Rogério Vilela provoca reflexão no 81º SOEA: o que você deixou de ser quando cresceu?
Por Lucas Monteiro | Florestal Brasil — Aracaju (SE), 14 de outubro de 2026
Existe uma pergunta que dificilmente fazemos depois que entramos na vida adulta: será que a profissão que escolhemos ainda representa aquilo que gostaríamos de fazer?
Em um evento repleto de debates sobre inovação, tecnologia e os caminhos da engenharia brasileira, foi justamente um humorista quem trouxe essa provocação para o centro das atenções.
No segundo dia da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), realizada em Aracaju, Sergipe, Rogério Vilela, criador e apresentador do podcast Inteligência Ltda., subiu ao palco do Auditório Mangaba com uma proposta diferente das tradicionais apresentações técnicas.
Sua palestra, intitulada “O que você deixou de ser quando cresceu?”, percorreu momentos de sua trajetória como desenhista, artista, empresário, comediante e comunicador. Mas o que poderia ser apenas uma autobiografia bem-humorada acabou oferecendo reflexões bastante pertinentes aos profissionais que estavam na plateia.

Afinal, não é difícil encontrar engenheiros que começaram suas carreiras movidos pela vontade de construir, transformar paisagens, desenvolver tecnologias ou solucionar problemas e que, anos depois, se veem mergulhados em uma rotina de relatórios, burocracias, reuniões e responsabilidades que pouco lembram os sonhos da faculdade.
E aqui talvez esteja um dos aspectos mais interessantes da apresentação: embora Rogério Vilela não seja engenheiro, muitas de suas experiências dialogam diretamente com os desafios enfrentados por quem vive da engenharia.
Quando o sucesso profissional nos afasta daquilo que gostamos
Ao compartilhar sua trajetória, Vilela mostrou que uma carreira bem-sucedida nem sempre segue o caminho que imaginávamos.
Sua história começou cedo, com o desenho, passou pelo mercado internacional de histórias em quadrinhos e avançou para o empreendedorismo, até chegar à criação de uma produtora de destaque no setor audiovisual.
Entre conquistas e mudanças profissionais, surgiu uma contradição: o crescimento do negócio acabou afastando o artista da atividade que inicialmente despertava sua paixão.
Esse conflito, apresentado com a naturalidade e o humor característicos de Vilela, merece atenção especial no universo da engenharia.
Quantos engenheiros florestais ingressaram na profissão porque gostavam de estar em contato com a natureza, mas hoje passam a maior parte do tempo diante de um computador?
Essa é uma questão que me chamou atenção durante a palestra.
Como engenheiro florestal, sei que nossa profissão envolve muito mais do que a imagem romantizada de alguém caminhando pela floresta e estudando árvores.
Precisamos lidar com legislação ambiental, licenciamento, geoprocessamento, inventários, auditorias, gestão de equipes, planejamento financeiro, exigências de clientes e uma quantidade considerável de documentação.
Tudo isso é necessário. O problema começa quando a rotina nos distancia completamente daquilo que despertou nosso interesse pela profissão.
E não se trata apenas da Engenharia Florestal.
O engenheiro civil que sonhava projetar grandes estruturas pode acabar dedicado quase exclusivamente à gestão de contratos. O agrônomo apaixonado pela produção no campo pode passar seus dias resolvendo questões administrativas. O engenheiro ambiental, que desejava trabalhar diretamente com conservação, pode encontrar boa parte de sua rotina concentrada em processos e exigências regulatórias.
São caminhos legítimos e importantes, mas que levantam uma pergunta desconfortável: estamos construindo a carreira que desejamos ou apenas aprendemos a cumprir as obrigações que surgiram ao longo dela?
A experiência compartilhada por Vilela não oferece uma resposta universal. E ainda bem. O que ela oferece é uma oportunidade de fazer essa reflexão.
A engenharia também precisa aprender a se reinventar

Outro aspecto interessante da apresentação foi a maneira como Vilela abordou a necessidade de diferenciação profissional.
Ao longo de sua carreira, ele transitou entre atividades que, em um primeiro momento, pareciam pouco relacionadas. Entretanto, essas experiências contribuíram para desenvolver habilidades que mais tarde seriam fundamentais para seu trabalho como comunicador.
Essa capacidade de reunir conhecimentos diferentes e transformá-los em algo novo é especialmente importante para a engenharia contemporânea.
Na Engenharia Florestal, por exemplo, estamos vivenciando uma transformação significativa.
Ferramentas de sensoriamento remoto, inteligência artificial, drones, sistemas de informação geográfica e plataformas de rastreabilidade estão modificando a maneira como monitoramos florestas, avaliamos riscos ambientais e acompanhamos cadeias produtivas.
Um profissional que há alguns anos dependia principalmente de levantamentos tradicionais de campo hoje pode integrar imagens de satélite, dados geoespaciais, inventários florestais e informações de diferentes sistemas para desenvolver análises muito mais abrangentes.
Isso não significa que o conhecimento adquirido na universidade deixou de ser importante. Pelo contrário: ele continua sendo a base para interpretar corretamente essas informações.
Mas o mercado exige cada vez mais profissionais capazes de conectar diferentes áreas do conhecimento.
Na minha visão, um dos maiores desafios da engenharia não é simplesmente acompanhar o avanço tecnológico, mas compreender como utilizar essas transformações sem perder a essência da profissão.
Afinal, de pouco adianta dominar as ferramentas mais modernas se não conseguimos aplicá-las para resolver problemas reais.
É nesse ponto que a trajetória de um desenhista que se tornou empresário, comediante e apresentador de podcast encontra uma conexão inesperada com a engenharia: a capacidade de aprender, adaptar-se e encontrar novas aplicações para experiências anteriores.
Saber escutar também é uma competência técnica
Talvez uma das reflexões mais interessantes da palestra tenha sido sobre algo que raramente aparece nas matrizes curriculares dos cursos de engenharia: a capacidade de ouvir.
Rogério Vilela compartilhou sua visão sobre o que torna uma conversa interessante e sobre a importância de estar verdadeiramente atento às pessoas.
Para quem acompanha o Inteligência Ltda., essa característica não é exatamente uma surpresa. O programa recebe convidados de áreas e perspectivas muito diferentes, muitas vezes em conversas que ultrapassam várias horas.
Mas o que isso tem a ver com engenharia?
Mais do que parece.
Em uma auditoria florestal, por exemplo, não basta conferir documentos, analisar mapas ou verificar indicadores. É necessário compreender os processos, conversar com trabalhadores, ouvir comunidades e entender como determinada atividade acontece na prática.
Da mesma forma, na elaboração de projetos ambientais, a ausência de diálogo com as pessoas envolvidas pode comprometer soluções que, tecnicamente, pareciam perfeitas.
Como engenheiro florestal, considero que parte importante do nosso trabalho está justamente em compreender realidades que não aparecem integralmente nas planilhas, nos mapas ou nos relatórios.
Isso exige escuta, sensibilidade e capacidade de interpretação.
Uma conversa com um operador de máquinas, um trabalhador florestal, um pequeno produtor ou um morador de uma comunidade pode revelar informações que dificilmente seriam percebidas apenas por meio de análises documentais.
E essa talvez seja uma das grandes contradições da nossa época: temos acesso a quantidades extraordinárias de dados, mas nem sempre dedicamos a mesma atenção às pessoas.
A tecnologia amplia nossa capacidade de observar o mundo. A escuta nos ajuda a compreendê-lo.
Entre produtividade, propósito e a pressa de viver

A apresentação também trouxe reflexões sobre felicidade, dedicação profissional e a forma como administramos nosso tempo.
São assuntos que poderiam facilmente cair no discurso genérico de autoajuda. Mas o relato das experiências pessoais de Vilela, acompanhado de sua habitual irreverência, deu outro tom à discussão.
Vivemos em uma sociedade que frequentemente associa sucesso à produtividade.
É preciso estudar mais, trabalhar mais, conquistar melhores cargos, ampliar os negócios, aumentar os resultados e estar sempre preparado para a próxima oportunidade.
Na engenharia, essa cobrança costuma ser especialmente intensa.
Projetos têm prazos. Obras precisam avançar. Auditorias precisam ser concluídas. Empresas exigem resultados. Contratos estabelecem metas.
Entretanto, existe uma diferença entre construir uma carreira de sucesso e transformar a própria vida em uma sequência interminável de entregas.
Durante a palestra, Vilela convidou o público a refletir sobre a importância de valorizar o presente e prestar atenção às experiências que realmente importam.
E essa reflexão ganha um significado especial para quem trabalha com o meio ambiente.
Nós, engenheiros florestais, falamos constantemente sobre sustentabilidade, planejamento de longo prazo e uso responsável dos recursos naturais. Mas será que aplicamos esses mesmos princípios à nossa vida pessoal e profissional?
É possível construir uma carreira sustentável trabalhando permanentemente no limite?
É possível defender qualidade de vida e equilíbrio ambiental enquanto ignoramos completamente nossa própria qualidade de vida?
São perguntas que não possuem respostas simples, mas que merecem espaço em nossas discussões profissionais.
E talvez seja por isso que uma palestra aparentemente distante da programação técnica tradicional tenha tanto a acrescentar a um encontro como o SOEA.
Engenharia não é feita apenas de números
A Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia reúne profissionais que ajudam a construir a infraestrutura, a produção, a segurança e o desenvolvimento do Brasil.
São áreas que dependem de conhecimento científico, responsabilidade técnica e capacidade de solucionar problemas complexos.
Mas engenheiros não são apenas seus registros profissionais, seus currículos ou suas responsabilidades técnicas.
São pessoas que carregam histórias, expectativas, frustrações, ambições e sonhos.
Trazer ao SOEA uma personalidade como Rogério Vilela amplia o olhar sobre o desenvolvimento profissional, lembrando que criatividade, comunicação, sensibilidade e capacidade de adaptação também são competências importantes.
Para mim, esse foi o principal mérito da apresentação.
Não porque ela tenha apresentado alguma fórmula revolucionária para alcançar o sucesso, mas porque provocou uma reflexão que frequentemente deixamos de lado enquanto estamos ocupados demais tentando alcançá-lo.
E talvez valha guardar uma pergunta para o próximo dia de trabalho: se você pudesse conversar com a pessoa que era quando decidiu cursar engenharia, o que ela pensaria da carreira que construiu até aqui?
Florestal Brasil entrevista Rogério Vilela nos bastidores do SOEA

A cobertura do Florestal Brasil também reservou um encontro especial com o apresentador.
Após a palestra, tive a oportunidade de conversar com Rogério Vilela sobre sua trajetória, as dificuldades enfrentadas por quem escolhe seguir uma profissão por paixão e a importância de acreditar no próprio trabalho.
Apresentei a ele o Florestal Brasil, projeto de comunicação sobre engenharia florestal e meio ambiente que desenvolvemos desde 2014, além do nosso podcast, o FloresCast, que tem no Inteligência Ltda. uma de suas referências.
Durante a conversa, abordamos os desafios enfrentados por estudantes e profissionais da Engenharia Florestal, especialmente aqueles que encontram dificuldades para transformar sua vocação em uma atividade financeiramente sustentável.
Vilela destacou a importância de não abandonar completamente aquilo em que acreditamos. Quando não é possível viver imediatamente de uma paixão, ela pode continuar como hobby ou como uma atividade desenvolvida gradualmente, até que apareçam novas oportunidades.
A conversa ainda revelou uma curiosidade: quando criança, Vilela gostava de construir prédios com brinquedos e chegou a imaginar uma trajetória ligada à construção. Entretanto, brincou que sua dificuldade com matemática provavelmente não o ajudaria muito em uma carreira na Engenharia Civil.
Felizmente, como ele próprio reconheceu, a vida acabou conduzindo seus talentos por outros caminhos.
E, claro, não poderíamos deixar o encontro terminar sem pedir uma mensagem para os seguidores do Florestal Brasil.
Vilela convidou o público a se inscrever em nosso canal no YouTube, deixar o like e compartilhar os conteúdos. Também deixou algumas recomendações bem ao seu estilo, incluindo não fazer xixi na cama e torcer para o Corinthians, que, segundo ele, está precisando de uma força.
Um autógrafo, uma trolagem e um convite para o Inteligência Ltda.
Mas ainda havia uma última surpresa.
Antes de encerrarmos a entrevista, pedi um autógrafo a Rogério Vilela.
Ele prontamente aceitou.
O que ele não sabia, pelo menos naquele primeiro momento, é que a folha do caderno continha uma mensagem um pouco diferente de um pedido convencional de assinatura.
Nela estava escrito:
“Eu, Rogério Vilela, quero convidar a galera do Florestal Brasil para participar do podcast Inteligência Ltda.”

E assim conseguimos algo que certamente não estava previsto na programação oficial da 81ª SOEA: um convite assinado pelo próprio Rogério Vilela para o Florestal Brasil participar de seu podcast.
Tudo, evidentemente, não passou de uma brincadeira, sem qualquer valor contratual. Mas quem conhece o humor de Vilela sabe que uma boa trolagem pode ser o início de uma história ainda melhor.
Agora fica a pergunta:
Será que Rogério Vilela vai cumprir o “contrato” e receber o Florestal Brasil no Inteligência Ltda.?
Bom, a assinatura nós já temos.
Resta descobrir se o convite vai sair do papel.
E vocês vão acompanhar o desfecho dessa história em breve, no Instagram e no canal do Florestal Brasil no YouTube.
Enquanto isso, fica o convite para assistir à nossa entrevista completa, conhecer os bastidores da cobertura e acompanhar as principais discussões do 81º SOEA.
Porque, entre tantos debates sobre o futuro da engenharia, talvez uma das perguntas mais importantes que levaremos de Aracaju seja justamente aquela que Rogério Vilela fez ao subir no palco:
O que você deixou de ser quando cresceu?
O Florestal Brasil realiza a cobertura especial da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), acompanhando palestras, debates, tecnologias e os principais acontecimentos do encontro em Aracaju (SE).
Acompanhe: www.florestalbrasil.com | Instagram: @florestal_brasil | YouTube: Florestal Brasil
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