Nem os solos mais preservados da Antártica escaparam dos nanoplásticos, mostra estudo
A Antártica ocupa um lugar singular no planeta, coberta quase inteiramente por gelo e marcada por algumas das condições ambientais mais extremas da Terra, evidências de poluição por plástico vêm sendo registradas nos últimos anos em diferentes ecossistemas do continente, como neve, geleiras, gelo marinho, águas doces e sedimentos. Agora, um novo estudo acrescenta mais uma peça a esse cenário: pela primeira vez, pesquisadores identificaram nanoplásticos no solo antártico.

A descoberta foi feita nos Vales Secos de McMurdo, a maior região livre de gelo da Antártica, e representa o primeiro registro desse tipo de contaminação em solos do continente. Segundo os autores, os resultados mostram que nem mesmo os solos de um dos ambientes mais preservados da Terra estão livres da contaminação por plástico e fornecem uma importante linha de base para futuras avaliações da poluição em regiões remotas.
Até então, a maior parte das pesquisas realizadas na Antártica concentrava-se em macroplásticos e microplásticos. Os nanoplásticos, partículas menores que um micrômetro de diâmetro, permaneciam pouco estudados, principalmente pelas dificuldades técnicas para detectá-los em concentrações extremamente baixas. Essa lacuna motivou o novo trabalho.
Em busca de partículas invisíveis
Os Vales Secos de McMurdo foram escolhidos por reunirem características únicas. Localizada no sul da Antártica, a região é considerada a maior área livre de gelo do continente e apresenta temperaturas médias anuais entre -18 °C e -28 °C, baixa precipitação, solos extremamente secos e reduzido teor de matéria orgânica. Essas condições fazem do local um importante ambiente para estudos sobre processos ambientais e deposição de contaminantes.

As amostras de solo foram coletadas entre 8 e 28 de janeiro de 2023 em diferentes pontos da região. Para analisar o material, os pesquisadores aplicaram um protocolo desenvolvido para extrair nanoplásticos do solo e identificá-los por meio da técnica de espectrometria de massa por dessorção térmica com ionização por transferência de prótons (TD-PTR-MS). Segundo o estudo, trata-se da primeira aplicação desse protocolo para investigar nanoplásticos em solos da Antártica.
Ao contrário dos microplásticos, os nanoplásticos possuem dimensões inferiores a um micrômetro. O estudo destaca que essas partículas apresentam maior área superficial em relação ao volume, maior mobilidade no ambiente e maior capacidade de adsorver contaminantes, características que aumentam seu potencial de interação com organismos vivos e sua relevância ambiental.
As análises revelaram nanoplásticos em 54% das amostras de solo superficial e em 50% das amostras de camadas mais profundas, com concentrações que chegaram a 295 nanogramas por grama de solo.
O que os pesquisadores encontraram
Foram identificados seis tipos de nanoplásticos: polipropileno (PP), polietileno (PE), polietileno tereftalato (PET), poliestireno (PS), policloreto de vinila (PVC) e partículas provenientes do desgaste de pneus (TWP). Entre eles, o polipropileno foi o polímero mais abundante, respondendo por cerca de 40% da massa total encontrada nas amostras. O artigo destaca que esse é um dos plásticos mais produzidos no mundo e amplamente utilizado em embalagens, utensílios domésticos, componentes automotivos e produtos têxteis.
Os pesquisadores também observaram que os locais onde os nanoplásticos foram detectados não coincidiram necessariamente com aqueles onde foram encontrados microplásticos maiores que 10 micrômetros. Segundo o estudo, esse resultado pode indicar que os nanoplásticos não se originam apenas da fragmentação local de partículas maiores. Os autores, entretanto, ressaltam que o número reduzido de amostras e a distribuição espacial desses materiais exigem cautela na interpretação desse padrão.
Outra observação importante foi a presença de nanoplásticos em algumas camadas mais profundas do solo. O estudo sugere que essas partículas podem migrar verticalmente ao longo do tempo, favorecidas por fatores como a infiltração da água proveniente do degelo e pelas características físicas dos solos dos Vales Secos, que apresentam textura grossa e baixo teor de carbono orgânico. Os autores destacam, porém, que esse processo ainda precisa ser melhor compreendido.
Possíveis origens da contaminação
Além de identificar os nanoplásticos, a pesquisa buscou compreender como essas partículas chegaram a uma das regiões mais isoladas do planeta.
Para isso, os pesquisadores utilizaram o modelo de dispersão atmosférica FLEXPART, que permitiu simular possíveis regiões de origem das partículas antes de sua deposição no solo antártico. Os resultados sugerem que os nanoplásticos podem ter tanto fontes locais quanto serem transportados por longas distâncias pela atmosfera.
Segundo o estudo, entre as possíveis fontes locais estão atividades desenvolvidas nas estações de pesquisa, no turismo e no uso de materiais plásticos presentes nessas estruturas. Já o modelo também aponta a contribuição do transporte atmosférico de longa distância, especialmente a partir do Oceano Austral, da Nova Zelândia e da extremidade sul da América do Sul em determinados períodos do ano.
Os autores ressaltam, entretanto, que essas simulações identificam potenciais regiões de origem e que ainda são necessários monitoramentos atmosféricos e medições sistemáticas para compreender a contribuição relativa de cada fonte.
O estudo também aponta que o derretimento do gelo marinho e das geleiras pode liberar partículas anteriormente retidas nessas superfícies, enquanto os ventos característicos da Antártica podem redistribuí-las após sua deposição.
O que a descoberta representa
Mais do que registrar a primeira ocorrência de nanoplásticos em solos antárticos, o estudo fornece uma linha de base para futuras pesquisas sobre a presença desses contaminantes em ambientes terrestres da Antártica. Segundo os autores, os resultados destacam a necessidade de investigar o transporte, o destino e os impactos ecológicos dos plásticos em regiões polares.
Os pesquisadores também observam que micro e nanoplásticos podem ser ingeridos por organismos que vivem no solo e entrar nas cadeias alimentares. O artigo ressalta que espécies de ecossistemas polares apresentam crescimento lento, metabolismo reduzido, baixa diferenciação genética e limitada capacidade de detoxificação, características que podem aumentar sua vulnerabilidade a estressores ambientais, embora os impactos dos micro e nanoplásticos nessas condições ainda sejam pouco compreendidos.
Ao concluir o trabalho, os autores defendem que fortalecer a cooperação internacional para reduzir a poluição por plásticos e aprimorar as práticas locais de gestão de resíduos será fundamental para proteger a integridade ecológica da Antártica e ampliar o conhecimento sobre a presença desses contaminantes em um dos ambientes mais preservados da Terra.
A descoberta citada na matéria pode ser acessada em: First evidence of nanoplastics in Antarctica soil
Acompanhe o trabalho da Florestal Brasil no instagram e ouça o nosso podcast Cerne do Assunto
WhatsApp
Comentários (0)
Você precisa estar cadastrado e logado para poder comentar.
Fazer Login / Cadastrar-seNenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!