Macacos-prego caçam mais vertebrados quando frutas ficam escassas, revela estudo
Lagartos, cobras, aves, morcegos, roedores e até gambás podem entrar no cardápio dos macacos-prego quando a disponibilidade de frutos diminui.
Essa relação foi identificada por pesquisadores que acompanharam grupos de macacos-prego na Fazenda Boa Vista, no sul do Piauí, durante 45 meses.
O estudo registrou centenas de episódios de consumo de pequenos vertebrados e mostrou que a caça não é apenas um comportamento ocasional desses primatas.
Ela faz parte de sua estratégia alimentar e se torna mais frequente em períodos nos quais alguns dos principais recursos vegetais ficam menos disponíveis.
Os resultados foram publicados na revista científica PLOS One e também ajudam pesquisadores a discutir como comportamentos predatórios podem ter surgido ao longo da evolução dos primatas, incluindo os ancestrais humanos.
Mais de 5 mil horas acompanhando macacos-prego
A pesquisa exigiu acompanhamento prolongado dos animais em ambiente natural.
Os grupos foram observados do amanhecer ao anoitecer, totalizando 5.093 horas de acompanhamento.
Nesse período, os pesquisadores registraram 446 episódios de consumo de vertebrados, incluindo situações em que a alimentação já estava ocorrendo ou estava prestes a começar.
O grande número de registros permitiu procurar padrões que dificilmente apareceriam em estudos baseados em poucos encontros ocasionais.
Os cientistas registraram qual indivíduo capturava a presa, o tipo de animal consumido e características como sexo e idade do macaco.
Macaco-prego come muito mais do que frutas
Os macacos-prego possuem uma dieta bastante variada.
Eles consomem frutos, folhas, flores, invertebrados e vertebrados.
No caso dos animais capturados durante o estudo, a lista incluiu diferentes grupos.
Foram observados:
- lagartos;
- cobras;
- aves;
- ovos e filhotes de aves;
- roedores;
- morcegos;
- e marsupiais, incluindo gambás.
- Essa diversidade mostra que os macacos-prego não dependem de um único tipo de presa.
Eles são animais onívoros capazes de explorar diferentes recursos conforme as oportunidades oferecidas pelo ambiente.
Macacos-prego são onívoros e conseguem capturar desde insetos até pequenos vertebrados - Foto: Luciano Candisani / Acervo Pessoal
Frutas escassas, mais carne
Um dos principais resultados foi a relação entre a oferta de frutos e a frequência de consumo de vertebrados.
Quando havia menos frutos disponíveis, os macacos caçavam mais.
Por outro lado, a quantidade de insetos disponível não apresentou relação significativa com a frequência de predação observada.
Isso sugere que pequenos vertebrados podem funcionar como uma alternativa importante diante da redução de determinados alimentos vegetais.
Na Fazenda Boa Vista, essa variação pode ser observada de maneira particularmente clara pela disponibilidade dos frutos de palmeiras.
Coco ajuda a explicar a mudança de dieta
Os macacos-prego estudados consomem cocos de palmeiras encontrados na região.
Esses frutos são abundantes durante a estação seca.
Entre dezembro e fevereiro, período de maior ocorrência de chuvas, a disponibilidade dos cocos diminui.
Foi justamente nessa época que os pesquisadores observaram aumento no consumo de vertebrados.
A relação indica que a carne pode assumir maior importância quando determinados recursos vegetais se tornam escassos.
Isso não significa que os macacos deixem completamente de consumir frutos.
A dieta é ajustada de acordo com aquilo que está disponível no ambiente.
Carne fornece proteína e gordura
O consumo de vertebrados oferece nutrientes importantes.
A carne representa uma fonte de proteínas e gorduras.
Os pesquisadores também observaram que determinadas partes das presas costumam ser consumidas antes das demais.
Cérebro e vísceras estão entre as estruturas priorizadas.
Uma das possíveis explicações está no elevado valor energético e nutricional desses tecidos.
O cérebro possui grande quantidade de lipídios.
Vísceras também são macias, relativamente fáceis de consumir e apresentam alta concentração de nutrientes.
Para o animal, começar por essas partes pode representar uma maneira eficiente de obter energia antes de investir tempo na retirada e consumo de outras partes da presa.
A caça ocorre principalmente de maneira individual
Apesar de os macacos-prego viverem em grupos sociais, a captura das presas observada no estudo ocorreu predominantemente de forma individual.
Os pesquisadores não identificaram cooperação organizada entre vários indivíduos para perseguir ou capturar a mesma presa.
Isso diferencia esse comportamento de formas mais complexas de caça coletiva encontradas em outros animais.
Depois da captura, entretanto, a situação pode mudar.
Outros integrantes do grupo frequentemente se aproximam e tentam conseguir partes do alimento.
Carne também pode ser compartilhada
Após uma presa ser capturada, indivíduos próximos podem tentar obter pequenos pedaços.
Os pesquisadores também observaram transferências de carne e de partes das carcaças entre animais.
Essas interações podem ter importância social.
Macacos mais jovens costumam permanecer próximos aos adultos durante a alimentação e podem tentar conseguir parte do alimento.
Essa proximidade também cria oportunidades para aprendizagem.
Embora o estudo não tenha investigado diretamente como os filhotes aprendem a caçar, acompanhar adultos pode ajudá-los a identificar quais animais podem ser utilizados como alimento e como manipulá-los.
Machos caçaram mais que fêmeas
Quando os pesquisadores analisaram os indivíduos separadamente, apareceram diferenças relacionadas ao sexo.
Os machos apresentaram taxas de predação maiores do que as fêmeas.
Uma das hipóteses envolve diferenças corporais e necessidades energéticas.
Outra possibilidade está relacionada aos riscos envolvidos na atividade.
Capturar uma presa pode exigir esforço e expor o macaco a mordidas, ataques ou outros perigos.
As fêmeas poderiam, portanto, adotar comportamentos mais cautelosos em determinadas circunstâncias.
Os próprios pesquisadores ressaltam que essas explicações ainda precisam ser testadas em trabalhos futuros.
Adultos também apresentaram maior frequência
A idade também influenciou parte dos resultados.
Adultos caçaram mais do que filhotes.
Já entre juvenis e adultos, a diferença não foi considerada significativa.
Isso sugere que a habilidade ou a disposição para capturar vertebrados pode se desenvolver relativamente cedo.
Experiência, força, coordenação e exposição ao comportamento de indivíduos mais velhos podem influenciar esse processo.
Caçar pequenos animais pode dar pistas sobre nossos ancestrais
O interesse do estudo não está restrito ao comportamento dos macacos-prego.
A pesquisa também discute possíveis relações com a evolução da alimentação humana.
Entre os primatas atuais, os seres humanos se destacam pela capacidade de caçar regularmente animais maiores do que o próprio caçador.
Esse comportamento está relacionado à evolução de tecnologias, cooperação social e estratégias complexas de obtenção de alimento.
Mas a origem desse processo provavelmente foi muito mais simples.
Antes de caçadas organizadas a grandes animais, ancestrais dos primatas poderiam capturar pequenas presas sempre que surgissem oportunidades.
Comportamentos observados atualmente em espécies como chimpanzés e macacos-prego podem ajudar cientistas a construir hipóteses sobre etapas mais antigas dessa trajetória.
Pequenas presas antes das grandes caçadas?
Capturar um pequeno vertebrado exige uma estrutura comportamental muito diferente daquela necessária para caçar grandes mamíferos.
Não é preciso organizar grandes grupos.
Também não são necessariamente necessárias armas ou estratégias sofisticadas.
Um animal encontra uma presa e aproveita a oportunidade.
Ao longo da evolução, comportamentos predatórios simples poderiam ter criado condições para formas progressivamente mais complexas de caça.
Os macacos-prego não são modelos diretos dos ancestrais humanos, mas oferecem exemplos vivos de como um primata onívoro pode incorporar carne à alimentação de forma flexível.
Macacos-prego possuem grande capacidade de adaptação
Esses animais já são conhecidos por suas habilidades cognitivas e manuais.
Algumas populações utilizam pedras e outros objetos para acessar alimentos.
Na própria região do Piauí, o uso de ferramentas por macacos-prego é amplamente estudado.
A capacidade de mudar a alimentação conforme as condições ambientais acrescenta outra dimensão a essa flexibilidade.
Frutos, insetos e pequenos vertebrados fazem parte de um conjunto de recursos que pode ser utilizado de maneiras diferentes ao longo do ano.
Essa versatilidade provavelmente contribui para a capacidade desses primatas de sobreviver em ambientes com forte sazonalidade.
Destruição do habitat pode alterar todo o cardápio
Os resultados também possuem implicações para a conservação.
Se a frequência de caça muda conforme a disponibilidade de frutos, alterações na vegetação podem afetar diretamente a dieta dos animais.
A destruição ou degradação dos habitats pode reduzir determinadas espécies vegetais e modificar a oferta sazonal de alimentos.
Isso obriga os macacos a reorganizarem suas estratégias alimentares.
A presença de alternativas não significa necessariamente que a perda de vegetação seja facilmente compensada.
Cada recurso fornece combinações diferentes de energia e nutrientes.
Preservar o habitat significa preservar opções alimentares
Para que uma população consiga atender às suas necessidades nutricionais, é importante que o ambiente mantenha diversidade suficiente de recursos ao longo do ano.
Uma paisagem preservada oferece diferentes frutos, flores, folhas, insetos e vertebrados.
Quando um desses recursos diminui naturalmente por causa da sazonalidade, outros podem assumir maior importância.
A simplificação do ambiente causada pela ação humana reduz esse conjunto de opções.
Por isso, os pesquisadores destacam a importância da preservação dos habitats naturais dos macacos-prego.
Macacos-prego possuem habilidades manuais e cognitivas complexas para obter alimentos - Foto: Tiago Falótico/Wikimedia Commons
Projeto acompanha os animais desde 2005
O estudo faz parte do Projeto EthoCebus, dedicado ao acompanhamento de macacos-prego na Fazenda Boa Vista.
O projeto começou em 2005.
A coleta sistemática de informações teve início no ano seguinte.
Esse acompanhamento de longo prazo permite responder perguntas que seriam praticamente impossíveis em pesquisas de curta duração.
Com anos de observações acumuladas, os pesquisadores conseguem identificar alterações sazonais, diferenças entre indivíduos e comportamentos relativamente raros.
Resultados reuniram diferentes pesquisas
Os dados utilizados no artigo também derivam de trabalhos de doutorado desenvolvidos por Michele Pereira Verderane, Noemi Spagnoletti e Olívia Mendonça Furtado.
A pesquisa é coordenada atualmente por Patrícia Izar, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP.
O trabalho também envolve colaboração internacional.
Participam pesquisadores da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Cognição, na Itália, e do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique.
O projeto contou ainda com apoio de colaboradores de campo responsáveis pelo acompanhamento diário dos grupos.
Longos estudos revelam comportamentos difíceis de perceber
Registrar 446 episódios de consumo de vertebrados exigiu milhares de horas seguindo os mesmos grupos.
Esse esforço demonstra a importância de pesquisas ecológicas de longa duração.
Um comportamento observado apenas algumas vezes pode parecer excepcional.
Quando o acompanhamento se estende por anos, é possível perceber se ele possui relação com época do ano, disponibilidade de alimento, idade ou sexo dos indivíduos.
No caso dos macacos-prego, essa abordagem mostrou que o consumo de pequenos vertebrados faz parte de uma estratégia alimentar flexível.
A carne entra quando o ambiente muda
O estudo revela um primata capaz de ajustar seu comportamento às mudanças na oferta de recursos.
Quando os frutos estão abundantes, a necessidade de buscar pequenos vertebrados diminui.
Quando determinados frutos se tornam mais escassos, a caça aumenta.
Essa flexibilidade oferece vantagens em ambientes nos quais a disponibilidade de alimento muda ao longo do ano.
Também abre uma janela para compreender como comportamentos relacionados ao consumo de carne podem ter surgido entre primatas.
A história da alimentação humana é muito mais complexa do que aquilo que ocorre atualmente com macacos-prego.
Mas observar esses animais mostra como o primeiro passo para uma dieta mais dependente de carne pode não ter sido uma grande caçada organizada.
Pode ter começado de maneira muito mais simples: capturando pequenas presas quando outros alimentos estavam em falta.
O artigo Small vertebrate consumption by capuchin monkeys (Sapajus libidinosus): insights into the human predatory pattern foi publicado na revista PLOS One.
Fonte: Jornal da USP.
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