Repatriação Digital: O brasileiro que liderou a digitalização de 400 anos do Kew Gardens

O biólogo brasileiro Alexandre Antonelli comandou o maior projeto científico da história do Kew Gardens, disponibilizando 7,4 milhões de espécimes online — uma iniciativa inspirada no projeto brasileiro Reflora.

A botânica e a engenharia florestal globais acabam de dar um passo histórico para a democratização do conhecimento. E o mais interessante é que esse movimento monumental foi liderado por um cientista brasileiro com inspiração direta em um projeto nacional.

Antonelli: “É relativamente fácil conectar as pessoas com a importância de preservar a biodiversidade, pois elas possuem uma ligação pessoal com isso. Somos uma instituição científica, mas aproveitamos a oportunidade de inspirar as pessoas pela beleza das coleções e pela experiência de visitar nossos jardins” (foto: Kew Gardens/divulgação)

O biólogo Alexandre Antonelli assumiu, no início de 2019, a direção executiva de Ciência do prestigiado Royal Botanic Gardens, em Kew (Londres). A sua missão? Executar o maior projeto científico da história da instituição britânica: digitalizar e abrir ao mundo um acervo de história natural acumulado ao longo de 400 anos.

O resultado, celebrado neste mês de junho de 2026, é impressionante. Foram digitalizados 6,4 milhões de espécimes de plantas e mais de 1 milhão de fungos, que agora podem ser acessados de forma remota por pesquisadores e profissionais de qualquer lugar do planeta.

A Inspiração Brasileira: O Projeto Reflora

Para nós, brasileiros, é motivo de imenso orgulho saber que esse megaprojeto britânico — que envolveu 150 pessoas no Kew e mais de 1.500 colaboradores internacionais — teve como grande inspiração uma iniciativa nossa: o Projeto Reflora.

Lançado em 2010 pelo CNPq com o apoio da FAPESP, o Reflora foi pioneiro mundial ao resgatar, por meio de imagens em alta resolução, espécimes da flora brasileira que estavam depositados em herbários estrangeiros. Como relata Antonelli, o projeto nacional serviu de modelo de sucesso para que os britânicos fizessem o mesmo com a totalidade do seu acervo.

A Repatriação Digital e a Dívida Histórica

Historicamente, a exploração botânica esteve atrelada ao colonialismo e ao imperialismo europeu — o desvio das sementes de seringueira da Amazônia para o Sudeste Asiático é o exemplo mais clássico que estudamos na história florestal. Como resultado, imensas coleções de plantas da América do Sul foram parar no hemisfério Norte.

Para Antonelli, existe um inegável débito histórico. No entanto, em vez da complexa repatriação física dos materiais, a solução mais rápida, inteligente e eficiente para a ciência moderna tem sido a repatriação digital.

O objetivo não é necessariamente mover o objeto de Londres para o Brasil, mas sim democratizar o acesso à informação que ele carrega. Hoje, um botânico na Amazônia pode consultar a exsicata original de uma planta (o chamado espécime-tipo) pela internet, sem precisar solicitar empréstimos por correio e esperar meses para analisar a amostra.

A Importância dos Herbários Locais e a Prevenção de Desastres

Apesar do tamanho colossal do Kew Gardens — que ainda conta com o Millennium Seed Bank, um banco com 2,5 bilhões de sementes silvestres —, Antonelli faz um alerta vital sobre a importância das coleções locais.

Herbários regionais brasileiros, mesmo os menores, possuem um valor inestimável para a rede global de biodiversidade. Além disso, a história recente nos ensinou lições amargas com os trágicos incêndios no Museu Nacional (2018) e no Instituto Butantan (2010).

A regra de ouro da conservação é: nunca concentre todo o seu acervo em um único local. A distribuição de duplicatas de amostras entre diferentes instituições é a principal estratégia para reduzir o risco de perda catastrófica do nosso patrimônio botânico.

Os Pilares da Colaboração Brasil-Reino Unido

No novo relatório Estado Global das Plantas e Fungos 2026, fica claro que a tecnologia é a maior aliada para expor as lacunas de conhecimento e priorizar áreas de conservação. Com esse foco, o Kew Gardens estabeleceu quatro frentes principais de colaboração científica direta com o Brasil:

  1. Expansão do Reflora: Conectar os registros fotográficos a usos sustentáveis da flora (como o medicinal) e integrar os dados às plataformas internacionais.

  2. Etnobotânica na Amazônia: Trabalhar com comunidades indígenas para caracterizar espécies e repatriar o conhecimento histórico de mais de 100 mil artefatos vegetais (como cestos e cajados) guardados em Londres.

  3. Restauração Inteligente na Mata Atlântica: Uso de sensoriamento remoto e Inteligência Artificial (em parceria com pesquisadores da USP) para priorizar áreas de restauração ecológica, ajudando a estruturar futuros e robustos mercados de créditos de biodiversidade.

  4. Bioeconomia de Fungos: Explorar as moléculas e propriedades da gigantesca diversidade de fungos brasileiros, fortalecendo a nossa bioindústria.

A botânica do futuro é digital, interconectada e sem fronteiras. Ao permitir que qualquer engenheiro florestal, ecólogo ou analista ambiental acesse esse banco de dados para avaliar os impactos e a distribuição de uma espécie rara, a ciência prova que a conservação começa com a democratização da informação.

Com informações da entrevista concedida à Agência FAPESP pelo diretor executivo de Ciência do Kew Gardens, Alexandre Antonelli.


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Arthur Brasil

Engenheiro Florestal formado pela FAEF. Especialista em Adequação Ambiental de Propriedades Rurais. Contribuo para o Florestal Brasil desde o inicio junto ao Lucas Monteiro e Reure Macena. Produzo conteúdo em diferentes níveis.

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