Novo “super” El Niño pode empurrar partes da Amazônia para um ponto de não retorno

Novo “super” El Niño pode empurrar partes da Amazônia para um ponto de não retorno

Um novo El Niño está se desenvolvendo no oceano Pacífico e pode se transformar em um evento excepcionalmente intenso. Para a Amazônia, o momento é particularmente preocupante.

A floresta ainda apresenta sinais dos impactos provocados pelas secas extremas de 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis historicamente baixos, grandes extensões de vegetação perderam umidade e os incêndios alcançaram níveis não registrados havia décadas.

Agora, pesquisadores ouvidos pela revista científica Nature alertam que a combinação entre um novo El Niño muito forte, mudanças climáticas, desmatamento e incêndios pode levar partes da Amazônia para além de seus limites de resistência.

O cenário mais grave envolve o chamado ponto de não retorno, ou tipping point: um limiar a partir do qual processos de degradação podem começar a se reforçar e provocar transformações difíceis ou até impossíveis de reverter em determinadas escalas de tempo.

Isso não significa que toda a Amazônia esteja condenada a desaparecer. Entre os próprios cientistas existe debate sobre onde esses limites estão e se alguma região já os ultrapassou.

Mas os sinais de vulnerabilidade estão aumentando.

Por que o El Niño preocupa tanto a Amazônia?

Eventos de El Niño ocorrem aproximadamente a cada dois a sete anos e alteram padrões atmosféricos em diferentes partes do planeta.

Na bacia amazônica, uma das consequências frequentemente associadas ao fenômeno é a redução das chuvas e o agravamento das secas em determinadas regiões.

O El Niño iniciado em junho de 2023 e encerrado em 2024 atingiu a Amazônia de maneira particularmente severa.

Grandes áreas da floresta ficaram mais secas, rios importantes atingiram níveis extremamente baixos e os incêndios foram favorecidos pelas condições de calor e baixa umidade.

O problema é que um novo evento intenso pode atingir a floresta antes que parte da vegetação tenha conseguido se recuperar completamente.

Série especial sobre o El Niño: https://www.youtube.com/show/VLPLahZk3RgybPg?sbp=QAE%3D

Amazônia ainda pode estar se recuperando da última grande seca

Uma pesquisa liderada pelo ecólogo florestal Hao Bai, da Universidade de Pequim, analisou 33 anos de informações obtidas por radar de satélite.

Os pesquisadores acompanharam dois indicadores relacionados à condição da floresta: a quantidade de umidade presente na vegetação e a quantidade de biomassa vegetal viva.

Durante as secas de 2023 e 2024, ambos atingiram os menores valores desde o início da série de dados, em 1992.

Segundo as estimativas apresentadas no estudo, menos da metade da floresta afetada deverá retornar às condições anteriores à seca dentro de sete anos.

Foi a recuperação mais lenta identificada após uma grande seca amazônica durante todo o período analisado.

Esse resultado ajuda a explicar uma das principais preocupações atuais.

Se novas secas extremas acontecerem antes de a floresta se recuperar das anteriores, os impactos podem se acumular.

Secas repetidas podem enfraquecer progressivamente a floresta

Uma floresta atingida por seca extrema não necessariamente volta imediatamente ao seu estado anterior quando as chuvas retornam.

Árvores podem ter perdido folhas, galhos ou parte de sua capacidade de crescimento. Alguns indivíduos morrem durante o evento, enquanto outros permanecem debilitados por anos.

Se uma nova seca ocorrer durante esse período de recuperação, as árvores enfrentarão o próximo estresse em condições menos favoráveis.

A repetição desse processo pode diminuir progressivamente a capacidade do ecossistema de responder a eventos climáticos extremos.

É justamente essa sucessão de impactos que preocupa os pesquisadores diante da possibilidade de um novo El Niño muito intenso.

O que é o ponto de não retorno da Amazônia?

A ideia de um ponto de não retorno está relacionada à possibilidade de a própria degradação da floresta começar a favorecer novas perdas.

A Amazônia produz uma parcela significativa da umidade responsável pelas chuvas que recebe.

As árvores retiram água do solo e liberam vapor para a atmosfera por meio da transpiração. Essa umidade contribui para a formação de novas chuvas, ajudando a sustentar o funcionamento do próprio ecossistema.

Quando grandes áreas são desmatadas ou degradadas, menos água é reciclada para a atmosfera.

Com menos chuva, a floresta pode se tornar mais seca.

Uma floresta mais seca, por sua vez, apresenta maior mortalidade de árvores e maior vulnerabilidade aos incêndios.

Essas perdas reduzem novamente a capacidade de reciclar água.

Forma-se, assim, um ciclo de retroalimentação.

Desmatamento reduz a margem de segurança da floresta

Um estudo liderado por Nico Wunderling, pesquisador da Universidade Goethe de Frankfurt, analisou como aquecimento e desmatamento podem interagir na Amazônia.

Segundo o modelo apresentado pelos pesquisadores, sem desmatamento a floresta poderia permanecer relativamente estável mesmo diante de um aquecimento global entre aproximadamente 3,7 °C e 4 °C acima dos níveis pré-industriais.

O cenário muda consideravelmente quando parte da floresta é removida.

Caso o desmatamento alcance entre 22% e 28% da Amazônia, um aquecimento de apenas 1,5 °C a 1,9 °C poderia ser suficiente, segundo o modelo, para desencadear um processo de colapso capaz de transformar até 80% da floresta em ambientes degradados ou semelhantes a savanas ao longo do tempo.

De acordo com os dados citados pela Nature, aproximadamente 17% da Amazônia já foi desmatada, dependendo da metodologia utilizada para realizar a estimativa.

“Não estamos muito longe”

A proximidade entre os níveis atuais de desmatamento e as faixas identificadas em alguns modelos é um dos motivos de preocupação.

Mas existe uma dificuldade importante: nenhum número isolado determina exatamente quando a Amazônia atingiria um ponto de não retorno.

O comportamento da floresta depende da interação entre vários processos.

Desmatamento, aumento da temperatura, mudança no regime de chuvas, degradação florestal e incêndios podem atuar simultaneamente.

Alguns desses fatores ainda são difíceis de representar integralmente nos modelos.

Fogo pode aproximar ainda mais algumas áreas do limite

Bernardo Flores, especialista em resiliência da Amazônia no Instituto Juruá e um dos pesquisadores envolvidos nos estudos discutidos pela Nature, chama atenção especialmente para os incêndios.

As florestas amazônicas não evoluíram sob um regime frequente de fogo.

Quando uma área queima, muitas árvores morrem ou ficam danificadas. A abertura do dossel permite maior entrada de luz e vento, diminuindo a umidade do interior da floresta.

Também ocorre acúmulo de galhos, folhas e árvores mortas.

Esse material funciona como combustível para novos incêndios.

Por isso, uma floresta que já queimou pode permanecer mais inflamável durante décadas.

O ciclo do fogo pode se acelerar

O problema se torna especialmente grave quando períodos secos intensos se repetem.

Uma seca associada ao El Niño pode deixar grandes extensões de floresta mais vulneráveis.

Caso ocorram incêndios, novas áreas passam a fazer parte da parcela da Amazônia suscetível a queimar novamente.

Em um evento climático posterior, essas regiões já degradadas podem apresentar uma resposta ainda mais intensa.

A sequência pode ser resumida da seguinte forma:

seca intensa;

  • maior mortalidade de árvores;
  • mais material combustível;
  • incêndios;
  • abertura do dossel;
  • floresta mais quente e seca;
  • maior risco de novos incêndios.

Se esse processo se ampliar continuamente, a degradação pode acelerar.

Partes da Amazônia podem já ter ultrapassado limites locais

Não existe consenso científico de que toda a Amazônia esteja próxima de um único ponto de colapso.

Alguns pesquisadores consideram mais provável que diferentes partes da floresta apresentem limites próprios.

Dolors Armenteras, ecóloga do fogo da Universidade Nacional da Colômbia, considera possível que determinadas regiões já tenham ultrapassado pontos de não retorno locais, embora não veja evidências de que toda a bacia amazônica tenha cruzado um limite irreversível.

Carlos Nobre, pesquisador brasileiro que esteve entre os primeiros cientistas a propor, ainda na década de 1990, a possibilidade de um limiar climático para a Amazônia, também destaca diferenças regionais.

Segundo ele, a Amazônia meridional está próxima desse limite, enquanto as regiões norte e noroeste permanecem em condições diferentes.

Isso reforça a necessidade de evitar interpretações em que toda a floresta é tratada como um sistema homogêneo.

Sudeste da Amazônia já perdeu seu papel de sumidouro

As alterações também aparecem no balanço de carbono.

Luciana Gatti, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acompanha há mais de duas décadas a troca de carbono entre a floresta e a atmosfera utilizando medições realizadas por pequenas aeronaves.

Seus trabalhos mostram que o sudeste da Amazônia já deixou de funcionar como sumidouro líquido de carbono e passou a liberar mais carbono do que consegue armazenar.

Esse processo está relacionado à interação entre desmatamento, degradação, aumento das temperaturas e incêndios.

Segundo Gatti, os incêndios registrados durante o El Niño de 2023 e 2024 produziram as maiores emissões observadas na Amazônia desde o início de suas medições em 2010.

A chegada de outro evento intenso em um intervalo tão curto aumenta a preocupação.

De floresta tropical a vegetação degradada

O cenário de um ponto de não retorno não significa que toda a floresta desapareceria de uma só vez.

As transformações aconteceriam ao longo de décadas.

Áreas de floresta úmida poderiam gradualmente perder árvores características, apresentar copas mais abertas e passar a abrigar comunidades vegetais adaptadas a condições mais secas.

Em determinados locais, o resultado poderia ser uma vegetação degradada ou com características semelhantes às de savanas.

Essa mudança teria consequências muito além da biodiversidade local.

Quantidades enormes de carbono estão em jogo

A Amazônia mantém grandes estoques de carbono em suas árvores, raízes e solos.

Caso extensas áreas da floresta sofram degradação e mortalidade, parte desse carbono poderá retornar à atmosfera por meio da decomposição e dos incêndios.

Uma transformação em grande escala poderia liberar uma quantidade equivalente a vários anos das emissões globais atuais, segundo os cenários discutidos pelos pesquisadores.

Essa liberação adicional de gases de efeito estufa contribuiria para intensificar o aquecimento global.

Assim, a perda da floresta poderia criar mais uma retroalimentação climática: o aquecimento prejudica a Amazônia e a degradação amazônica contribui para aumentar ainda mais o aquecimento.

O impacto também chegaria às chuvas

A Amazônia não influencia apenas o clima dentro de seus próprios limites.

A enorme quantidade de água reciclada pela floresta alimenta sistemas atmosféricos que transportam umidade para diferentes regiões da América do Sul.

Uma redução significativa da cobertura florestal poderia alterar esses fluxos e diminuir as chuvas em regiões distantes.

Mudanças desse tipo teriam consequências para a disponibilidade de água, produção agrícola, geração de energia e funcionamento de outros ecossistemas.

Por isso, o futuro da Amazônia não é apenas uma questão amazônica.

Isso significa que a Amazônia está condenada?

Não.

O próprio debate apresentado pela Nature mostra que ainda existem grandes incertezas sobre a localização exata dos pontos de não retorno e sobre como as diferentes regiões responderão aos próximos extremos climáticos.

A intensidade do novo El Niño será determinante.

A extensão das secas e, principalmente, a quantidade de floresta que eventualmente será atingida por incêndios também terão grande influência.

Além disso, diferentes regiões da Amazônia possuem condições ambientais e históricos de degradação distintos.

O cenário mais grave é uma possibilidade estudada pela ciência, não uma previsão inevitável.

O problema é a redução da margem de segurança

O ponto central das pesquisas é que a floresta enfrenta hoje um conjunto maior de pressões simultâneas.

Um evento climático natural como o El Niño não ocorre mais sobre a mesma Amazônia de décadas atrás.

Ele atua sobre uma floresta que já perdeu grandes áreas para o desmatamento, possui regiões degradadas pela exploração madeireira e pelo fogo e está submetida a temperaturas globais mais elevadas.

Ao mesmo tempo, algumas áreas ainda não se recuperaram completamente das secas anteriores.

Isso reduz a margem de segurança do ecossistema.

O próximo El Niño será um importante teste

Caso o fenômeno realmente alcance intensidade excepcional, os próximos meses poderão revelar muito sobre a capacidade atual de resistência da Amazônia.

Os pesquisadores estarão observando a umidade da vegetação, os níveis dos rios, a mortalidade das árvores, a ocorrência de incêndios e o balanço de carbono.

Mas evitar os piores cenários não depende apenas do comportamento do oceano Pacífico.

Reduzir o desmatamento e os incêndios significa retirar duas das principais pressões que tornam a floresta mais vulnerável às secas.

Quanto mais intacta e conectada permanecer a Amazônia, maior será sua capacidade de manter a umidade, resistir aos extremos e recuperar-se depois deles.

A questão, portanto, não é simplesmente descobrir se existe um número exato que marque o ponto de não retorno.

O principal alerta é que algumas regiões já mostram sinais de forte estresse e que sucessivos eventos extremos podem reduzir progressivamente sua capacidade de recuperação.

A Amazônia não está inevitavelmente condenada.

Mas a janela para manter grandes partes da floresta distantes de seus limites ecológicos pode estar ficando menor.

Fonte: Nature.

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