A França também é amazônica: o que Brasil e Guiana Francesa podem aprender um com o outro sobre manejo florestal
Quando se fala em Amazônia, pensamos no Brasil, no Peru, na Colômbia. Dificilmente alguém pensa na França. Mas o território francês abriga cerca de 80 mil km² de floresta amazônica, que cobre aproximadamente 96% da Guiana Francesa, vizinha do Amapá.
Além de manter uma das porções mais preservadas da Amazônia, a Guiana Francesa tem um sistema de manejo florestal que chama atenção: as árvores são selecionadas, cortadas e comercializadas segundo um planejamento rigoroso, com ciclos de corte bem diferentes dos adotados no Brasil. Será que temos algo a aprender com os franceses sobre a nossa própria Amazônia? E será que o Brasil, com sua experiência e dimensão florestal, também tem algo a ensinar?
Neste artigo, explicamos a diferença entre manejo e desmatamento, comparamos os dois modelos e mostramos o que a ciência e o mercado europeu estão mudando no setor.
Manejo não é desmatamento
No desmatamento, a floresta é removida por completo para dar lugar a pastagens ou lavouras. No manejo florestal, apenas algumas árvores por hectare são retiradas, e a área só volta a ser explorada após um longo período de recuperação, o chamado ciclo de corte.
A base do bom manejo é a exploração de impacto reduzido: cada árvore é inventariada e mapeada, estradas e trilhas de arraste são planejadas antes do corte, a queda é direcionada para poupar as árvores vizinhas e os indivíduos jovens, que formarão a próxima colheita, são protegidos.
O grande desafio é a ilegalidade. Segundo a Rede Simex, cerca de 27% da exploração madeireira mapeada na Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022 foi ilegal, ou seja, não foi feita por meio de manejo florestal sustentável. No Amazonas, o Imazon identificou 62% de exploração ilegal entre agosto de 2023 e julho de 2024. Além do dano ambiental, a madeira ilegal reduz preços, compete de forma desleal com quem trabalha dentro da lei e coloca em xeque a credibilidade de todo o setor florestal.
O modelo da Guiana Francesa
O Office National des Forêts (ONF), serviço florestal nacional da França, administra cerca de 6 milhões de hectares de floresta na Guiana. Desse total, 2,4 milhões de hectares formam o domínio florestal permanente, certificado pelo PEFC desde 2012.
Com uma metodologia parecida com a brasileira, o modelo é de baixa intensidade: são retiradas de 4 a 5 árvores por hectare, o equivalente a cerca de 25 m³ de madeira, e só podem ser cortadas árvores com pelo menos 55 cm de diâmetro, como regra geral. O planejamento usa dados de LiDAR para traçar estradas, as árvores são georreferenciadas uma a uma e as máquinas circulam em apenas 10% a 20% da área explorada.

O modelo brasileiro
No Brasil, a Lei de Gestão de Florestas Públicas, de 2006, permitiu que florestas públicas fossem manejadas por empresas por meio de concessões. A primeira foi assinada em 2008, na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia.
Segundo o Serviço Florestal Brasileiro, em dezembro de 2025 havia 24 contratos de concessão, somando cerca de 1,33 milhão de hectares. Entre 2011 e 2024, as concessões produziram 2,8 milhões de m³ de madeira e geraram R$ 235,2 milhões em receita pública. Em 2023, foram 1.616 empregos diretos. O impacto positivo também aparece na conservação: um estudo citado pelo Serviço Florestal Brasileiro indica que, embora as concessões representem cerca de 35% do território analisado, cerca de 92% do desmatamento ocorre fora delas.
O Brasil também se destaca no manejo comunitário. Na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, a Cooperativa Mista da Flona do Tapajós (Coomflona) reúne mais de 210 cooperados de 12 comunidades e, em 2013, recebeu a certificação FSC na modalidade 100% comunitária.
A cooperação francesa também já chegou ao lado brasileiro da fronteira. Desde 2012, a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) financia, com € 5,45 milhões, um projeto no Amapá conduzido com o governo do estado, a Conservation International e o Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM), voltado a fortalecer a gestão da biodiversidade e uma cadeia florestal de baixo impacto, incluindo as concessões, e a combater a exploração ilegal.
O que a ciência diz
Perto de Kourou, na Guiana Francesa, o Cirad mantém desde 1982 a estação de Paracou, um dos maiores experimentos de perturbação florestal da Amazônia: são 125 hectares em 16 parcelas permanentes, com mais de 70 mil árvores de mais de 700 espécies monitoradas. Um estudo conduzido na estação por pesquisadores do CNRS, do Museu Nacional de História Natural da França e do Cirad concluiu que ciclos de 30 anos provavelmente não são sustentáveis e que o ideal seria um intervalo de pelo menos 50 anos entre colheitas.
O Cirad também coordena o Observatório de Florestas Tropicais Manejadas (TmFO), rede de 30 áreas experimentais em 12 países, 17 delas na Amazônia, incluindo Brasil e Guiana Francesa, e mantém há mais de 40 anos uma parceria com a Embrapa em projetos de manejo florestal, restauração e bioeconomia. Em 2019, um estudo da rede concluiu que, na Amazônia, “os cenários leves não fornecem madeira suficiente e os cenários intensos não são sustentáveis”, pois não permitem a recuperação do volume de madeira dentro do ciclo de corte.
A diferença mais marcante: o tempo
Com base nessas pesquisas, a Guiana Francesa definiu que, depois de uma exploração, a mesma área só volta a ser explorada 65 anos depois. É mais do que os 50 anos recomendados pelos pesquisadores de Paracou e chega ao dobro dos ciclos de 25 a 35 anos permitidos no Brasil.
Na prática, o engenheiro florestal que marca uma árvore para corte hoje provavelmente não estará mais trabalhando quando a próxima colheita chegar. Ele trabalha para uma floresta que outra geração vai colher. É um convite a pensar a floresta no tempo dela, e não no nosso.
E tempo é justamente o que está ficando escasso. As mudanças climáticas, com secas e incêndios mais frequentes, aumentam a mortalidade das árvores grandes, de espécies que demoram mais para crescer, exatamente as mais procuradas pelo mercado.
A nova regra europeia
A partir de 30 de dezembro de 2026, o Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) passa a valer e, no caso da madeira, se aplica a empresas de todos os portes. Quem exportar para o bloco precisará comprovar a legalidade e a origem livre de desmatamento, com a localização da área de produção.
Para o produtor ilegal, a regra fecha uma porta. Para quem pratica o manejo dentro da lei, ela pode abrir mercado, e a certificação e a rastreabilidade deixam de ser detalhe para virar vantagem competitiva.
Os limites do manejo
Seja com ciclos de 25, 35 ou 65 anos, o manejo florestal não é uma solução mágica. Se a floresta se recupera mais devagar do que as regras supõem, os parâmetros atuais precisam ser revistos com base em dados científicos. O modelo da Guiana Francesa, com pouca população, baixa pressão do agronegócio e uma única gestora pública, também não pode ser simplesmente transposto para a Amazônia brasileira.
Além disso, a madeira ilegal muitas vezes é “esquentada” com documentos fraudados. Sem fiscalização e transparência nos dados de origem, nenhum selo resolve isso sozinho.
Por fim, a regra europeia já foi adiada mais de uma vez, e cumprir suas exigências tem custo elevado, principalmente para pequenos produtores e comunidades. Os programas europeus de apoio à rastreabilidade ainda se concentram mais em soja e pecuária do que na madeira nativa. Para que o manejo sustentável avance, o produtor precisa sentir o retorno da sustentabilidade no bolso, e não enxergá-la apenas como um fardo ou uma obrigação.
Brasil e França compartilham a Amazônia e oferecem modelos de manejo diferentes e complementares. A Guiana Francesa mostra o valor de pensar a floresta em ciclos longos, guiados pela ciência. O Brasil mostra que é possível manejar em grande escala, com concessões e comunidades gerando renda e protegendo a floresta. Uma floresta que gera renda legal tem mais valor em pé, e os dois lados da fronteira têm algo a aprender um com o outro.
Fontes:
• ONF, principais regras de manejo sustentável na Guiana: https://www.onf.fr/vivre-la-foret/+/1e70::les-principales-regles-pour-une-gestion-durable.html
• ONF International, gestão das florestas da Guiana: https://www.onf.fr/%2B/502::onf-international-accompagner-les-populations-damerique-du-sud-dans-la-gestion-durable-de-leurs-forets.html
• PEFC France, gestão sustentável das florestas da Guiana Francesa: https://www.pefc-france.org/la-gestion-durable-des-forets-de-guyane-francaise/
• PEFC, exigências de gestão florestal sustentável para a Guiana Francesa (2025): https://www.pefc-france.org/wp-content/uploads/PEFC_FR-ST-1003-2_2025_Gestion-forestiere-durable-Exigences-pour-la-Guyane-Francaise.pdf
• ONF, Guia de silvicultura para a produção de madeira na Guiana (2016): https://www.onf.fr/vivre-la-foret/+/1d9e::guide-de-sylviculture-pour-la-production-de-bois-doeuvre-des-forets-de-la-guyane.html
• AFD, projeto de manejo florestal sustentável no Amapá: https://www.afd.fr/fr/projets/preserver-la-biodiversite-et-le-climat-une-gestion-durable-de-la-foret-dans-letat-de-lamapa
• Cirad, estação de pesquisa de Paracou: https://paracou.cirad.fr/website/station/overview
• Reporterre, estudo de Paracou sobre ciclos de corte: https://reporterre.net/L-exploitation-de-la-foret-tropicale-n-est-ecologique-qu-a-petite-echelle
• Cirad, rede TmFO e territórios amazônicos (2023): https://www.cirad.fr/espace-presse/communiques-de-presse/2023/amazonie-developper-les-territoires-entre-conservation-des-forets-et-bonnes-pratiques-agricoles
• Cirad, 40 anos de parceria Cirad–Embrapa: https://www.cirad.fr/les-actualites-du-cirad/actualites/2024/40-ans-de-partenariat-cirad-embrapa-elisabeth-claverie-silvia-massruha
• Cirad, “Selective logging will not be enough to sustain timber production in Amazonia” (2019): https://www.cirad.fr/en/press-area/press-releases/2019/selective-logging-not-enough-to-sustain-timber-production-in-amazonia
• SNIF/Serviço Florestal Brasileiro, boletim de concessões florestais 2025: https://snif.florestal.gov.br/images/pdf/publicacoes/Boletim_SNIF_2025_Concessoes.pdf
• Imaflora, quase 30% da exploração de madeira na Amazônia é ilegal (2023): https://imaflora.org/noticias/cop28-quase-30-da-exploracao-de-madeira-na-amazonia-e-ilegal
• O Povo, 62% da exploração madeireira no Amazonas é ilegal (Imazon, 2025): https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2025/12/05/no-amazonas-62-da-exploracao-madeireira-e-feita-ilegalmente.html
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