Projeto de lei tenta flexibilizar áreas de proteção de rios urbanos em todo país
Hoje sob o Código Florestal, autorização de construções às margens de cursos d’água passariam a municípios e estados
Projeto de Lei faz diferenciação de tratamento entre rios rurais e urbanos. “É esse desrespeito que vem gerando as enchentes e desastres”, afirma ambientalista - Nilson Aparecido/Reprodução CMBHManifesto reúne assinaturas contra o PL
Para dar visibilidade aos prejuízos dessa proposta, um manifesto já reúne mais de 60 entidades sociais e ambientais de Minas Gerais, assim como assinaturas de lideranças ambientais de todo o país e também estrangeiras. No manifesto também é possível acessar a lista completa dos deputados federais que votaram a favor do Projeto de Lei. A moradora da bacia de Cercadinho, Carla Magna, e também organizadora do Projeto Cercadinho e Ponte Queimada Córregos Vivos, alerta para os problemas da flexibilização do Código Florestal. O próprio Córrego Cercadinho, que fica na região oeste de Belo Horizonte (MG), passou há poucos meses por uma tentativa de liberação de um empreendimento às suas margens. “Hoje, a área periférica, por onde passa o córrego, está estabilizada, mas nos bairros ricos há pedidos de licenciamento no Conselho Municipal. Esse ano, um empreendimento a 15 metros do córrego foi liberado”, conta Carla. O movimento se valeu do Código Florestal - que exige o mínimo de 30 metros -, ganhou a causa e embargou a obra. Porém, o PL 2510 muda a questão e deixa a decisão nas mãos do poder municipal. “Estamos ficando sem ter onde recorrer judicialmente”, lamenta a ambientalista.Rural x urbano: tratamentos diferentes
Chama a atenção também que o Projeto de Lei esteja fazendo uma diferenciação de tratamento entre rios rurais e urbanos. O próprio relator do projeto, o deputado federal Darci de Matos (PSD-SC) defendeu a diferenciação. "A decisão do Supremo Tribunal Federal (STJ) aplica o Código Florestal que vale para Amazônia em São Paulo, Florianópolis e Recife. O projeto vai desengessar o Brasil e vai dar prerrogativa para municípios legislarem", defendeu. Na opinião da ambientalista, essa postura é um equívoco, já que o rio “urbano” é o rio “rural”, ou seja, nasce e passa tanto pelas cidades quanto pelos campos. “Inclusive, a crise que estamos passando hoje é consequência de como tratamos os ‘rios urbanos’. É esse desrespeito que vem gerando as enchentes e desastres. Isso é matemático”, destaca. Uma pesquisa do MapBiomas indica que também a escassez hídrica deve ser preocupação das cidades. Por diversos motivos, dentre eles as interferências nos cursos d’água e suas margens, a superfície coberta com água no Brasil reduziu 15% desde o início dos anos 90. A perda de 3,1 milhões de hectares em 30 anos equivale a uma vez e meia a superfície de água de toda região nordeste em 2020. Fonte: BdF Minas Gerais