Dez dias de fogo na Terra Indígena Maxakali: o relato de quem enfrentou as chamas e as sementes do recomeço
No dia 20 de outubro, publicamos aqui no blog o post A Terra Indígena Maxakali está pegando fogo, sobre os incêndios que atingiram o território dos Tikmũ’ũn, no nordeste de Minas Gerais. Agora, chegou até nós um documento que ajuda a entender, com detalhes, o que aconteceu naqueles dias: um relatório produzido pelo projeto Hãmhi Terra Viva, com realização do Instituto Opaoká e apoio do Semente e do Ministério Público de Minas Gerais.
O relatório reconstitui o incêndio a partir das mensagens trocadas em dois grupos de WhatsApp que se tornaram a linha de frente da comunicação durante a emergência: o “Emergência Maxakali”, que reúne instituições parceiras, e o “Brigadista Kõnãghi”, da brigada indígena voluntária. O saldo final é duro: cerca de 65% da Terra Indígena Maxakali queimou, nos municípios de Bertópolis e Santa Helena de Minas.
Mas este post não termina nas cinzas. No final, mostramos o que os Tikmũ’ũn já estão fazendo para recomeçar.
7 de outubro: o fogo começa na estrada
O fogo começou no dia 7, na estrada que liga Água Boa a Oropinha, já perto do limite do território. O primeiro alerta apareceu no grupo dos brigadistas às 11h38. No grupo da emergência, a notícia chegou às 13h46.

Início do incêndio na TI Maxakali, em 7 de outubro de 2026. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
Em poucas horas, o incêndio já era grande. Às 14h13, a equipe de assessoria do projeto Hãmhi compartilhou uma imagem de satélite com os focos de calor. Às 14h24, chegaram as primeiras imagens de drone mostrando as linhas de fogo avançando sobre os morros.

Linha de fogo avançando ao lado da estrada, registrada por drone em 7 de outubro. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
O fogo se espalhou em várias direções, rumo a Pradinho e Água Boa, destruindo matas remanescentes e áreas em regeneração. Chegou muito perto das aldeias de Cansanção, onde os moradores passaram a noite acordados, tentando impedir que as chamas alcançassem suas casas.
8 a 10 de outubro: a primeira ajuda de fora
No dia 8, as imagens de drone já mostravam a dimensão da destruição. Nesse mesmo dia chegou a primeira equipe de fora do território: cinco bombeiros da 2ª Companhia do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, vindos de Teófilo Otoni.

Morros queimados na TI Maxakali, em imagem de drone de 8 de outubro. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
No dia 10, o sargento responsável pela guarnição relatou no grupo da emergência que bombeiros e brigadistas tinham combatido quatro focos perto da aldeia Água Boa e controlado três deles. O quarto ainda queimava, mas perdendo força. A expectativa era que se apagasse durante a noite.
11 de outubro: o fogo volta
No dia 11, chegou à terra indígena a brigada do Prevfogo, do Ibama, com cinco brigadistas. Mas, no mesmo dia, às 13h32, os brigadistas indígenas anunciaram um novo foco, vindo de uma área vizinha ao território, na região do Pradinho. Uma imagem de satélite das 16h28 confirmou o alerta.

Fogo avançando sobre área de capim em 11 de outubro de 2026. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
Esse novo foco virou um grande incêndio durante a tarde. Famílias tiveram que deixar suas casas, intoxicadas pela fumaça. O fogo atravessou um brejo e o córrego Umburana, tomando toda a mata em regeneração do outro lado, e chegou à região do Bueno, em Água Boa.
O Prevfogo e os brigadistas Maxakali combateram as chamas o dia inteiro. E os voluntários da Brigada Kõnãghi passaram a noite em claro para evitar que o fogo atingisse as aldeias do Bueno.
12 a 16 de outubro: reignições e, enfim, a chuva
Nos dias 12 e 13, o fogo reacendeu em vários pontos do território. Nessa fase, as chamas passaram de mil hectares e atingiram capim exótico, brejos, matas nativas, matas em regeneração, nascentes, quintais e áreas de reflorestamento.

Aldeia cercada por área queimada na TI Maxakali. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
O apoio aéreo da Polícia Militar chegou no dia 13, às 15h37, e começou a atuar no dia 14. Mesmo assim, até o dia 15, o fogo tinha tomado toda a região da Amãxux, em Água Boa, e alcançado as aldeias JM e Maravilha do Pradinho.
Só no dia 16 não houve reignição nem focos novos. Uma chuva fraca ajudou a baixar a temperatura.

Extensão da área queimada e sequência de focos de calor dentro da TI Maxakali. Mapa: Programa Arboretum
Por que o fogo foi tão grande
O relatório aponta três fatores que transformaram os focos em incêndios enormes: o grande volume de capim exótico, as temperaturas altas e o vento.
Como engenheiro florestal que trabalha com restauração ecológica, quero destacar o primeiro ponto. Em áreas degradadas, gramíneas exóticas de origem africana costumam dominar a paisagem. Elas acumulam muita biomassa, secam completamente na estação seca e queimam rápido e com muita intensidade, levando o fogo para dentro das matas. E depois do incêndio rebrotam antes da vegetação nativa, dificultando a regeneração.
Ou seja: o capim não é só combustível. Ele cria um ciclo em que o fogo favorece o capim, e o capim favorece o próximo fogo. Quebrar esse ciclo é um dos maiores desafios da restauração no território, e é exatamente isso que o Hãmhi Terra Viva vinha fazendo antes do incêndio.
Quem segurou a linha
Ao ler o relatório, uma coisa fica clara: os primeiros a enfrentar o fogo foram os próprios Maxakali. Foram os brigadistas indígenas que deram o primeiro alerta, que passaram noites em claro protegendo as aldeias e que lutaram ao lado de cada equipe que chegou depois.
A ajuda externa veio, mas em pequenos grupos e espalhada ao longo dos dias: cinco bombeiros no dia 8, cinco brigadistas do Ibama no dia 11, apoio aéreo no dia 13. Para um incêndio que atingiu a maior parte de um território de cerca de 5.300 hectares, é pouco. Fica a lição de que os territórios indígenas precisam de estrutura permanente de prevenção e combate, e não só de socorro quando o fogo já está fora de controle.
As sementes do recomeço
E agora, a parte que nos dá esperança. Nas imagens que recebemos nesta semana, os Tikmũ’ũn aparecem reunidos em mutirão, separando montes de sementes: famílias inteiras, de crianças a anciãs, com as mãos mergulhadas em sementes de várias cores e tamanhos.

Mutirão de separação de sementes na TI Maxakali. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva

Montes de sementes reunidas pela comunidade. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
Em uma das fotos, a palavra Hãmhi foi escrita com as próprias sementes. É o nome do projeto que os Tikmũ’ũn criaram para reflorestar o território, e que agora tem pela frente o desafio de recomeçar onde o fogo passou.

A palavra Hãmhi escrita com sementes. Foto: Projeto Hãmhi Terra Viva
O fogo levou anos de trabalho em poucos dias. Mas a semente é a forma que a floresta tem de dizer que não acabou. E os Maxakali estão mostrando, mais uma vez, que não vão desistir da sua terra.
VIVA A TERRA VIVA!
E você, conhece algum projeto de restauração feito por povos indígenas? Conte nos comentários e ajude a divulgar o trabalho do Hãmhi Terra Viva.
Saudações florestais!
Arthur Brasil, Engenheiro Florestal
Para saber mais
Projeto Hãmhi Terra Viva (Instagram): https://www.instagram.com/hamhiterraviva/
Post anterior: A Terra Indígena Maxakali está pegando fogo: https://florestalbrasil.com/post/terra-indigena-maxakali-pegando-fogo
Fonte: “Relatório sobre incêndios na Terra Indígena Maxakali, Bertópolis e Santa Helena de Minas/MG”, outubro de 2026. Realização: Instituto Opaoká e Projeto Hãmhi Terra Viva. Apoio: Semente e Ministério Público de Minas Gerais.
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