A Terra Indígena Maxakali está pegando fogo

A Terra Indígena Maxakali está pegando fogo

Desde 7 de outubro, incêndios de proporções sem precedentes atingem a Terra Indígena Maxakali, no nordeste de Minas Gerais. O território é dos Tikmũ’ũn, conhecidos fora das aldeias como Maxakali, habitantes milenares dos vales do Jequitinhonha e do Mucuri.

Na primeira semana, as estimativas divulgadas pela imprensa falavam em 800 a mais de mil hectares queimados. Mas o fogo não parou. Uma imagem do satélite Sentinel-2 de 19 de outubro mostra a dimensão real: cerca de 3.500 dos 5.300 hectares do território, ou 65%, já foram atingidos pelas chamas.

Área queimada (em tons escuros) dentro do limite da TI Maxakali (linha vermelha). Imagem Sentinel-2 de 19/10/2026. Mapa: Natan Brito (@natan.brito.eng)

O que o fogo levou

As chamas destroem a vegetação nativa, ameaçam inúmeras espécies e atingem também os plantios e as áreas de restauração do projeto Hãmhi Terra Viva, iniciativa do próprio povo Tikmũ’ũn para reflorestar o território. Anos de trabalho de recuperação viraram cinza em poucos dias.

Linha de fogo avançando sobre a mata na Terra Indígena Maxakali. Foto:

E o fogo chegou sobre um povo que já vivia uma crise. Em julho, o Ministério Público Federal descreveu a situação dos Maxakali como uma crise humanitária, com mortalidade infantil 30 vezes maior que a média regional e água contaminada nas aldeias, e a Justiça Federal obrigou União, estado e prefeituras a agir. Agora, as famílias enfrentam fome, falta de água e problemas de saúde provocados pela fumaça.

Mandioca queimada em roça atingida pelo fogo. Foto:

Em 15 de outubro, o Ministério Público de Minas Gerais deu 24 horas para a prefeitura de Bertópolis garantir água potável, alimentos, kits de higiene e atendimento de saúde às famílias. Antes disso, a prefeitura havia respondido que não tinha caminhões-pipa nem equipes preparadas para combater o fogo e que aguardava ajuda dos governos estadual e federal.

O satélite viu antes

O sistema FIRMS, da NASA, registra focos de calor dentro da terra indígena desde 7 de outubro.

"A operação oficial de combate só começou no dia 11. Até lá, quem enfrentou o fogo foram os próprios Maxakali. Centenas de brigadistas indígenas, organizados na brigada voluntária coordenada por Marilton Maxakali e criada pelo próprio povo em 2024, subiram os morros com sopradores, abafadores e enxadas e começaram a controlar as chamas antes da chegada do reforço. Depois, juntaram-se a eles bombeiros, policiais militares e brigadistas do Ibama."

Focos de calor registrados pela NASA (sistema FIRMS) em 7, 8, 11 e 12 de outubro de 2026

Brigadistas Maxakali: centenas de indígenas enfrentaram as chamas antes da chegada da operação oficial.. Foto: Reprodução.

Enquanto a festa acontecia, um território ardia

No sábado, 17 de outubro, centenas de pessoas se reuniram no viaduto de Santa Tereza, em Belo Horizonte, para a Gaymada pela Democracia, com o lema “Defender a alegria, organizar a raiva”. Em meio à festa, levamos também um pedido de atenção e solidariedade aos Tikmũ’ũn Maxakali.

Enquanto nos reuníamos para celebrar a alegria, a liberdade e a democracia, um território inteiro ardia em chamas. Por isso, convidamos as pessoas presentes a se somarem a nós na tarefa de fazer essa tragédia ser conhecida, compartilhada e enfrentada. Agradecemos a todas as pessoas que aceitaram posar com nossas mensagens e emprestaram seus rostos e suas vozes a esse chamado.

Participante da Gaymada pela Democracia, no viaduto de Santa Tereza (BH), em 17/10/2026

Os áudios

Enquanto as equipes combatiam o fogo, recebi relatos de pessoas da região sobre áudios que circulam em grupos locais exaltando Flávio Bolsonaro em meio aos incêndios na terra indígena.

Quero ser preciso: a causa do incêndio ainda não foi esclarecida oficialmente, e não é possível afirmar quem gravou esses áudios nem ligá-los à origem do fogo. Mas o fato de que, enquanto um território indígena queima, há quem use o momento para celebrar um candidato que promete não demarcar nenhuma terra indígena diz muito sobre o clima no país. E reforça que as autoridades precisam investigar a origem do fogo.

Não é um caso isolado

Em janeiro, o jornalista Daniel Camargos escreveu na CartaCapital que o bolsonarismo continua rondando as terras indígenas como uma autorização tácita para invadir, garimpar, grilar e queimar, e que a ameaça não foi derrotada, apenas recuou.

Nove meses depois, o alerta virou manchete. No Pará, a Folha revelou áudios em que fazendeiros avisam aos parakanãs da Terra Apyterewa que vão invadir o território depois do segundo turno, contando com a vitória de Flávio Bolsonaro. A Polícia Federal classificou as informações como sólidas e preocupantes.

E o próprio candidato não esconde o plano. “Nenhuma dessas reservas será demarcada se depender do nosso governo”, disse Flávio a produtores rurais em Sinop (MT), em abril. Segundo levantamento da Folha, se ele cumprir a promessa, 286 terras indígenas com processos em andamento ficam travadas. Na segunda-feira (19), em Marabá (PA), ele prometeu acabar com os “entraves ambientais” para que o proprietário possa “fazer o que quiser na sua terra”.

A lembrança Yanomami

Não é exagero lembrar o que aconteceu da última vez. Entre 2019 e 2022, o garimpo ilegal tomou a Terra Indígena Yanomami, os pedidos de socorro foram ignorados e crianças morreram de desnutrição e malária. Em janeiro de 2023, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar a possível prática de genocídio no governo anterior. Nos mesmos quatro anos, nenhuma terra indígena foi homologada no Brasil. No governo Lula, foram 20.

Viva a Terra Viva

Foram os próprios Maxakali, centenas deles, que primeiro seguraram o fogo, subindo morros por dias com sopradores e abafadores nas costas. Eles mostram que os povos indígenas estão fazendo a sua parte. Terra Indígena Maxakali precisa de atenção, solidariedade e ação. Que essas imagens atravessem as redes e ajudem a romper o silêncio sobre o que está acontecendo.

Brigadista Maxakali com uma muda do projeto Hãmhi Terra Viva. Foto:

A luta pela alegria também é a luta pelas condições que tornam a vida possível. VIVA A TERRA VIVA!

Arthur Brasil, engenheiro florestal

Para saber mais

•     Projeto Hãmhi Terra Viva (Instagram): https://www.instagram.com/hamhiterraviva/

•     MPMG: recomendação à prefeitura de Bertópolis: https://www.mpmg.mp.br/portal/menu/comunicacao/noticias/incendio-em-terra-maxakali-mpmg-da-24-horas-para-bertopolis-garantir-agua-e-alimentos-as-familias-indigenas-2C9F8A98A113F2A901A1412E4CB032EA-00.shtml

•     Estado de Minas: incêndio e o projeto Hãmhi: https://www.em.com.br/gerais/2026/10/7520021-incendio-destroi-quase-um-quinto-da-terra-indigena-maxakali-em-minas.html

•     Metrópoles: indígenas sem água e comida: https://www.metropoles.com/minas-gerais/indigenas-maxakali-ficam-sem-agua-e-comida-em-mg-apos-uma-semana-de-fogo

•     Diário Tribuna: depoimento do cacique Marilton Maxakali: https://diariotribuna.com.br/?p=35661

•     Reportagem em vídeo (Globoplay): https://globoplay.globo.com/v/15061943/

•     CartaCapital: “O bolsonarismo ainda assombra as terras indígenas”: https://www.cartacapital.com.br/blogs/daniel-camargos/o-bolsonarismo-ainda-assombra-as-terras-indigenas/

•     ClimaInfo: ameaças à Terra Apyterewa: https://climainfo.org.br/2026/10/13/bolsonaristas-ameacam-invadir-terras-indigenas-se-flavio-bolsonaro-ganhar-eleicao/

•     ((o))eco: Flávio promete acabar com “entraves ambientais”: https://oeco.org.br/

•     NASA FIRMS: mapa público de focos de incêndio: https://firms.modaps.eosdis.nasa.gov/map/

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