Poluição do ar afeta árvores da Mata Atlântica e revela quais espécies são mais resistentes nas cidades
A poluição atmosférica produzida por veículos, indústrias e outras atividades urbanas não afeta apenas a saúde humana. Árvores também acumulam contaminantes e apresentam respostas fisiológicas ao estresse ambiental.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo avaliou cerca de 350 árvores de 29 espécies nativas da Mata Atlântica para identificar quais são mais sensíveis ou tolerantes à poluição do ar.
Os resultados, publicados na revista Restoration Ecology, podem ajudar a orientar projetos de arborização urbana e restauração florestal em regiões sujeitas a elevados níveis de contaminação atmosférica.
Entre as espécies mais tolerantes está o guamirim-de-inverno (Eugenia cerasiflora). Já a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron), espécie ameaçada da Mata Atlântica, foi classificada entre as mais sensíveis.
Árvores como indicadores da qualidade ambiental
As plantas absorvem substâncias presentes na atmosfera durante as trocas gasosas e também acumulam partículas sobre folhas e outros tecidos.
Por isso, podem funcionar como organismos de biomonitoramento.
Segundo Ricardo Nakazato, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo IPA e professor da Universidade Guarulhos, a resposta das árvores permite avaliar não apenas a presença de um poluente específico, mas o conjunto de condições ambientais ao qual o organismo está submetido.
Essa abordagem pode complementar os métodos físico-químicos tradicionalmente utilizados para monitorar a qualidade do ar.
O objetivo do estudo foi justamente avaliar como diferentes espécies arbóreas reagem ao estresse causado pela poluição e verificar de que maneira essas informações poderiam ser incorporadas ao planejamento da arborização e da restauração.
Pesquisa avaliou árvores do Cinturão Verde de São Paulo
As coletas foram realizadas na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, reconhecida pela Unesco em 1994.
A área abrange 78 municípios e reúne fragmentos de Mata Atlântica e Cerrado inseridos em uma paisagem com forte influência humana.
Dentro da reserva existem áreas urbanizadas, zonas industriais, propriedades agrícolas, parques e remanescentes florestais submetidos a diferentes fontes de emissão de poluentes.
Os pesquisadores amostraram árvores em quatro parques localizados em São Paulo, Cotia e Iperó.
No total, foram analisadas aproximadamente 350 árvores pertencentes a 29 espécies.
Mapa da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo (RBCV-SP), com destaque para os locais de coleta das amostras. Imagem: reprodução do artigo.
Espécies apresentaram níveis diferentes de tolerância
Os resultados mostraram forte variação entre as espécies.
Das 29 avaliadas, seis foram classificadas como sensíveis à poluição atmosférica, 17 como moderadamente resistentes e quatro como tolerantes.
Outras duas apresentaram respostas diferentes conforme o local onde estavam estabelecidas.
Segundo Marisa Domingos, ecóloga do IPA e coordenadora da pesquisa, o nível de tolerância ao estresse oxidativo provocado por distúrbios ambientais varia significativamente entre espécies nativas da Mata Atlântica.
Essa diferença é importante porque indica que a escolha das árvores utilizadas em ambientes urbanos não deve considerar apenas aspectos como porte, crescimento e características paisagísticas.
A capacidade de suportar condições atmosféricas adversas também pode influenciar o desempenho das espécies.
Guamirim-de-inverno apresentou maior tolerância
O guamirim-de-inverno (Eugenia cerasiflora) foi uma das espécies consideradas mais tolerantes à poluição.
Endêmica da Mata Atlântica, a árvore possui porte médio e produz pequenos frutos vermelhos consumidos por aves e outros animais.
A frutificação ocorre entre o inverno e a primavera, período em que os frutos podem representar uma fonte importante de alimento para a fauna.
As flores também fornecem néctar e pólen para abelhas e outros polinizadores.
Essas características, somadas à resistência observada no estudo, indicam potencial para seu uso em determinadas situações de arborização urbana.
Peroba-rosa está entre as espécies mais sensíveis
A peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron) apresentou comportamento oposto.
A espécie, que pode ultrapassar 50 metros de altura, sofreu intensa exploração histórica devido à qualidade de sua madeira e atualmente está entre as árvores ameaçadas da Mata Atlântica.
O estudo mostrou que ela também apresenta elevada sensibilidade à poluição atmosférica.
Isso representa uma pressão adicional sobre populações existentes em regiões metropolitanas ou próximas a grandes fontes de emissão.
O tanheiro (Alchornea triplinervia), conhecido também como tapiá, tamanqueiro ou boleiro, foi outra espécie considerada sensível.
Seus pequenos frutos são utilizados por aves, que contribuem para a dispersão das sementes.
Dados podem melhorar o planejamento da arborização urbana
A arborização urbana desempenha funções ambientais importantes, como sombreamento, redução da temperatura local, melhoria das condições de umidade e aumento da infiltração da água das chuvas.
As árvores também oferecem alimento e abrigo para a fauna e contribuem para a conectividade entre áreas verdes.
Mas projetos de arborização precisam considerar as condições específicas de cada local.
Além do espaço disponível, características do sistema radicular, tamanho da copa, disponibilidade hídrica e interação com infraestrutura urbana, a tolerância à poluição pode ser incorporada aos critérios técnicos de seleção.
Em regiões com tráfego intenso ou próximas a áreas industriais, espécies muito sensíveis podem apresentar menor desempenho e maior vulnerabilidade.
Aplicação também pode chegar à restauração florestal
Os resultados não se restringem às ruas e praças.
Fragmentos florestais, Áreas de Preservação Permanente, margens de rios e parques próximos a centros urbanos também estão sujeitos à contaminação atmosférica.
Projetos de restauração nessas regiões podem utilizar informações sobre tolerância a poluentes para selecionar espécies mais adequadas às condições existentes.
Uma árvore adaptada a determinado ambiente natural pode não apresentar o mesmo desempenho quando submetida continuamente às emissões de uma rodovia ou de uma zona industrial.
Resistência não deve levar à redução da diversidade
Os pesquisadores ressaltam que o objetivo não é produzir uma pequena lista de espécies resistentes e utilizá-las indiscriminadamente nas cidades.
Uma arborização formada por poucas espécies aumenta a vulnerabilidade a pragas, doenças e alterações ambientais.
A diversidade continua sendo um dos principais elementos para garantir estabilidade ecológica.
Espécies consideradas sensíveis também possuem funções importantes e podem ser utilizadas em locais onde a pressão atmosférica seja menor.
Além disso, sua sensibilidade pode ser útil no próprio biomonitoramento ambiental.
Estudo cria modelo para avaliar novas espécies
Segundo os autores, uma das principais contribuições da pesquisa é a metodologia utilizada para classificar a resposta das árvores.
O modelo poderá ser aplicado futuramente a outras espécies nativas.
Isso é relevante porque as 29 espécies avaliadas representam apenas uma pequena parcela da diversidade arbórea existente na Mata Atlântica.
Com novas pesquisas, será possível ampliar a base de dados e oferecer informações mais detalhadas para gestores públicos, profissionais de arborização e projetos de restauração.
Poluição é mais uma pressão sobre a Mata Atlântica
O estudo também amplia a compreensão sobre os impactos ambientais da poluição atmosférica.
Espécies florestais não estão ameaçadas apenas pelo desmatamento ou pela fragmentação dos habitats.
Contaminação do ar, mudanças climáticas e alterações ambientais podem atuar simultaneamente sobre populações já vulneráveis.
O caso da peroba-rosa é um exemplo dessa sobreposição de pressões.
Mesmo onde a floresta permanece em pé, as árvores podem estar submetidas a condições capazes de alterar seu funcionamento fisiológico.
A pesquisa reforça, portanto, a importância de incorporar os efeitos da poluição ao planejamento da conservação e da infraestrutura verde urbana.
Árvores podem ajudar a melhorar as condições ambientais das cidades, mas também respondem diretamente à qualidade do ar existente ao seu redor.
Entender quais espécies conseguem suportar melhor esse ambiente pode tornar projetos de arborização e restauração mais eficientes — sem perder de vista que a principal estratégia contra a poluição continua sendo a redução das emissões na fonte.
O estudo foi publicado na revista científica Restoration Ecology e contou com financiamento da FAPESP, por meio do BIOTA Síntese, e do Plano de Desenvolvimento Institucional em Pesquisa do Instituto de Pesquisas Ambientais.
Fonte: ((o))eco
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