Meio ambiente nas eleições de 2026: o que dizem os planos de seis candidatos à Presidência

Meio ambiente nas eleições de 2026: o que dizem os planos de seis candidatos à Presidência

Meio ambiente aparece de formas bastante diferentes nos planos de governo apresentados pelos candidatos à Presidência da República em 2026. Enquanto alguns documentos apresentam metas específicas para desmatamento e emissões, outros concentram suas propostas em mercado de carbono, bioeconomia, licenciamento ambiental, mineração ou uso de tecnologia.

Para permitir uma comparação mais objetiva, analisamos seis planos presidenciais a partir dos mesmos temas: desmatamento, florestas, mudanças climáticas, fiscalização ambiental, licenciamento, agropecuária, energia, mineração e conservação.

Em vez de classificar candidatos como “bons” ou “ruins” para o meio ambiente, o comparativo identifica o que efetivamente está escrito, onde existem metas verificáveis, quais propostas possuem pouco detalhamento e quais temas importantes ficaram ausentes.

Lula

O plano de Lula é o único dos seis que incorpora de maneira explícita a atual meta climática brasileira apresentada internacionalmente. O documento reafirma a NDC que prevê redução de 59% a 67% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em comparação com 2005, além de mencionar o Acordo de Paris, o Plano Clima e mecanismos de financiamento climático.

Nas florestas, a principal meta é atingir desmatamento líquido zero até 2030. O plano prevê continuidade dos planos de prevenção e controle do desmatamento, implementação do Manejo Integrado do Fogo, aplicação do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica, além da destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas, quilombolas e assentamentos. Também propõe estimular RPPNs e valorizar os parques nacionais.

Na agropecuária, aparecem recuperação de pastagens degradadas, sistemas agroflorestais, integração lavoura-pecuária-floresta e rastreabilidade individual do gado do nascimento ao abate. O plano também propõe mecanismos de rastreabilidade e devida diligência nas cadeias produtivas, utilizando monitoramento por satélite e inteligência artificial contra crimes ambientais.

O principal ponto de atenção está na energia. Ao mesmo tempo em que o documento prevê descarbonização, biocombustíveis, hidrogênio de baixa emissão e cumprimento da NDC, afirma que a Petrobras deverá continuar ampliando investimentos em exploração de petróleo onshore e offshore. O próprio plano tenta conciliar essas duas frentes por meio de uma transição energética gradual.

Entre as lacunas, várias propostas ambientais não recebem metas quantitativas próprias para 2027–2030. O documento não define, por exemplo, um número de hectares de restauração ou de novas áreas protegidas a ser alcançado no próximo mandato. Também não estabelece orçamento ambiental específico nem contratação de fiscais. Essa última lacuna, aliás, aparece nos seis planos comparados.

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro estabelece uma meta diferente da apresentada por Lula: zerar o desmatamento ilegal até 2029. Isso significa que a meta se concentra na supressão realizada fora da legislação, não na eliminação de todo o desmatamento.

O plano aposta fortemente em tecnologia para fiscalização, mencionando inteligência artificial, bancos de dados em tempo real, imagens de satélite e integração das bases fundiárias e ambientais. Grilagem, ocupação ilegal de terras públicas, garimpo ilegal e queimadas aparecem como alvos prioritários.

Na conservação, propõe consolidar o mercado regulado de carbono, ampliar Pagamentos por Serviços Ambientais e desenvolver bioeconomia a partir da biodiversidade. O produtor que mantém vegetação nativa, recupera áreas degradadas ou protege recursos hídricos seria remunerado por esses serviços.

Um dos pontos de atenção mais relevantes está no licenciamento. O plano determina que os órgãos ambientais tenham prazo para analisar processos e afirma que, caso o órgão não decida nem se manifeste dentro desse período, a licença deve ser concedida. O documento também propõe eliminar o que chama de superposições entre Ibama, Funai e ICMBio, embora não detalhe exatamente quais atribuições seriam alteradas.

Na energia, aparecem renováveis, biocombustíveis e biogás, mas também expansão do petróleo e do gás. Há ainda uma proposta explícita de permitir a exploração de gás não convencional por fracking, observando a legislação e, segundo o plano, critérios de responsabilidade ambiental.

A principal lacuna climática é a ausência de uma meta nacional de redução de emissões equivalente à NDC ou de uma estratégia explicitamente vinculada ao Acordo de Paris. O relatório do Instituto Aimara encontrou apenas um dos 15 termos usados por ele para identificar compromissos climáticos no documento.

Augusto Cury

Augusto Cury apresenta o maior documento entre os seis, com 200 páginas, e distribui a agenda ambiental principalmente entre os projetos Floresta Viva, Energias Renováveis do Brasil e políticas relacionadas à bioeconomia.

O Floresta Viva é especialmente detalhado no combate aos incêndios. Prevê monitoramento por satélites e inteligência artificial, modelos para prever risco a partir de clima, vento e umidade, drones de resposta rápida, sensores em áreas críticas, brigadas e aeronaves integradas a uma estrutura nacional de comando.

O plano também propõe mercado de carbono, Pagamento por Serviços Ambientais, reflorestamento, agricultura regenerativa e remuneração aos produtores que preservam vegetação nativa. Para a Amazônia, apresenta iniciativas de bioeconomia e crédito ligadas a produtos florestais, pesca sustentável e turismo ecológico.

Na energia está uma das metas mais específicas do documento: alcançar 90% de matriz energética limpa até 2040. Cury também pretende colocar o Brasil entre os três maiores exportadores mundiais de hidrogênio verde até 2035.

No licenciamento, o plano prevê prazos máximos, digitalização, integração entre União, estados e municípios e análise diferenciada conforme o risco ambiental do empreendimento. Afirma simultaneamente que os parâmetros técnicos e a responsabilização por danos seriam mantidos.

O principal ponto pouco definido está no desmatamento. Apesar de tratar de floresta, incêndios e Amazônia, o documento não fixa uma meta quantitativa nacional de redução do desmatamento. Também dedica bastante espaço à expansão de minerais críticos e terras raras, mas apresenta menos detalhamento sobre salvaguardas ambientais específicas dessa expansão.

Na política climática internacional, o documento também é menos explícito: segundo a varredura do Instituto Aimara, apenas um dos 15 termos relacionados aos compromissos climáticos brasileiros aparece no plano.

Romeu Zema

O plano de Romeu Zema trata o meio ambiente principalmente como um ativo econômico, buscando combinar conservação, mercado de carbono, bioeconomia, turismo e atração de investimentos privados.

No combate ao desmatamento, prevê integração entre órgãos ambientais, forças de segurança e sistema de Justiça, utilizando monitoramento por satélite contra grilagem e desmatamento ilegal. Também afirma que o Código Florestal deve ser cumprido sem criação de novas restrições sem base técnica ou compensação.

Zema aposta significativamente no carbono. O plano pretende tornar o Brasil um grande fornecedor internacional de remoção de carbono, atraindo recursos para reflorestamento, sequestro de carbono no solo e outros projetos. Também propõe facilitar a comercialização voluntária de créditos brasileiros no exterior.

No licenciamento ambiental, pretende implementar integralmente a nova Lei Geral do Licenciamento, cumprir prazos e criar tramitação prioritária para projetos considerados de interesse nacional.

Um ponto de atenção é que o plano não estabelece uma meta nacional de redução do desmatamento com prazo, diferentemente dos documentos de Lula e Flávio Bolsonaro. Também não apresenta uma meta nacional de emissões nem faz referência aos principais compromissos climáticos internacionais brasileiros identificados pela metodologia do Instituto Aimara.

Na energia, a proposta combina biocombustíveis, hidrogênio e oportunidades associadas à matriz elétrica renovável com manutenção de leilões de petróleo e gás.

Ronaldo Caiado

O plano de Ronaldo Caiado possui um capítulo ambiental específico e organiza as propostas em ações e indicadores que poderiam ser acompanhados ao longo do mandato. Entre os temas estão licenciamento, Código Florestal, mercado de carbono, bioeconomia, fiscalização, incêndios, adaptação climática e segurança hídrica.

No licenciamento, propõe exigências proporcionais ao impacto, termos de referência padronizados e prazos públicos. Processos de baixo risco teriam procedimentos simplificados, enquanto empreendimentos complexos continuariam submetidos a equipes multidisciplinares.

Para o Código Florestal, propõe acelerar análise e validação do CAR, Programas de Regularização Ambiental e compensações de Reserva Legal. Também pretende utilizar crédito, assistência técnica, sementes, Pagamento por Serviços Ambientais e carbono para tornar a recuperação ambiental economicamente viável. 

No combate ao crime ambiental, o plano vai além do executor direto e propõe rastrear financiadores e compradores vinculados ao desmatamento, grilagem e produtos ilegais, com participação da fiscalização ambiental, segurança pública e inteligência financeira. Satélites, drones e inteligência artificial seriam usados para monitorar desmatamento, incêndios, mineração e uso da água.

Entre os pontos pouco definidos, não há uma meta nacional com percentual ou data para zerar ou reduzir o desmatamento. O documento propõe indicadores de acompanhamento por bioma, mas não estabelece previamente qual resultado deverá ser atingido em 2030. Também não fixa orçamento ambiental nem contratação de novos fiscais.

Renan Santos

O documento de Renan Santos possui uma característica bastante diferente dos demais: não há um capítulo próprio dedicado ao meio ambiente. As questões ambientais aparecem dentro das propostas de infraestrutura, energia, agricultura, mineração e desenvolvimento econômico.

No licenciamento, a proposta é implementar integralmente a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e utilizar de forma ampla a Licença Ambiental Especial para acelerar projetos considerados estratégicos. O plano também quer integrar os estudos econômicos e ambientais já na fase inicial dos projetos.

Na energia aparecem expansão da transmissão, retomada de Angra 3 e desenvolvimento do hidrogênio verde, inclusive na Bacia Amazônica. Na mineração, há uma aposta significativa em terras raras e minerais críticos, com simplificação do licenciamento e construção de cadeias nacionais de processamento e industrialização.

O plano também propõe criar um marco para mineração controlada em terras indígenas envolvendo reservas de fosfato e potássio, dentro da estratégia de reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados.

A principal lacuna documental está justamente na ausência de uma política ambiental estruturada no plano. Não há meta de redução do desmatamento, estratégia climática nacional ou compromisso explicitamente conectado à NDC ou ao Acordo de Paris. Na metodologia do Instituto Aimara, nenhum dos 15 termos usados para identificar adesão à agenda climática foi encontrado no documento.

Comparando os seis planos

As diferenças são claras, mas existem também lacunas comuns. Um relatório independente do Instituto Aimara constatou que nenhum dos seis planos informa quanto pretende gastar especificamente com meio ambiente, nenhum propõe contratação de fiscais ambientais e nenhum define qual sistema oficial será utilizado para verificar suas metas de desmatamento. O relatório também identificou ausência da Margem Equatorial e Foz do Amazonas nos seis documentos, apesar de quatro deles preverem ampliação da exploração de petróleo e gás.

Outro ponto pouco presente é a abordagem dos biomas além da Amazônia. Segundo a mesma análise, o Cerrado não é mencionado em cinco dos seis planos, apesar de ter registrado em 2025 uma área de perda de vegetação nativa superior à registrada na Amazônia nas estimativas citadas pelo relatório.

O que o eleitor consegue concluir a partir dos documentos?

Os planos revelam prioridades bastante diferentes, mas não permitem transformar a comparação em uma simples classificação de “melhor” ou “pior”. Lula concentra mais compromissos explicitamente vinculados à política climática nacional e internacional; Flávio Bolsonaro estabelece uma meta de desmatamento ilegal e enfatiza incentivos econômicos e tecnologia; Cury detalha prevenção de incêndios e estabelece uma meta energética; Zema concentra a agenda na valorização econômica dos ativos ambientais; Caiado estrutura instrumentos de gestão, regularização e monitoramento; e Renan Santos trata meio ambiente principalmente a partir das agendas de infraestrutura, mineração e energia.

O que também fica evidente é que nenhum dos documentos responde sozinho a todas as principais questões ambientais que o próximo governo terá de enfrentar. Metas sem orçamento, propostas de fiscalização sem dimensionamento de pessoal, expansão energética sem tratamento específico de algumas fronteiras petrolíferas e compromissos de conservação sem métricas de acompanhamento aparecem como limitações recorrentes dos planos apresentados.

Por isso, a leitura dos planos deve servir principalmente para identificar o compromisso formal assumido por cada candidatura. É esse documento que permite, posteriormente, comparar promessa e execução de políticas públicas.

Fontes e documentos consultados

Este comparativo foi elaborado a partir dos planos de governo oficialmente apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos seis candidatos analisados. Foram considerados apenas os compromissos registrados nos documentos, sem incorporar declarações de campanha, entrevistas ou propostas divulgadas posteriormente.

Planos oficiais no TSE:

Como fonte complementar, também foi consultado o levantamento do Instituto Aimara sobre meio ambiente e clima nas Eleições 2026, especialmente para comparar a presença ou ausência de temas comuns entre os diferentes programas.
Consultar o levantamento do Instituto Aimara

Assista à série completa no YouTube

O Florestal Brasil também está analisando individualmente os planos dos candidatos, com foco nas propostas para meio ambiente, florestas, clima, agropecuária, energia e mineração.

Assista à playlist “Planos Presidenciais 2026” no YouTube

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