Mudanças climáticas ameaçam plantas da Amazônia e o conhecimento indígena sobre elas, segundo estudo
A Amazônia pode perder muito mais do que espécies de plantas com o avanço das mudanças climáticas. Um estudo publicado na revista Nature intitulado The forest of knowledge under global change mostra que a perda da biodiversidade e o desaparecimento de línguas indígenas estão relacionados à perda de conhecimentos sobre a floresta transmitidos entre gerações.
O estudo realizado pelos pesquisadores Rodrigo Cámara-Leret, Patrick R. Roehrdanz e Jordi Bascompte, reuniu 90.536 registros sobre usos e benefícios de plantas amazônicas, extraídos de 700 referências publicadas entre 1504 e 2023. Ao todo, os autores identificaram 5.796 espécies de plantas utilizadas pelas sociedades amazônicas — cerca de 36% da flora conhecida de plantas com sementes da região. Entre os registros analisados estão informações sobre alimentação, medicina, construção, ferramentas e outras formas de utilização das plantas. Os dados relacionados aos povos indígenas correspondem a 4.305 espécies.
A literatura analisada contém informações sobre 243 culturas indígenas, associadas a 156 línguas vivas. Dessas línguas, 55% são classificadas como ameaçadas pelo Ethnologue.

Imagem: Jean-Claude Gerez / CCFD-Terre Solidaire
Um conhecimento que existe dentro das línguas
Para Jordi Bascompte, um dos autores do estudo, preservar os benefícios que a natureza oferece às comunidades indígenas exige proteger simultaneamente o patrimônio ecológico e o patrimônio cultural.
Em respostas enviadas à Florestal Brasil, Bascompte explica que, se o conhecimento fosse compartilhado entre diferentes culturas, o desaparecimento de uma língua poderia ser menos prejudicial para sua preservação. Nesse caso, as línguas funcionariam apenas como diferentes formas de traduzir um conhecimento que continuaria existindo em outros grupos.
Mas, segundo o pesquisador, não é isso que os dados mostram.
“Devido à alta proporção de conhecimentos que são únicos linguisticamente, perder uma cultura e sua língua implica apagar esse conhecimento. As línguas são mais do que uma maneira de traduzir a natureza: elas oferecem janelas únicas para a natureza", afirma.
O estudo mostra que 74% dos usos e benefícios das plantas registrados estão associados a uma única cultura, o que reforça o caráter localizado desse conhecimento. Além disso, 60% dos serviços culturalmente únicos identificados estão registrados exclusivamente em línguas classificadas como ameaçadas pelo Ethnologue.
O risco de uma perda irreversível
O desaparecimento de uma língua pode interromper a transmissão desse conhecimento entre gerações. E, para Bascompte, essa é uma das características que tornam essa perda especialmente difícil de reverter. Para o pesquisador, muitos desses conhecimentos são transmitidos oralmente e que, quando uma língua desaparece, não existe necessariamente um registro físico que permita recuperar esse conhecimento no futuro.
“Isso significa que o conhecimento não pode mais ser transmitido entre gerações. Como esses grupos indígenas são iletrados, não existe um suporte físico para esse conhecimento que possa ser recuperado no futuro de maneira semelhante à que a Pedra de Roseta foi usada para decifrar os antigos hieróglifos egípcios. A perda de uma língua rompe essa transmissão entre gerações de maneira irreversível", revela.
A comparação com a Pedra de Roseta é usada pelo pesquisador para explicar a diferença entre um conhecimento preservado em registros físicos e aquele cuja transmissão depende da linguagem. Bascompte também compara as redes de conhecimento indígena às coleções da antiga Biblioteca de Alexandria: conhecimentos que não estão escritos em pedra, mas são comunicados oralmente entre gerações por meio de uma determinada língua.
O que os 26% representam?
A pesquisa também calculou o impacto potencial do desaparecimento das línguas indígenas sobre o conjunto de conhecimentos reunidos no estudo. Dos 76.390 registros bibliográficos de espécies de plantas nativas utilizados nessa etapa, 57% estão associados a 156 línguas indígenas. Dessas línguas, 56% são classificadas como ameaçadas pelo Ethnologue.
A partir desses dados, os pesquisadores estimaram que, se as línguas indígenas ameaçadas desaparecerem até o fim do século, o conjunto de conhecimentos amazônicos analisado no estudo poderia ser reduzido em 26%. O número, portanto, não significa que 26% de todo o conhecimento existente na Amazônia desaparecerá. Trata-se de uma projeção sobre a chamada “rede de conhecimentos” construída pelos pesquisadores a partir dos registros disponíveis.
Os próprios autores consideram essa estimativa conservadora. O estudo observa que quase metade das culturas indígenas da Amazônia ainda não está representada na literatura analisada e que outras classificações linguísticas consideram uma parcela ainda maior das línguas como ameaçada. Em um cenário alternativo, no qual os registros associados a línguas não especificadas também fossem considerados ameaçados, a redução estimada chegaria a 61%.

Imagem: Ricardo Oliveira / AFP
Plantas também estão sob pressão do clima
A ameaça não ocorre apenas pela perda das línguas. Os pesquisadores também avaliaram como as mudanças climáticas podem afetar as próprias plantas utilizadas pelas comunidades indígenas. Para isso, foram analisados 8.429 modelos de distribuição de espécies em três cenários climáticos futuros, considerando o período entre 2060 e 2080.
Nos diferentes cenários, as culturas indígenas poderiam perder localmente, em média, entre 28% e 34% das espécies de plantas utilizadas. A perda dos serviços associados a essas plantas — como alimentação, medicina e outros usos — poderia variar entre 18% e 23%.
Isso cria uma relação de mão dupla: uma espécie pode deixar de estar disponível em determinado território por causa das mudanças climáticas e, com ela, desaparecer uma prática ou conhecimento relacionado àquela planta. Da mesma forma, a perda de uma língua pode interromper a transmissão de um conhecimento sobre uma espécie que ainda existe.
“Usar as raízes de uma espécie de planta para tratar uma doença pode desaparecer tanto porque a espécie foi extinta localmente quanto porque aquele uso específico, transmitido por meio de uma única língua que desapareceu, foi perdido", afima o pesquisador.
Um patrimônio que é biológico e cultural
Os pesquisadores defendem que políticas de conservação da Amazônia precisam considerar essas duas dimensões conjuntamente. O estudo aponta que, até agora, pesquisas sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos frequentemente se concentram nos componentes ecológicos. A proposta dos autores é incorporar também as redes de conhecimento indígena, permitindo observar não apenas quais espécies existem, mas quais relações as comunidades estabeleceram com elas e quais benefícios essas espécies oferecem.
Para Bascompte, essa é a principal implicação do trabalho: proteger os benefícios que a natureza oferece às comunidades indígenas exige preservar tanto o patrimônio ecológico quanto o cultural. Na Amazônia, portanto, a perda de uma planta e a perda de uma língua podem parecer fenômenos diferentes. Mas, para as comunidades que construíram conhecimentos sobre a floresta ao longo de gerações, elas podem fazer parte da mesma história.
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