A importância da análise de redes de comércio madeireiro para o controle do desmatamento na Amazônia

O desmatamento na Amazônia tem sido historicamente um desafio ambiental e econômico para o Brasil e para o mundo. No entanto, índices recentes indicam uma tendência de redução, graças à implementação de mecanismos de controle e regulamentação. A pesquisa científica tem desempenhado um papel essencial nesse processo, permitindo um monitoramento mais eficaz das florestas e aprimorando as ferramentas de fiscalização do setor madeireiro.

Ibama, Exército e Polícia Militar de Rondônia fiscalizam cadeia de custódia da madeira e desmatamento ilegal em Espigão do Oeste (RO). Foto: Fernando Augusto/Ibama

Um exemplo notável desse avanço foi publicado na revista Nature Sustainability, no artigo intitulado Assessing timber trade networks and supply chains in Brazil. O estudo financiado pela FAPESP analisou as redes de comércio madeireiro no Brasil e propôs novas abordagens para aprimorar a rastreabilidade da madeira, contribuindo diretamente para a redução do desmatamento ilegal.

A Modelagem da Rede de Comércio Madeireiro

A pesquisa foi conduzida por um grupo de cientistas, incluindo Luis Gustavo Nonato, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) e integrante do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI). O foco do estudo foi a integração de dados dos três principais sistemas de controle florestal operando no Brasil:

  1. DOF (Documento de Origem Florestal) – Sistema de controle do transporte e armazenamento de produtos florestais.
  2. SINAFLOR (Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais) – Plataforma de gestão da exploração e rastreamento da madeira desde a origem.
  3. SISFLORA (Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais) – Ferramenta que regula a comercialização e a movimentação de produtos florestais.

Com base na integração dessas informações, os pesquisadores construíram uma modelagem detalhada da rede de comércio madeireiro no Brasil, permitindo identificar padrões irregulares e até mesmo a entrada de madeira de origem ilegal no mercado formal.

Os Benefícios da Nova Abordagem

O estudo revelou que determinados componentes da rede de comércio operam sem conexões diretas com florestas licenciadas, indicando que produtos florestais de origem ilegal estão sendo inseridos no sistema. Com base nessa modelagem, foi possível detectar padrões suspeitos que podem ser utilizados pelos órgãos fiscalizadores para fortalecer o combate à extração ilegal.

Entre os principais benefícios desse método, destacam-se:

  • Aumento da rastreabilidade da madeira: ao utilizar dados já existentes nos sistemas de controle, a abordagem evita custos elevados com novas tecnologias, promovendo um rastreamento mais eficaz e acessível.
  • Redução de fraudes e ilegalidades: com redes de controle mais eficientes, a entrada de madeira ilegal no mercado formal se torna mais difícil.
  • Fortalecimento do mercado legal de madeira: a transparência nas transações aumenta a confiança de consumidores e investidores na procedência legal da madeira, tornando o setor mais competitivo globalmente.
  • Conservação ambiental e social: a diminuição do desmatamento ilegal preserva a biodiversidade, reduz impactos sociais negativos e promove melhores condições de trabalho para comunidades locais.
Impactos para o Setor Madeireiro e Possibilidades Futuras

O modelo proposto não apenas auxilia na redução do desmatamento, mas também melhora significativamente a gestão da cadeia de suprimentos madeireira. Empresas que operam dentro da legalidade passam a ter mais segurança ao comprovar a origem sustentável de seus produtos, atendendo exigências de regulações internacionais, como o European Union Deforestation Regulation (EUDR) e a Lacey Act dos Estados Unidos.

A pesquisa também destaca que essa metodologia pode ser adaptada para outros setores que envolvem redes comerciais e cadeias de suprimentos, abrindo caminho para novas aplicações em diferentes contextos econômicos e ambientais.

A integração de dados e a modelagem da rede de comércio madeireiro representam um avanço significativo para a gestão florestal no Brasil. Com abordagens cientificamente embasadas e de fácil implementação, o país avança na transparência do setor madeireiro e no combate ao desmatamento ilegal. Essa pesquisa reafirma a importância do uso de tecnologia e dados para promover a sustentabilidade na exploração florestal, garantindo que a madeira amazônica seja comercializada de forma legal, competitiva e ambientalmente responsável.

Para mais detalhes, o artigo completo pode ser acessado na revista Nature Sustainability pelo link: www.nature.com/articles/s41893-024-01491-8.


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Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

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