Novo instituto vai transformar a biodiversidade brasileira em alimentos e inovação
O Brasil abriga uma das maiores diversidades de plantas do planeta, mas ainda utiliza apenas uma pequena parcela desse patrimônio natural na criação de alimentos, ingredientes, tecnologias e cadeias produtivas sustentáveis.
Para aproximar a ciência da produção e transformar a biodiversidade brasileira em benefícios concretos para a sociedade, uma nova rede nacional de pesquisa inicia suas atividades sob a liderança da Universidade de São Paulo.
O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Centro de Pesquisa em Alimentos, o INCT FoRC, pretende investigar espécies vegetais nativas, identificar compostos com potencial para a saúde humana, desenvolver processos biotecnológicos e apoiar produtores e empresas na criação de novos produtos alimentícios.
A iniciativa também buscará avaliar os impactos ambientais e socioeconômicos das cadeias produtivas e produzir informações capazes de orientar políticas públicas relacionadas à biodiversidade, à alimentação e ao desenvolvimento sustentável.
Ciência conectada às cadeias produtivas
O projeto foi selecionado em um edital do Programa Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, lançado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, em 2025.
A iniciativa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes.
Diferentemente de pesquisas concentradas apenas na identificação de novas substâncias, o INCT FoRC pretende acompanhar toda a trajetória de um possível alimento ou ingrediente.
O trabalho poderá começar com a escolha de uma espécie vegetal nativa e avançar para a identificação de compostos bioativos, o desenvolvimento de processos de produção, a avaliação de efeitos sobre a saúde humana e a análise da viabilidade de sua cadeia produtiva.
A proposta é criar uma ligação contínua entre universidades, centros de pesquisa, produtores rurais, empresas, startups e formuladores de políticas públicas.
Experiência construída desde 2014
A criação do instituto é resultado da trajetória do Centro de Pesquisa em Alimentos, o FoRC, fundado em 2014.
O centro surgiu como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão financiado pela FAPESP e posteriormente passou a integrar de forma permanente a estrutura da Universidade de São Paulo.
Ao longo dos anos, o FoRC ajudou a aproximar pesquisadores da área de alimentos que atuavam em diferentes unidades e campi da universidade.
Essa integração foi fortalecida pela criação do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Integrados em Alimentos, que reúne especialistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos.
A articulação ampliou a capacidade de pesquisa da USP na área de alimentos e aumentou a projeção internacional dos trabalhos desenvolvidos pela instituição.
Com o INCT FoRC, essa rede passa a incluir pesquisadores de outras universidades brasileiras, centros de pesquisa, empresas de base tecnológica, startups e parceiros internacionais.
Da descoberta de espécies ao desenvolvimento de produtos
O instituto deverá desenvolver pesquisas em diferentes etapas.
Uma delas envolve a investigação da biodiversidade vegetal brasileira em busca de espécies, moléculas e compostos que possam ser utilizados na produção de alimentos ou ingredientes.
As plantas nativas podem apresentar características nutricionais e substâncias ainda pouco estudadas pela ciência. Algumas podem possuir compostos bioativos, nome dado às substâncias capazes de interagir com o organismo e potencialmente produzir efeitos sobre a saúde.
Depois da identificação desses compostos, os pesquisadores poderão avaliar suas propriedades, sua segurança e suas possibilidades de aplicação.
A pesquisa poderá avançar até estudos clínicos com seres humanos, dependendo das características do produto e das perguntas científicas envolvidas.
Processos biotecnológicos sustentáveis
Outro objetivo é desenvolver métodos mais sustentáveis para obter ingredientes e produtos alimentícios.
A biotecnologia utiliza organismos vivos, células, enzimas e processos biológicos para criar ou aprimorar produtos e técnicas de produção.
Na indústria de alimentos, essas ferramentas podem ser empregadas para aproveitar matérias-primas, melhorar características nutricionais, transformar compostos naturais e reduzir desperdícios.
O instituto pretende utilizar esse conhecimento para desenvolver soluções alinhadas às características da biodiversidade brasileira.
A proposta não se limita a descobrir novas plantas com potencial de uso. Também será necessário estabelecer formas adequadas de cultivo, processamento, conservação e transformação das matérias-primas.
Conhecimento não deve terminar no laboratório
Para a coordenadora do INCT FoRC, Bernadette Franco, o novo instituto consolida um modelo de pesquisa construído ao longo dos últimos anos, no qual especialistas de diferentes áreas se reúnem para trabalhar sobre problemas comuns.
Essa integração permite que o conhecimento produzido não permaneça restrito aos laboratórios e às publicações científicas.
A intenção é compreender toda a jornada dos alimentos, desde a biodiversidade presente nos ecossistemas brasileiros até suas possíveis aplicações na saúde e na produção sustentável.
O instituto também deverá atuar diretamente com produtores rurais para identificar dificuldades, oferecer qualificação técnica e desenvolver soluções capazes de fortalecer as cadeias produtivas.
Biodiversidade precisa gerar desenvolvimento local
A criação de novos produtos a partir de espécies nativas depende de cadeias produtivas capazes de fornecer matérias-primas de maneira regular, segura e ambientalmente responsável.
Isso envolve agricultores, comunidades, cooperativas, empresas, transportadores, indústrias, pesquisadores e órgãos públicos.
Sem essa organização, uma descoberta científica pode não chegar ao mercado ou gerar poucos benefícios para as regiões onde a espécie ocorre.
Por isso, o INCT FoRC também pretende estudar os impactos sociais, econômicos e ambientais dessas cadeias.
O objetivo é compreender os gargalos existentes e buscar soluções que permitam transformar a biodiversidade em inovação sem estimular a exploração predatória dos recursos naturais.
O fortalecimento das cadeias produtivas pode gerar renda, oportunidades de trabalho e valorização de espécies brasileiras, desde que seja acompanhado por práticas sustentáveis e pela distribuição adequada dos benefícios.
Três grandes plataformas de pesquisa
O instituto está organizado em três plataformas principais.
A primeira será dedicada à prospecção da biodiversidade vegetal e ao estudo dos efeitos de compostos bioativos sobre a saúde humana.
Nessa frente, os pesquisadores deverão investigar espécies nativas, identificar substâncias de interesse e avaliar seus possíveis efeitos biológicos.
A segunda plataforma será voltada ao desenvolvimento de processos biotecnológicos sustentáveis para a obtenção de ingredientes e produtos alimentícios.
O trabalho deverá envolver técnicas de processamento, conservação, transformação e aproveitamento das matérias-primas.
A terceira plataforma atuará na interface entre ciência, produtores rurais e sociedade.
Essa frente deverá avaliar impactos socioeconômicos e ambientais, promover capacitações e propor soluções destinadas ao fortalecimento das cadeias produtivas ligadas à biodiversidade.
Pesquisa integrada pode acelerar a inovação
Tradicionalmente, diferentes etapas do desenvolvimento de um alimento podem ser conduzidas de forma separada.
Um grupo estuda a composição química de uma planta, outro desenvolve o processamento e uma terceira equipe analisa o mercado ou os impactos sociais.
Quando não existe integração, resultados importantes podem permanecer desconectados ou demorar para chegar à sociedade.
Segundo Eduardo Purgatto, vice-coordenador do instituto, um dos principais diferenciais do INCT FoRC será justamente reunir essas etapas.
A descoberta de um composto poderá ser conectada ao desenvolvimento tecnológico, às demandas dos produtores e às necessidades do setor produtivo.
Essa articulação poderá acelerar a transformação do conhecimento científico em inovação.
Formação de novos pesquisadores
Além do desenvolvimento de produtos e tecnologias, o instituto terá como meta a formação de profissionais altamente qualificados.
Estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado poderão participar das pesquisas e trabalhar em projetos que integram diferentes áreas do conhecimento.
A formação multidisciplinar será importante porque o aproveitamento sustentável da biodiversidade exige competências em biologia, química, agronomia, nutrição, engenharia, saúde, economia e políticas públicas.
O INCT FoRC também pretende ampliar a produção científica, estimular a geração de propriedade intelectual e promover ações educativas relacionadas à alimentação sustentável.
Rede reúne universidades, centros de pesquisa e empresas
Além da Universidade de São Paulo, o instituto reúne pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade Federal do Paraná, da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Federal do Oeste da Bahia.
Também participam a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, o Fundecitrus, empresas de base tecnológica, startups e parceiros internacionais.
Essa rede permite que diferentes conhecimentos, laboratórios e estruturas sejam utilizados de forma coordenada.
A diversidade geográfica das instituições também pode ampliar o alcance das pesquisas e aproximar o instituto de diferentes biomas e cadeias produtivas brasileiras.
Espécies nativas podem ganhar novos mercados
O desenvolvimento de alimentos e ingredientes a partir da biodiversidade pode aumentar o interesse econômico por espécies nativas.
Essa valorização pode contribuir para a conservação quando está associada ao manejo sustentável, à produção responsável e à manutenção da vegetação natural.
Espécies brasileiras ainda pouco conhecidas pelo mercado podem apresentar características nutricionais, sensoriais ou tecnológicas relevantes.
No entanto, transformar esse potencial em produtos exige pesquisa, controle de qualidade, segurança alimentar, capacidade de produção e acesso ao mercado.
O instituto pretende atuar justamente na conexão entre essas diferentes necessidades.
Inovação precisa caminhar com conservação
O aproveitamento econômico da biodiversidade não pode ocorrer à custa da degradação dos ecossistemas.
Caso o aumento da demanda estimule a coleta indiscriminada ou a retirada de espécies sem planejamento, a criação de um novo mercado poderá produzir efeitos contrários aos objetivos de sustentabilidade.
Por isso, o desenvolvimento das cadeias deve considerar a origem das matérias-primas, os métodos de produção e os impactos sobre os ambientes naturais.
A ciência pode contribuir para definir sistemas de cultivo, técnicas de manejo, formas de processamento e critérios capazes de reduzir riscos ambientais.
Ao integrar pesquisadores e produtores, o instituto poderá ajudar a construir cadeias produtivas que combinem conservação, geração de renda e inovação.
Alimentação sustentável e políticas públicas
Os conhecimentos produzidos pelo INCT FoRC também poderão apoiar a elaboração de políticas públicas.
Informações sobre propriedades nutricionais, formas de produção, impactos ambientais e condições socioeconômicas são necessárias para orientar programas de incentivo, regulamentações e estratégias de desenvolvimento.
A inclusão de espécies nativas em políticas de alimentação, agricultura e bioeconomia depende de evidências científicas e de cadeias produtivas estruturadas.
O instituto pretende fornecer parte dessa base técnica e aproximar os resultados das pessoas responsáveis pela tomada de decisões.
Biodiversidade como fonte de conhecimento
A riqueza vegetal brasileira representa um amplo campo de investigação científica.
Muitas espécies ainda são pouco conhecidas em relação à composição, às propriedades, aos usos alimentícios e ao potencial biotecnológico.
O INCT FoRC nasce com a proposta de reduzir essa distância entre biodiversidade e inovação.
Ao conectar universidades, produtores, empresas e políticas públicas, a rede pretende transformar descobertas científicas em soluções para a alimentação, a saúde e a produção sustentável.
O desafio será fazer com que esse aproveitamento gere benefícios sociais e econômicos sem comprometer os ecossistemas que abrigam as espécies estudadas.
Quando ciência, conservação e cadeias produtivas trabalham de forma integrada, a biodiversidade deixa de ser vista apenas como um patrimônio ainda pouco conhecido e passa a ocupar um papel estratégico no desenvolvimento sustentável do país.
Fonte: Agência FAPESP.
Foto superior: A identificação de compostos bioativos presentes em espécies vegetais nativas é um dos objetivos da rede (Gold Bernard/Wikimedia Commons)
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