Pesquisadores descrevem pela primeira vez canto defensivo de duas espécies de pererecas do gênero Pithecopus

Pesquisadores descrevem pela primeira vez canto defensivo de duas espécies de pererecas do gênero Pithecopus

Quando uma perereca canta, o som costuma ser associado à reprodução, à disputa entre machos ou à tentativa de atrair uma parceira. Mas esses anfíbios também possuem outra vocalização, muito menos conhecida: um chamado emitido em situações extremas, quando o animal é capturado ou atacado por um predador. Esse “grito de socorro”, ainda pouco explorado pela ciência, é o foco de um estudo inédito que descreveu, pela primeira vez, os cantos de estresse de espécies do gênero Pithecopus e identificou diferenças acústicas entre duas espécies-irmãs que podem abrir novas perspectivas para compreender a comunicação e a evolução desses anfíbios.

Pithecopus gonzagai, pequena espécie de perereca endêmica do Nordeste do Brasil. Foto: Luiz Gustavo Betanin Pithecopus gonzagai, pequena espécie de perereca endêmica do Nordeste do Brasil. Foto: Guga Betanin

A pesquisa Distress calls of two species of Pithecopus (Anura, Hylidae) in Northeastern Brazil analisou as vocalizações de defesa de Pithecopus gonzagai e Pithecopus nordestinus, duas espécies de pererecas-verdes do Nordeste brasileiro. Embora sejam muito semelhantes na aparência, elas emitem cantos de estresse com características acústicas distintas — um comportamento que permaneceu pouco estudado em comparação aos tradicionais cantos de anúncio, relacionados à reprodução.

Ao contrário desses cantos, que dominam as noites durante o período reprodutivo, o canto de estresse rompe o silêncio apenas em momentos extremos. É um som emitido quando a sobrevivência da perereca está em risco, seja ao ser capturada por um predador, seja durante uma situação de manipulação. Por ocorrer em circunstâncias tão específicas, essa vocalização permaneceu por décadas à margem dos estudos sobre a comunicação dos anfíbios.

"Se eu fosse descrever o canto para as pessoas, diria que é um chamado de socorro, um grito. O animal está sendo predado, está passando por uma situação de estresse, então ele vai gritar", resume João Cunegundes, pesquisador do Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (LEHP/UFRPE) e um dos autores do artigo.

Foi esse comportamento que levou os pesquisadores de volta a um conjunto de gravações feitas durante atividades de campo na Estação Ecológica de Tapacurá, em Pernambuco. Na ocasião, os animais haviam sido manejados para um estudo sobre a microbiota da pele quando, durante o manuseio, emitiram os chamados de estresse, que acabaram sendo registrados pela equipe.

Registro do pesquisador João Cunegundes ouvindo vocalização das espécies.

Naquele momento, porém, ninguém imaginava que aquelas gravações ajudariam a preencher uma lacuna no conhecimento científico. Para quem trabalha com anfíbios, vocalizações defensivas durante o manuseio não são necessariamente incomuns. O que ainda não se sabia era que aqueles sons escondiam diferenças importantes entre espécies tão próximas evolutivamente.
Em vez de tratar essa vocalização como uma reação comum ao manuseio dos animais, os pesquisadores passaram a se perguntar se duas espécies-irmãs também reagiriam da mesma forma diante de uma ameaça.

Embora já fossem diferenciadas por características genéticas, morfológicas e pelo canto de anúncio, ninguém havia investigado, em detalhes, se elas compartilhavam os mesmos padrões acústicos quando vocalizavam em situações de estresse.

Para Arthur Felipe, mestrando e pesquisador do Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (LEHP/UFRPE), coautor do artigo, foi uma pergunta aparentemente simples que transformou um registro de campo em uma pesquisa científica.

"O insight surgiu quando pensamos em comparar esse canto com o da espécie evolutivamente mais próxima, para investigar se elas ainda compartilhavam os mesmos padrões acústicos de defesa. Foi a partir dessa ideia que o registro passou a ganhar uma dimensão científica maior. E, para a nossa surpresa, encontramos padrões bastante distintos, mostrando que, embora sejam muito parecidas fisicamente, até a forma como reagem vocalmente a uma situação de ameaça é diferente", afirma o pesquisador.

A surpresa não estava apenas nas gravações. Ela também apareceu quando os pesquisadores voltaram à literatura científica.

Ao revisarem os estudos publicados, encontraram poucos trabalhos dedicados às vocalizações defensivas em anuros e nenhum que descrevesse, em detalhes, os chamados de estresse em espécies do gênero Pithecopus.

"Encontramos poucos estudos sobre vocalizações secundárias e defensivas no gênero Pithecopus e nenhum que descrevesse detalhadamente seus padrões acústicos. De forma geral, esse ainda é um tema pouco explorado, porque a maioria das pesquisas com anuros se concentra no canto de anúncio, que está diretamente relacionado à reprodução", explica Arthur.

Essa predominância não acontece por acaso. Os chamados de anúncio são emitidos com frequência durante a reprodução e desempenham um papel central na comunicação entre os anfíbios, sendo amplamente utilizados para reconhecer espécies, estudar seu comportamento e compreender sua evolução. Já os chamados de estresse surgem apenas em situações de ameaça, o que torna seu registro muito mais raro.

Foi justamente essa lacuna que os autores se propuseram a preencher. O estudo representa a primeira descrição detalhada dos cantos de estresse de duas espécies no gênero Pithecopus e amplia o conhecimento sobre um repertório acústico que, embora faça parte da história natural desses anfíbios, permaneceu praticamente inexplorado por décadas.

As respostas estavam escondidas na própria estrutura das vocalizações.

Apesar do parentesco evolutivo e da grande semelhança morfológica entre P. gonzagai e P. nordestinus, os chamados de estresse das duas espécies não eram iguais. A comparação revelou diferenças marcantes na forma como cada uma vocaliza diante de uma ameaça.

P. nordestinus, por exemplo, emite chamados mais longos e acusticamente mais complexos do que P. gonzagai. A análise também identificou um número maior de harmônicos — frequências produzidas junto ao som principal e que ajudam a formar o timbre característico da vocalização. Além disso, ambas as espécies produzem chamados compostos por múltiplos pulsos, uma característica ausente em seus cantos de anúncio.

Na imagem, Pithecopus nordestinus, perereca que habita o Nordeste do Brasil. Foto: Inácio Negromonte

As diferenças não se limitam à duração ou à estrutura do som. Em comparação com as vocalizações reprodutivas, os chamados de estresse apresentam frequências mais altas e uma organização acústica mais complexa, características frequentemente associadas, em outros estudos, a estratégias de intimidação ou confusão de possíveis predadores.

Mais do que revelar diferenças entre duas espécies de pererecas, os resultados ampliam a forma como a ciência pode interpretar esse tipo de vocalização. Arthur acredita que uma das principais contribuições do trabalho é mostrar que os chamados emitidos em situações de estresse também carregam informações importantes sobre a biologia dos anfíbios.

"A pesquisa mostra que os chamados de estresse também podem trazer informações importantes sobre a identidade, o comportamento e a evolução das espécies. Para quem estuda anfíbios, isso reforça a necessidade de olhar além das vocalizações reprodutivas e registrar outros sons emitidos pelos animais, porque eles também podem revelar diferenças que não são facilmente percebidas apenas pela aparência morfológica e pela complexidade dos comportamentos dos anuros”, afirma o pesquisador.

Foi justamente essa constatação que acendeu uma nova perspectiva para futuras pesquisas.

"A minha proposta dentro desse trabalho é levar os pesquisadores da área a pensar que, talvez, o canto de estresse seja um possível marcador taxonômico, por contar histórias evolutivas diferentes de populações que vivem em ambientes distintos. Eu não estou afirmando isso neste trabalho, mas propondo que a gente possa pensar nessa perspectiva", destaca Cunegundes.

Para ele, diferenças como a quantidade de harmônicos e outros parâmetros acústicos observados entre P. gonzagai e P. nordestinus indicam que esse repertório vocal pode guardar informações evolutivas ainda pouco exploradas. A hipótese, no entanto, precisará ser investigada em outras espécies e populações antes que possa ser confirmada.

 

Você pode acessar o artigo citado na matéria em: Distress calls of two species of Pithecopus (Anura, hylidae) in Northeastern Brazil

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