Os pesquisadores também utilizaram uma base de dados paleoambiental com indicadores como presença de partículas de carbono e pólen de mandioca e milho. Estes “proxies” são fundamentais para construir conhecimento acerca do passado. O diferencial do trabalho foi combinar as informações disponíveis na literatura paleoambiental com os sinais de ocupação humana, lançando mão dos dados arqueológicos como um marcador em si. Uma das conclusões dos pesquisadores é que seria improvável que o clima tenha se tornado seco por vários milênios na América do Sul Tropical.
“A arqueologia é limitada ao registro material, essas coisas palpáveis. E no registro arqueológico a gente vê buracos. Mas o relato etnográfico e antropológico mostram um comportamento de movimentação na paisagem que a gente pode trazer como registro”, afirma Letícia Cristina Correa, pós-doutoranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP no programa de Modelagem de Sistemas Complexos e da Arizona State University.
A pesquisadora ressalta que, ao se movimentarem, as pessoas vão deixando as marcas de sua identidade nas paisagens de onde elas saem, mas para onde elas voltam. “Elas vão para outros lugares carregando com elas essas bagagens, essas identidades culturais, do modo de se fazer as coisas independentemente do ambiente que elas estão ocupando. Mas, depois de um tempo, elas voltam e isso mostra que elas têm uma memória do local”, diz Letícia.

Partindo dessas análises, os autores caracterizam os paleoclimas subdividindo o mapa em oito áreas. A ideia era compreender a influência das mudanças climáticas rápidas por ambientes e rastrear os movimentos populacionais ao longo do tempo e do espaço. O grupo realizou testes estatísticos para analisar as distribuições etárias entre os sítios arqueológicos, revelando lacunas significativas em certas áreas, como Santarém, na Amazônia oriental e atual município do Estado do Pará.
O sítio de Santarém abriga a caverna de Pedra Pintada, onde há fortes sinais de atividade humana. Estes sinais somem entre 11,5 e 9 mil anos, e novamente entre 6,5 e 4,5 mil anos mostrando um abandono da área, enquanto outros locais ao longo da calha do Rio Amazonas, como Oriximiná e Altamira, apresentam sinais de ocupação.
A divisão da análise por área também possibilitou identificar eventos de mudanças climáticas rápidas que levaram à completa ausência do sinal arqueológico em vastas áreas, como um evento identificado em 9,2 mil anos, bem marcado no Brasil Central mas não presente nas Terras Baixas Amazônicas, Nordeste e Sul do Brasil. Já um evento ocorrido em 4,2 mil anos está presente nas Terras Baixas Amazônicas, Nordeste e Brasil Central, mas extremamente fraco no Sul do País.
“Propomos que o sinal arqueológico possa ser usado como um indicador paleoambiental porque os humanos são muito mais sensíveis ao clima do que imaginamos. Temos aquela ideia de que somos imunes a fatores naturais porque temos cultura e podemos usar roupas, acender fogueiras ou ligar o ar-condicionado, mas essa perspectiva não entende que precisamos comer de todo modo. Disso a humanidade não escapa. Toda essa cadeia que permite alimentar (mesmo que de maneira insuficiente) mais de 7 bilhões de pessoas é totalmente dependente do clima”, afirma Araujo.
Cenários climáticos futuros
Diferente de grandes eventos climáticos, como a era Glacial, as mudanças climáticas rápidas são mais difíceis de compreender. Nos padrões climáticos de longo prazo o Brasil contou com a influência da radiação solar de verão recebida pelo planeta em suas variações orbitais. Essa variação afetou os padrões de precipitação, impactando o clima de forma variada. Ao considerar o sinal de presença humana, o trabalho demonstra as diferenças geográficas e ambientais que levam a um mosaico de diferentes condições climáticas pelo País.
“Agora é importante entender que o papel das emissões de gases estufa pela queima de combustíveis fósseis é algo que cria novas situações, porque esse carbono todo estava aprisionado nos confins da Terra, e agora estamos liberando tudo a taxas alarmantes. É uma nova variável na equação, mas o resultado final pode ser o engatilhamento de uma nova era de mudanças climáticas rápidas com consequências terríveis”, diz Araujo.
“Enquanto nossos ancestrais podiam simplesmente mudar de lugar quando a coisa estava muito ruim, nós agora estamos presos dentro de fronteiras nacionais e, em última instância, estamos presos no planeta. Quando alguém fala que podemos ir para Marte, eu percebo como falta conhecimento básico sobre astronomia e evolução humana”
Astolfo Gomes de Mello Araujo
O artigo Human-environment interaction during the Holocene in Eastern South America: Rapid climate changes and population dynamics está disponível neste link e utiliza dados das pesquisas de doutorado de Letícia Cristina Correa e Glauco Constantino Perez, pós-doutorando do Levoc. “Com esses dados compilados, nossa intenção é colaborar para a boa ciência e auxiliar a próxima geração de pesquisadores”, diz Perez.
Mais informações: astwolfo@usp.br, com Astolfo Gomes de Mello Araujo; okumuram@usp.br, com Maria Mercedes Martinez Okumura
Fonte: Jornal da USP
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