Parque Nacional do Iguaçu abriga cerca de 40 espécies de morcegos; pesquisadores ampliam o conhecimento sobre esses animais e aproximam a população de sua conservação
Associados a histórias de vampiros, doenças e criaturas assustadoras, os morcegos ainda despertam medo e desconfiança. Assim como o lobo retratado como vilão nos contos infantis e o gato preto historicamente associado ao azar e à bruxaria, esses animais também carregam estigmas construídos ao longo do tempo por histórias, crenças e representações populares. Por trás dessas imagens, porém, existe uma realidade muito diferente: os morcegos desempenham funções fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas. Polinizadores, dispersores de sementes e predadores de insetos, esses mamíferos contribuem para a regeneração e a manutenção das florestas, além de exercerem um papel importante em processos relacionados à agricultura e à saúde humana.
Apesar de sua relevância ambiental, os morcegos ainda são pouco conhecidos pela população e por isso, pesquisadores têm buscado compreender melhor a diversidade desses animais, seus hábitos e sua relação com o ambiente. No Parque Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná, estudos realizados por diferentes pesquisadores vêm ampliando o conhecimento sobre a fauna local, utilizando métodos que vão desde a análise de sons até investigações genéticas.
Parte desses trabalhos foi apresentada durante o II Seminário do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) Iguaçu, que reuniu especialistas para compartilhar resultados e discutir a biodiversidade. Em entrevista à Florestal Brasil, pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá falaram sobre suas descobertas e a importância de tornar o conhecimento científico mais acessível para fortalecer a conservação da espécie.

Pesquisadores Marco Paganini, Henrique Ortêncio, Ana Laura e Luis Guilherme durante exposição no II Seminário do PELD Iguaçu (da esquerda para a direita). Foto: Kamilla Cunha/Florestal Brasil
Muito além dos mitos: o papel dos morcegos na natureza
Os morcegos pertencem à ordem Chiroptera e representam um grupo de mamíferos com grande diversidade de espécies e hábitos alimentares. Embora sejam frequentemente associados aos animais que se alimentam de sangue, a maior parte das espécies possui outras fontes de alimento e desempenha diferentes funções ecológicas.
Entre essas funções estão a polinização de plantas, a dispersão de sementes e o controle de populações de insetos. Ao se alimentarem de frutos, por exemplo, algumas espécies transportam sementes para outros locais, contribuindo para a regeneração de áreas florestais. Já os morcegos que consomem néctar podem transportar pólen entre flores, participando da reprodução de diferentes espécies vegetais.

Exposição do GEEMEA apresentou a diversidade de morcegos do Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Kamilla Cunha/Florestal Brasil
Os insetívoros, por sua vez, ajudam a controlar populações de insetos, incluindo aqueles que podem causar prejuízos à agricultura. Essa diversidade de funções faz com que os morcegos tenham participação importante no funcionamento dos ecossistemas.
O professor Henrique Ortêncio Filho, docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e coordenador do Grupo de Estudos em Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (GEEMEA), ressalta que ainda existe uma distância entre o papel ecológico desses animais e a maneira como são percebidos pela sociedade.
“Lamentavelmente, as pessoas sempre associam os morcegos aos mitos, às lendas, às histórias envolvendo doenças, vampiros, etc. E não sabem que esses animais são essenciais para a natureza e até mesmo para os seres humanos”, explica.
O pesquisador destaca que a contribuição dos morcegos também pode ser percebida em atividades humanas, especialmente na agricultura. Ao consumir grandes quantidades de insetos, algumas espécies ajudam a regular populações desses animais, o que pode reduzir a pressão sobre determinadas culturas agrícolas.
“O que eles fazem? Polinização, dispersão de sementes, predam insetos, uma quantidade enorme de insetos e de outros pequenos animais. Ou seja, eles têm envolvimento direto com a agricultura, com a saúde, porque ter morcego no ambiente representa usar menos veneno na agricultura. Usar menos veneno representa melhorar a saúde das pessoas”, afirma Henrique.
A diversidade alimentar dos morcegos também chama atenção. No Parque Nacional do Iguaçu, segundo o pesquisador, já foram registradas cerca de 40 espécies. A maioria é formada por morcegos insetívoros, seguida por espécies frugívoras, que se alimentam de frutos. Também existem espécies nectarívoras, carnívoras, piscívoras e hematófagas, além de outras que consomem pequenos animais.

Exposição do GEEMEA apresentou a diversidade de morcegos do Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Kamilla Cunha/Florestal Brasil
Escutar para descobrir: a bioacústica revela morcegos que escapam das redes
Conhecer a diversidade de morcegos de uma área exige métodos de pesquisa capazes de alcançar espécies com comportamentos diferentes. Uma das técnicas tradicionalmente utilizadas é a captura por redes de neblina, estruturas de malha fina instaladas em locais de passagem dos animais. Entretanto, esse método não é suficiente para registrar todos os grupos.
Alguns morcegos conseguem detectar as redes e evitá-las, o que dificulta sua captura. É nesse contexto que a bioacústica se torna uma ferramenta importante para os pesquisadores.
O método consiste na gravação dos sons emitidos pelos animais. No caso dos morcegos, os registros permitem analisar os chamados de ecolocalização, utilizados por eles para se orientar e localizar obstáculos e presas. Com o auxílio de programas específicos, os sons são filtrados e transformados em representações visuais, chamadas espectrogramas. A partir dos padrões observados, os pesquisadores podem identificar diferentes espécies.
A pesquisadora Ana Laura, que também desenvolve estudos de bioacústica no Parque Nacional do Iguaçu, explica que a técnica complementa os métodos tradicionais de captura e permite investigar animais que poderiam passar despercebidos.
“A bioacústica é um método muito importante para estudar os morcegos, porque tem morcegos que a gente não consegue capturar com as redes de neblina, que é um método muito tradicional para o estudo de quirópteros”, explica.
Segundo ela, o método é especialmente relevante para o estudo de morcegos insetívoros e frugívoros, que podem perceber a presença das redes e evitar a captura.
“Esse método é especialmente importante para os morcegos insetívoros e também para o morcego frugívoro, porque eles são animais que detectam a rede muito mais facilmente e acabam não caindo nela. A gente está aqui fazendo a parte de bioacústica também do Parque Nacional do Iguaçu e, até o momento, conseguimos registrar oito espécies, sendo que cinco são registros novos para o parque”, afirma.
Esses resultados mostram como a combinação de diferentes técnicas pode revelar uma diversidade que nem sempre é identificada em levantamentos tradicionais. Mais do que registrar a presença dos animais, a bioacústica permite investigar espécies que apresentam comportamentos específicos e ajudam a compreender melhor a composição da fauna local.

Pesquisadora Ana Laura mostra réplica de morcego. Foto: Kamilla Cunha/Florestal Brasil
Da vigilância da raiva à genética: o que os morcegos revelam sobre a Mata Atlântica
Outra frente de pesquisa utiliza exemplares encaminhados ao Laboratório Central do Estado do Paraná (LACEN) para exames relacionados à raiva. O material, inicialmente coletado dentro dos procedimentos de vigilância em saúde, também pode contribuir para estudos sobre diversidade e genética das populações de morcegos.
O pesquisador Marco Paganini trabalha com esses animais após a realização dos exames laboratoriais. Quando um morcego é encontrado em uma residência ou em outra situação que exige investigação, as equipes municipais de vigilância de zoonoses podem encaminhá-lo ao laboratório para análise. Os exemplares com resultado negativo para raiva são posteriormente destinados à identificação taxonômica e a pesquisas científicas, conforme os protocolos institucionais.
A partir desse material, Marco desenvolve um estudo voltado especificamente à espécie Molossus molossus. O objetivo é investigar se a fragmentação da Mata Atlântica no Paraná está afetando a genética das populações e o fluxo gênico entre diferentes áreas.
A fragmentação acontece quando grandes áreas contínuas de vegetação são divididas em fragmentos menores, muitas vezes separados por cidades, estradas, propriedades rurais ou outras intervenções humanas. Essa divisão pode dificultar o deslocamento de animais entre áreas e, consequentemente, reduzir o contato reprodutivo entre populações. Ao analisar diferenças genéticas entre os indivíduos encontrados em diferentes regiões, o pesquisador busca compreender se essas alterações na paisagem estão interferindo na conectividade das populações de Molossus molossus.
“Eu estou investigando os efeitos da fragmentação da Mata Atlântica no nosso estado na genética das populações desses animais. Então eu verifico se a fragmentação está afetando a genética, o fluxo gênico desses animais, analisando as diferenças entre as populações do nosso estado”, explica.

Morcego da espécie Molossus molossus, objeto de estudo do pesquisador Marco Paganini, que investiga os efeitos da fragmentação da Mata Atlântica sobre a genética e o fluxo gênico das populações. Foto: RD Lord
Além da investigação genética, os exemplares recebidos também contribuem para ampliar os inventários de morcegos do Paraná. Como o material reúne animais provenientes de diferentes municípios, sua identificação pode acrescentar informações sobre a distribuição das espécies no estado. Marco também relatou que o trabalho contribuiu para aumentar em dez o número de registros de morcegos no Parque Nacional do Iguaçu. A informação reforça o potencial dos materiais encaminhados para vigilância sanitária como fonte complementar de dados para pesquisas sobre biodiversidade.
Assim, uma atividade inicialmente relacionada ao monitoramento de saúde pública pode também gerar informações importantes para a conservação, desde que os procedimentos de coleta, identificação e pesquisa sejam realizados de maneira adequada.
Noite dos Morcegos: aproximar a população também é conservar
A produção de conhecimento científico é uma parte importante da conservação, mas não é a única. Para que os resultados das pesquisas contribuam efetivamente para a proteção da biodiversidade, também é necessário aproximar a população desses animais, esclarecer dúvidas e enfrentar informações equivocadas.
É a partir dessa perspectiva que o Grupo de Estudos em Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (GEEMEA), da Universidade Estadual de Maringá, desenvolve a Noite dos Morcegos. Criada em 2015, no Parque Municipal do Ingá, em Maringá, a iniciativa utiliza atividades noturnas para apresentar ao público os hábitos, a diversidade e a importância ecológica desses mamíferos.

Atividade Noite dos Morcegos, iniciativa de educação ambiental que aproxima a população desses animais por meio de experiências e atividades educativas, promovendo o conhecimento sobre sua importância ecológica e sua conservação. Foto: GEEMEA/Instagram
A proposta é proporcionar uma experiência diferente de contato com a natureza. Durante trilhas noturnas guiadas, os participantes conhecem o ambiente em um período em que os morcegos estão mais ativos e recebem explicações de pesquisadores, estudantes e monitores sobre a biologia desses animais, sua alimentação, seu comportamento e sua relação com os seres humanos.
A atividade também busca transformar o conhecimento científico em uma linguagem acessível. Em vez de apresentar os morcegos apenas como animais associados a doenças ou histórias assustadoras, o projeto mostra a variedade de espécies e funções ecológicas que existem dentro desse grupo.
A importância da iniciativa também foi investigada pelos próprios pesquisadores. Um estudo publicado em 2022 na revista Insignare Scientia, assinado por Bianca Regina Silva Manin, Thais Martinez Rodrigues Jorge e Henrique Ortêncio Filho, analisou as percepções de participantes da Noite dos Morcegos. O trabalho aponta o potencial de atividades de educação ambiental em espaços não formais para ampliar o conhecimento sobre esses animais e sensibilizar a população para sua conservação.

Atividade Noite dos Morcegos, iniciativa de educação ambiental que aproxima a população desses animais por meio de experiências e atividades educativas, promovendo o conhecimento sobre sua importância ecológica e sua conservação. Foto: GEEMEA/Instagram

Mais do que apresentar curiosidades, a iniciativa procura modificar a maneira como as pessoas compreendem e se relacionam com a fauna silvestre. Ao proporcionar contato com a natureza e informações científicas, a educação ambiental ajuda a combater preconceitos e pode estimular atitudes mais responsáveis diante dos animais.
Para Henrique, a pesquisa e a educação ambiental precisam caminhar juntas. “Por isso que a gente faz as pesquisas no campo da ecologia e também na educação ambiental, para poder desmistificar e aproximar, de um jeito positivo, a comunidade desses animais que são, sem sombra de dúvidas, extraordinários e essenciais à natureza.”

Professor Henrique Ortêncio durante ação da Noite do Morcegos, em Maringá. Foto: GEEMEA/Instagram
Ao mesmo tempo, iniciativas como a Noite dos Morcegos mostram que a conservação também depende da participação da sociedade. Conhecer esses animais, compreender suas funções ecológicas e abandonar percepções baseadas apenas em mitos são passos importantes para reconhecer seu valor na natureza. Entre sons que ajudam a identificar espécies, análises genéticas que investigam os efeitos da fragmentação florestal e atividades que aproximam pesquisadores e comunidade, a ciência revela um universo de morcegos muito mais diverso e complexo do que a imagem popular costuma pensar.
O artigo científico citado nesta matéria, intitulado “As representações sociais sobre morcegos: educação ambiental não formal continuada e popularização da ciência”, publicado em 2022 na revista Insignare Scientia, está disponível em (PDF) As Representações sociais sobre morcegos: educação ambiental não formal continuada e popularização da ciência
Você pode conhecer mais sobre o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores nas redes sociais @geemea.uem
WhatsApp
Comentários (0)
Você precisa estar cadastrado e logado para poder comentar.
Fazer Login / Cadastrar-seNenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!