Leste da Amazônia está emitindo 10 vezes mais CO2 que o Oeste
Divulgado em dezembro passado, o mais recente relatório do Global Carbon Project estima que, desde a década de 1960, as plantas terrestres retiraram da atmosfera cerca de um quarto do dióxido de carbono (CO2), o principal gás de efeito estufa que contribui para o aumento do aquecimento planetário, emitido pela queima de combustíveis fósseis. Esse efeito benéfico ao clima ocorre porque a taxa com que os vegetais fazem fotossíntese – e, portanto, consomem o CO2 disponível no ar para se manter vivos e crescer – é ligeiramente maior do que o ritmo de emissão de dióxido de carbono por meio da queima de biomassa, da decomposição de material orgânico e da respiração das plantas. A diferença a favor da coluna das absorções em relação à das emissões é pequena, de cerca de 2%, mas suficiente para tornar as florestas, sobretudo as densas e exuberantes matas tropicais, importantes sumidouros de carbono. Esse termo é usado para designar as áreas em que as absorções de carbono superam as emissões.
Queimada em área de floresta em Autazes, perto de Manaus, durante o El Niño de 2015/2016, quando houve maior mortalidade de árvores. Foto: Aline Pontes Lopes
Feito a partir de medições de alta precisão da concentração de carbono em amostras do ar obtidas em quatro regiões da Amazônia entre 2010 e 2018, o novo estudo sinaliza que a emissão média de CO2 foi cerca de 10 vezes maior no leste do que no oeste da floresta tropical durante esses nove anos. “Observamos que as áreas com desmatamento superior a 30% do seu total emitiram muito mais carbono do que as com uma taxa de desflorestamento inferior a 20%”, comenta Gatti, que estuda a química da atmosfera da Amazônia por meio de um projeto no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais – PFPMCG (ver quadro acima). “Dados meteorológicos indicam que, nos últimos 40 anos, o leste foi o setor da Amazônia que sofreu o maior aumento médio de temperatura e a maior redução de chuvas durante a estação de seca na região, entre agosto e outubro.”
Mais úmida e preservada, a seção ocidental do bioma também apresentou um balanço de carbono (soma de todas as emissões e absorções) delicado. No entanto, no setor oeste, a transição da condição de sumidouro para a de fonte de carbono parece ainda estar no começo, embora já se insinue. “Se o oeste da Amazônia sofrer mais impactos de atividade humana, é possível que também ali ocorra o que estamos vendo na parte leste”, diz, em entrevista a Pesquisa FAPESP, o químico John Miller, do National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), dos Estados Unidos, que também assina o artigo.
Na porção oriental da floresta, a temperatura média no período de estiagem subiu mais de 2 graus Celsius (˚C) e a incidência de chuvas diminuiu em pelo menos 25% nas últimas quatro décadas, segundo cálculos feitos pela equipe liderada por Gatti. A época de seca também tem se tornado cada vez mais longa, com mais dias sem chuva expressiva. No oeste da Amazônia, houve elevação da temperatura média e diminuição das chuvas entre 1979 e 2018, mas a um ritmo menor. O aumento térmico foi de, no máximo, 1,7 ºC, e a redução média de pluviosidade de 20%, de acordo com o artigo. Na Amazônia, um mês é considerado seco quando chove, em média, menos de 100 milímetros (mm) no período.
José Caldas /Brazil Photos /LightRocket via Getty Images Vista aérea de trecho preservado da floresta amazônica, que retira mais carbono do que os setores desmatadosJosé Caldas /Brazil Photos /LightRocket via Getty Images
Bruno Kelly / Reuters / Fotoarena Cheia do rio Negro, no Amazonas, em meados deste ano foi a maior da históriaBruno Kelly / Reuters / Fotoarena
Outros trabalhos chegaram a conclusões semelhantes à do estudo de Gatti, Aragão e seus colaboradores. Artigo publicado na Nature Climate Change em abril deste ano sinaliza que a Amazônia emitiu 18% mais carbono do que absorveu entre 2010 e 2018. Os cálculos do balanço de carbono foram feitos a partir de medições dos fluxos de CO2 realizadas por satélites. O estudo estimou que os setores de vegetação degradada, em geral vizinhos a áreas desflorestadas e a propriedades destinadas à agropecuária, emitiram quantidades significativas de carbono em relação às partes propriamente desmatadas. “A Amazônia brasileira como um todo perdeu parte de sua biomassa e, portanto, liberou carbono. Sabemos da importância do desmatamento para as mudanças climáticas globais”, disse, em comunicado de imprensa, Stephen Sitch, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, um dos autores do trabalho. “Nosso estudo mostra como as emissões associadas a processos de degradação florestal podem ser ainda maiores. A degradação é uma ameaça generalizada à integridade futura da floresta e precisa ser pesquisada com urgência.”
Um artigo de 2015, que também ganhou as páginas da Nature, é uma referência obrigatória sobre o tema balanço de carbono na grande floresta tropical. Coordenado por pesquisadores da Universidade de Leeds, com a participação de brasileiros e colegas de outros países, o estudo sugere que a Amazônia vem perdendo progressivamente a capacidade de retirar carbono da atmosfera devido a um aumento de mais de um terço na mortalidade de árvores desde meados dos anos 1990. Além do desmatamento e da degradação da floresta, mudanças climáticas, tanto em nível local como global, estariam impulsionando esse fenômeno. O estudo em campo acompanhou por três décadas a evolução da biomassa (crescimento e diminuição do tamanho das árvores) em 321 parcelas da floresta.
Veja a primeira parte deste artigo: Leste da Amazônia vira fonte de carbono e emite mais do que absorveO climatologista José Marengo, coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), elogia a importante contribuição científica do estudo. “Vários estudos indicam que o leste da Amazônia está se tornando mesmo uma fonte de carbono e outros trabalhos, inclusive nossos, mostram que o período de estiagem nessa parte da região está ficando mais quente e seco nas últimas décadas”, diz Marengo. “Isso não é bom para o balanço de carbono e aumenta o risco de secas e de incêndios.” No entanto, a Amazônia é uma região muito extensa e fazer generalizações para a toda a área é arriscado. Em simulações climáticas, alguns modelos apontam, por exemplo, que em setores do noroeste da Amazônia pode vir a chover ainda mais nas próximas décadas em razão das mudanças climáticas globais. Atualmente, a porção ocidental, que é mais preservada, é também mais úmida do que o setor oriental. Ali chove até mais de 3 mil mm por ano. O aquecimento global é a faceta mais visível das mudanças climáticas. Mas isso não quer dizer que vai ficar mais quente todo o tempo e em todos os lugares. Em certas regiões, é possível até que esfrie em alguns períodos do ano. Mas a temperatura média do planeta vai se elevar rapidamente nas próximas décadas devido ao aumento da emissão de gases de efeito estufa, principalmente em razão da queima de combustíveis fósseis. “As pessoas têm de ter em mente que o aumento do aquecimento global induz as mudanças climáticas e leva à maior ocorrência de eventos extremos, que podem ser episódios muito intensos tanto de seca ou chuva como de calor ou de frio”, pondera Marengo. Nesse contexto, embora a Amazônia esteja se tornando mais quente e seca (e emitindo mais carbono) quando vista como um todo ou em sua porção mais a leste, não é paradoxal ter ocorrido a maior cheia em quase 120 anos do rio Negro em Manaus no fim de junho deste ano. Em razão de fortes chuvas, o leito do rio subiu 30 metros e afetou a vida de quase meio milhão de habitantes do estado. Mais ou menos no mesmo período, durante o verão no Canadá e no oeste dos Estados Unidos, em outra anomalia que parte dos cientistas atribui às mudanças climáticas, os termômetros marcaram temperaturas recordes acima de 50 ºC. Em julho, Alemanha, Bélgica e Países Baixos registraram a maior enchente dos últimos 100 anos, imputada também por alguns às mudanças climáticas. Para o climatologista Scott Denning, da Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, os resultados do estudo liderado pelos brasileiros na Nature coloca em dúvida a capacidade de longo prazo da floresta amazônica em sequestrar carbono da atmosfera e atuar como um importante contrapeso ao aquecimento global. “As observações contínuas feitas em quatro regiões da Amazônia por essa equipe representam um tipo de dado muito difícil de se obter e são um indício de que a condição de sumidouro de carbono da Amazônia está sendo ameaçada pela degradação da floresta e aquecimento do clima”, disse, em entrevista a Pesquisa FAPESP, Denning, que assina, também na Nature, um comentário sobre o artigo do grupo do Inpe. “O futuro da acumulação de carbono nas florestas tropicais sempre foi incerto. Os perfis atmosféricos obtidos por Gatti e seus colegas mostram que esse futuro incerto está ocorrendo agora.”
O site da revista Pesquisa FAPESP traz uma versão resumida desta reportagem.
Projeto Variação interanual do balanço de gases de efeito estufa na bacia amazônica e seus controles em um mundo sob aquecimento e mudanças climáticas – Carbam: Estudo de longo termo do balanço do carbono da Amazônia (nº 16/02018-2); Modalidade Projeto Temático; Programa Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais; Pesquisadora responsável Luciana Gatti (Inpe); Investimento R$ 4.436.420,43.
Artigos científicos GATTI, L. V. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature. 15 jul. 2021. BERENGUER, E. et al. Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests. PNAS. 27 jul. 2021.
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.