Queda de árvores em temporais expõe falhas de planejamento urbano, não excesso de arborização

Queda de árvores em temporais expõe falhas de planejamento urbano, não excesso de arborização

Árvores derrubadas por vendavais costumam aparecer nas imagens mais marcantes depois de temporais: vias bloqueadas, carros atingidos, redes elétricas rompidas e, em situações mais graves, vítimas.

Mas tratar as árvores como responsáveis pelo problema simplifica uma questão que envolve planejamento urbano, qualidade das mudas, condições do solo, manutenção e infraestrutura.

Essa é a avaliação do engenheiro agrônomo Marcelo Ferraz, professor da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em arborização urbana. Para ele, em muitos casos as árvores são mais vítimas da forma como as cidades foram construídas e manejadas do que causadoras dos problemas observados durante eventos extremos.

Arborização deixou de ser apenas uma questão estética

A presença de árvores nas cidades está diretamente relacionada ao conforto térmico e à qualidade ambiental.

Copas fornecem sombra, reduzem a exposição das superfícies à radiação solar e ajudam a amenizar ilhas de calor.

Ruas arborizadas também tornam os deslocamentos a pé e de bicicleta mais confortáveis, além de contribuírem para a ocupação dos espaços públicos.

Segundo Ferraz, a arborização urbana deve ser tratada também como questão de saúde pública.

Para que esses benefícios sejam mantidos, entretanto, a infraestrutura construída precisa ser planejada em conjunto com a vegetação.

Infraestrutura cinza e verde precisam ocupar a mesma cidade

Um dos principais problemas das cidades brasileiras é o conflito entre árvores e estruturas implantadas sem integração.

Calçadas estreitas, tubulações, redes elétricas, bocas de lobo, postes e pavimentação disputam o mesmo espaço ocupado pelas raízes e copas.

A chamada infraestrutura cinza — formada pelos elementos tradicionais de engenharia urbana — precisa funcionar em conjunto com a infraestrutura verde, formada por árvores, parques, jardins de chuva, canteiros e outras áreas vegetadas.

Canteiros drenantes, por exemplo, podem aumentar a retenção e infiltração da água durante chuvas intensas.

Já redes elétricas planejadas para coexistir com a arborização reduzem a necessidade de podas agressivas e o risco de acidentes.

Fiação aérea aumenta conflitos com as árvores

A rede elétrica é um dos exemplos mais visíveis desse problema.

Em muitas cidades, árvores de médio e grande porte crescem diretamente sob fios e postes.

Com o passar dos anos, as podas para afastar galhos da rede podem alterar a arquitetura natural da copa e criar desequilíbrios estruturais.

Ferraz aponta os cabos compactos e protegidos como uma alternativa intermediária e mais barata para reduzir conflitos.

A solução mais completa seria o enterramento da rede elétrica.

Embora envolva investimento inicial elevado, a infraestrutura subterrânea diminui a interferência entre árvores e fiação, reduz a necessidade de podas relacionadas aos cabos e pode diminuir problemas durante tempestades.

Por que tantas árvores caem nas cidades?

A queda de uma árvore raramente depende de um único fator.

Segundo o especialista, muitos problemas começam no próprio solo urbano.

Calçadas, ruas, estacionamentos e circulação intensa de pessoas e veículos provocam compactação, reduzindo os espaços por onde água e ar conseguem circular.

Raízes precisam desses espaços para se desenvolver.

Quando o solo está excessivamente compactado, o sistema radicular pode ficar limitado e a árvore perde parte da estabilidade necessária para enfrentar ventos intensos.

Outro problema são os pequenos espaços destinados ao plantio.

Árvores de grande porte frequentemente são instaladas em canteiros ou covas incompatíveis com o tamanho que atingirão na fase adulta.

O problema pode começar ainda no viveiro

A qualidade da muda utilizada no plantio também interfere na estabilidade futura da árvore.

Mudas mantidas por tempo excessivo em recipientes pequenos podem desenvolver raízes enoveladas.

Em vez de crescerem para fora depois do plantio, essas raízes continuam circulando próximas ao torrão.

O defeito pode acompanhar a árvore durante anos e comprometer sua ancoragem.

Por isso, a arborização precisa começar antes mesmo de a muda chegar à calçada.

Produção, seleção, transporte e plantio fazem parte do mesmo processo técnico.

Plantar e abandonar não é arborização

Outro problema apontado pelo pesquisador é a falta de acompanhamento depois do plantio.

Uma árvore jovem precisa de condução para desenvolver uma estrutura adequada.

A chamada poda de formação ou condução permite corrigir problemas ainda nas primeiras fases de crescimento.

Quando esse trabalho não ocorre, intervenções acabam sendo feitas somente anos depois, quando a árvore já apresenta conflitos com prédios, postes ou redes elétricas.

Nessa fase, as podas costumam ser mais agressivas e mais difíceis de executar sem prejudicar a estrutura vegetal.

Árvores exigem políticas mais longas do que mandatos

O tempo da arborização urbana é diferente do calendário político.

Uma árvore de grande porte pode levar entre 10 e 20 anos para atingir desenvolvimento suficiente para oferecer plenamente sombra, regulação térmica e outros serviços ambientais.

Isso significa que um programa iniciado em uma gestão municipal poderá apresentar seus maiores resultados várias administrações depois.

Para Ferraz, os municípios precisam criar planos diretores de arborização e manuais técnicos que sobrevivam às mudanças de governo e integrem profissionais de áreas como agronomia, engenharia florestal, biologia, arquitetura e engenharia urbana.

Regra 3-30-300 propõe cidades mais verdes

Outro avanço citado pelo especialista é o Plano Nacional de Arborização Urbana, o PlanNAU.

Entre suas referências está a chamada regra 3-30-300, utilizada como parâmetro para aproximar áreas verdes da população.

A proposta estabelece três referências:

  • cada pessoa deveria conseguir enxergar pelo menos três árvores a partir de locais onde vive, trabalha ou estuda;

  • os bairros deveriam alcançar pelo menos 30% de cobertura arbórea;

  • e a população deveria estar a no máximo 300 metros de uma área verde relevante.

Segundo a entrevista, a meta apresentada é que as cidades avancem em direção a esses parâmetros até 2045.

Mais árvores exigirão mais mudas nativas

A expansão da arborização também cria um desafio para os viveiros.

Durante décadas, muitas cidades brasileiras utilizaram grande quantidade de espécies exóticas, frequentemente escolhidas pelo aspecto ornamental ou pela facilidade de produção.

O especialista defende maior utilização de espécies nativas regionais.

Isso não significa apenas selecionar uma espécie brasileira.

Uma árvore nativa da Mata Atlântica do Nordeste, por exemplo, pode não ser adequada para uma cidade inserida em outro bioma ou submetida a condições climáticas diferentes.

A escolha deve considerar ocorrência natural, clima, solo, espaço disponível e características urbanas.

Não existe uma espécie ideal para todas as cidades

Ferraz chama atenção para a ausência de uma “receita de bolo” para arborização.

Cada município possui condições próprias.

Espécies adequadas a ruas largas podem não funcionar sob redes elétricas.

Árvores recomendadas para parques podem ser inadequadas para calçadas estreitas.

Da mesma forma, uma espécie pode ser nativa do Brasil sem ser naturalmente adaptada à região onde se pretende plantá-la.

O planejamento deve considerar a flora regional e as condições específicas de cada ambiente.

Falta também qualificação técnica

O conhecimento sobre arborização urbana existe no Brasil, mas nem sempre chega às administrações municipais ou aos profissionais responsáveis pela execução.

Segundo o pesquisador, ainda há carência de formação específica e valorização de arboristas, paisagistas, agrônomos, engenheiros florestais e biólogos que atuam no setor.

Essa falta de integração aparece na própria estrutura das cidades.

O arquiteto pode dominar o desenho urbano, enquanto o profissional das ciências agrárias compreende melhor o desenvolvimento das plantas.

Projetos mais eficientes dependem justamente da combinação desses conhecimentos.

Eventos extremos tornam o planejamento ainda mais urgente

Com tempestades mais intensas, episódios de vento forte e ondas de calor, a qualidade da arborização ganha importância adicional.

Árvores bem estabelecidas não eliminam os riscos de queda.

Uma rajada excepcional pode derrubar até exemplares saudáveis.

Mas solos adequados, raízes bem desenvolvidas, mudas de qualidade, podas técnicas e monitoramento reduzem vulnerabilidades que são produzidas pela própria cidade.

Da mesma forma, substituir sistematicamente árvores grandes por espécies pequenas para evitar conflitos pode eliminar parte significativa dos serviços ambientais que a arborização deveria prestar.

Cortar árvores não torna necessariamente a cidade mais segura

Depois de um temporal, a resposta imediata pode ser aumentar cortes ou podas preventivas.

Mas segurança urbana depende mais de diagnóstico do que de remoção indiscriminada.

Uma árvore estruturalmente saudável e adequada ao espaço pode permanecer por décadas oferecendo benefícios.

Já um indivíduo comprometido por raízes danificadas, podridão, inclinação ou defeitos estruturais pode exigir intervenção.

O manejo deve ser baseado em avaliação técnica do risco.

Árvores não precisam competir com a cidade

O problema central da arborização brasileira não é simplesmente a existência de árvores próximas às estruturas urbanas.

É a ausência de planejamento para permitir que os dois sistemas coexistam.

Se uma árvore é plantada em poucos centímetros de solo compactado, sob uma rede elétrica e sem espaço para o desenvolvimento das raízes, os conflitos futuros são previsíveis.

A resposta passa por desenhar a cidade considerando o tamanho que a árvore terá daqui a décadas.

Em um cenário de eventos climáticos mais intensos, isso se torna ainda mais importante.

Árvores ajudam a reduzir calor, aumentar a infiltração da água, melhorar o ambiente urbano e tornar ruas e bairros mais confortáveis. Mas precisam receber condições para crescer de forma saudável.

Quando temporais expõem árvores mal implantadas, raízes confinadas e redes elétricas incompatíveis com a vegetação, o problema não está apenas na árvore que caiu.

Está também na cidade que cresceu sem reservar espaço suficiente para ela.

Fonte: Jornal da Unesp.

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