Pastagens e lavouras próximas a rodovias aumentam risco de atropelamento de mamíferos
O risco de atropelamento de animais silvestres em rodovias não depende apenas da proximidade de remanescentes florestais. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostra que áreas de pastagem e de produção agrícola no entorno das vias também estão associadas a uma maior ocorrência de colisões envolvendo mamíferos de médio e grande porte.
A pesquisa analisou sete anos de registros da Rodovia Dom Pedro I, uma das principais vias do Estado de São Paulo, e aponta que o uso e a ocupação da terra ao redor das estradas precisam ser considerados no planejamento de medidas de proteção da fauna.
Os resultados podem contribuir para novos critérios de implantação de cercas e passagens de fauna, atualmente definidas principalmente pela proximidade de áreas florestais e pela localização de trechos com alta concentração de atropelamentos.
Milhões de animais são atropelados no Brasil
O atropelamento em rodovias é uma importante ameaça à fauna silvestre brasileira.
Embora a falta de dados padronizados dificulte uma estimativa exata, estudos citados pelos pesquisadores apontam que cerca de 9 milhões de vertebrados podem morrer anualmente nas estradas do país.
No Estado de São Paulo, apenas nas rodovias administradas pelo Departamento de Estradas de Rodagem, foram registrados 5.150 atropelamentos de animais silvestres em 2025.
Além dos impactos sobre a biodiversidade, colisões com mamíferos de médio e grande porte também oferecem riscos para motoristas e passageiros.
Animais como capivaras, tamanduás, veados e grandes felinos possuem massa corporal suficiente para provocar acidentes graves quando atingidos por veículos em alta velocidade.
Sete anos de dados da Rodovia Dom Pedro I
Os pesquisadores utilizaram registros de atropelamento coletados pela concessionária Rota das Bandeiras entre 2014 e 2021.
A Rodovia Dom Pedro I possui aproximadamente 145 quilômetros e conecta Jacareí a Campinas, com circulação diária de cerca de 450 mil veículos.
A região também possui importância ambiental.
A rodovia atravessa o Corredor Cantareira-Mantiqueira, iniciativa criada para favorecer a conexão entre fragmentos de Mata Atlântica existentes entre o Parque Estadual da Cantareira e a Serra da Mantiqueira.
Essa combinação entre intenso tráfego e paisagens fragmentadas cria situações em que animais precisam atravessar as vias durante seus deslocamentos.

Mais de 24 espécies registradas
O levantamento identificou mais de 24 espécies de mamíferos de médio e grande porte atropeladas ao longo da rodovia.
Entre elas estavam animais classificados como vulneráveis ou ameaçados no Estado de São Paulo, incluindo tamanduá-bandeira, jaguatirica, lobo-guará e onça-parda.
A capivara foi a espécie mais frequentemente envolvida nas ocorrências, respondendo por aproximadamente 60% dos registros.
Embora não esteja ameaçada de extinção, sua presença representa uma preocupação importante para a segurança viária devido ao tamanho do animal e à possibilidade de colisões graves.
Por outro lado, a perda de espécies raras ou ameaçadas pode produzir consequências significativas para suas populações.
Grandes felinos e outros mamíferos de baixa densidade populacional geralmente apresentam reprodução mais lenta. A morte de apenas um indivíduo reprodutivo pode representar uma perda proporcionalmente importante para a população local.
Não são apenas as florestas que atraem os animais
A proximidade de remanescentes florestais esteve relacionada ao atropelamento de espécies que dependem mais diretamente desses ambientes.
Esse resultado já era esperado pelos pesquisadores.
A surpresa veio da constatação de que pastagens e áreas agrícolas também estavam associadas ao aumento das ocorrências.
Essas paisagens são utilizadas principalmente por espécies consideradas generalistas, capazes de explorar diferentes ambientes e tolerar melhor as áreas modificadas pelo ser humano.
Entre os animais que apresentaram esse perfil estão gambás, capivaras, lebres-europeias e cachorros-do-mato.
Como circulam por florestas, áreas abertas, plantações e pastagens, essas espécies podem cruzar rodovias em diferentes trechos, e não apenas nos pontos próximos a remanescentes naturais.
O comportamento das espécies influencia o risco
Os pesquisadores também organizaram os animais em grupos funcionais.
A classificação considerou características como o tamanho da área utilizada pelos indivíduos e sua capacidade de tolerar ambientes modificados.
A estratégia permite pensar medidas de proteção para conjuntos de espécies que compartilham comportamentos semelhantes, em vez de desenvolver uma solução completamente diferente para cada animal.
O tamanduá-bandeira é um exemplo de espécie cujo comportamento aumenta a vulnerabilidade.
O animal utiliza frequentemente ambientes abertos, incluindo áreas agrícolas e pastagens, possui hábitos tanto diurnos quanto noturnos e apresenta deslocamento relativamente lento.
A combinação dessas características contribui para sua recorrência entre as vítimas de atropelamento em rodovias brasileiras.
Paisagem do entorno foi analisada
Para investigar a influência do uso da terra, os pesquisadores utilizaram mapas da região ao redor da Rodovia Dom Pedro I.
Em cada ponto onde houve atropelamento, foi delimitada uma área ao redor do local para analisar quais tipos de paisagem eram predominantes.
Foram consideradas sete categorias: florestas, pastagens, agricultura, silvicultura, áreas urbanizadas, mosaicos de diferentes usos e corpos d'água.
Os resultados demonstraram que a ocorrência de atropelamentos não é explicada apenas pelas características da própria rodovia.
A estrutura da paisagem ao redor também exerce uma influência importante.
Áreas cultivadas e pastagens apresentaram associação positiva com os atropelamentos, especialmente para espécies ecologicamente mais flexíveis.
Passagens de fauna podem precisar de novos critérios
As passagens de fauna são estruturas projetadas para permitir que os animais atravessem rodovias com menor risco.
Elas podem ser subterrâneas ou suspensas e normalmente são acompanhadas de cercas que impedem o acesso direto ao asfalto e direcionam os animais até o local seguro de travessia.
Atualmente, a escolha dos pontos para instalação costuma considerar principalmente dois critérios.
O primeiro é a proximidade de remanescentes florestais.
O segundo são os chamados hot spots, trechos da rodovia onde existe maior concentração de atropelamentos.
O novo estudo indica que esses critérios podem ser insuficientes quando utilizados isoladamente.
Animais generalistas também circulam intensamente em paisagens agrícolas e de pastagem, o que significa que áreas distantes de grandes fragmentos florestais podem igualmente necessitar de medidas de mitigação.
Passagem de fauna suspensa instalada sobre a rodovia Tamoios, na altura do município de Paraibuna (Crédito: Dersa)
Hot spots podem mudar ao longo do tempo
Outro problema é que os trechos com alta concentração de atropelamentos não são necessariamente permanentes.
Mudanças sazonais podem alterar o deslocamento dos animais.
Transformações no uso da terra, como substituição de pastagens por lavouras ou novos empreendimentos, também podem modificar as rotas utilizadas pela fauna.
Assim, um trecho considerado prioritário em determinado momento pode deixar de concentrar ocorrências no futuro, enquanto outras áreas passam a apresentar maior risco.
Segundo o estudo, políticas de conservação podem precisar avançar para critérios que considerem uma quantidade mínima de passagens por quilômetro, além das características específicas da paisagem.
Graxaim-do-mato caminha por passagem subterrânea instalada na BR-285, rodovia que liga Rio Grande do Sul a Santa Catarina (Crédito: Ibama)
Estruturas também enfrentam problemas de manutenção
A instalação de passagens não encerra os desafios relacionados à proteção da fauna.
As cercas diretrizes utilizadas para conduzir os animais até essas estruturas podem ser alvo de furtos.
Como frequentemente são instaladas a alguns metros do acostamento e em trechos com vegetação, seu monitoramento pode ser difícil.
Quando as cercas são removidas, o investimento realizado é perdido e a própria passagem de fauna pode perder parte de sua efetividade, já que os animais voltam a ter acesso direto à pista.
O problema demonstra que a gestão das rodovias envolve também questões sociais e de fiscalização.
Conservação depende de diferentes setores
Os pesquisadores defendem que reduzir os atropelamentos exige articulação entre concessionárias, governos municipais e proprietários rurais.
Decisões tomadas fora dos limites da rodovia também alteram o comportamento dos animais.
Mudanças no uso do solo, abertura de empreendimentos, manutenção de fragmentos florestais e criação de corredores ecológicos podem modificar as rotas utilizadas pela fauna.
Por isso, o planejamento das medidas de segurança precisa considerar a paisagem como um sistema integrado.
Onça-pintada utiliza passagem de fauna instalada sob rodovia que corta o Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio, SP. (Crédito: Governo de São Paulo)
Rodovias fragmentam habitats
As estradas cumprem funções essenciais para a mobilidade e a economia, mas também provocam impactos ambientais.
Além da mortalidade direta causada pelas colisões, podem criar barreiras entre populações de animais que antes ocupavam uma área contínua.
Mesmo quando existem fragmentos de vegetação nos dois lados de uma rodovia, o tráfego intenso pode impedir que parte das espécies atravesse com segurança.
Isso reduz a conectividade da paisagem e pode dificultar a movimentação para alimentação, reprodução e busca por novos territórios.
Passagens de fauna associadas a cercas adequadas podem minimizar esse problema, desde que instaladas em locais compatíveis com os padrões de deslocamento dos animais.
Uma abordagem adaptada a cada paisagem
O estudo reforça que não existe uma única configuração de infraestrutura capaz de resolver todos os problemas de atropelamento.
Trechos cercados por florestas possuem características diferentes daqueles localizados em áreas dominadas por agricultura, pastagens ou ocupação urbana.
Da mesma forma, as espécies que circulam em cada região possuem hábitos e necessidades distintas.
Ao incluir as características de uso e ocupação da terra no planejamento das rodovias, torna-se possível identificar com maior precisão onde os animais estão mais expostos e quais medidas podem ser mais eficientes.
A proteção da fauna nas estradas, portanto, precisa ir além da identificação de fragmentos florestais e pontos históricos de atropelamento.
Compreender a paisagem ao redor das vias pode ajudar a tornar as passagens de fauna mais eficientes, reduzir a mortalidade de espécies ameaçadas e, ao mesmo tempo, aumentar a segurança de quem circula pelas rodovias.
O estudo foi publicado na revista científica Wild.
Fonte: Jornal da Unesp.
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