Inmetro desenvolve “impressão digital química” para identificar madeira e combater o comércio ilegal

Inmetro desenvolve “impressão digital química” para identificar madeira e combater o comércio ilegal
fiscais do Ibama caminhando entre pilhas de toras de madeira identificadas com etiquetas

Imagine um caminhão carregado de tábuas parado numa rodovia da Amazônia. O documento diz que a carga é de uma espécie comum, permitida. Mas e se, no meio das tábuas, houver mogno ou cedro, espécies protegidas? Sem folhas, flores ou frutos, como o fiscal vai saber?

Essa é uma das perguntas mais difíceis da fiscalização florestal no Brasil. E uma pesquisa do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) acaba de dar um passo importante para respondê-la: identificar a espécie da madeira pela sua assinatura química.

Título: Fiscais do Ibama vistoriam toras em pátio de madeira na Amazônia - Descrição: Fiscais do Ibama vistoriam toras em pátio de madeira na Amazônia

Fiscais do Ibama vistoriam toras em pátio de madeira na Amazônia

O problema: madeira não tem crachá

Botânicos reconhecem árvores principalmente pelas folhas, flores e frutos. Só que uma tora ou uma tábua não tem nada disso. Muitas espécies têm madeiras parecidíssimas a olho nu, e depois que a madeira é serrada ou processada, até as características anatômicas usadas na identificação ficam mais difíceis de observar.

Essa dificuldade abre espaço para fraudes. Em agosto de 2025, uma operação da Polícia Rodoviária Federal apreendeu 2.043 m³ de madeira, e entre as principais irregularidades estavam justamente divergências entre a espécie e o volume declarados e o que de fato estava na carga. Em junho de 2026, outra operação no Pará apreendeu 153 m³ de madeira irregular. E neste mês de outubro, no Maranhão, policiais encontraram diferenças entre o volume transportado e o informado em uma carga de cerca de 100 m³, que incluía uma espécie ameaçada de extinção.

O Brasil tem sistemas de controle para isso, como o Documento de Origem Florestal (DOF) e o Sinaflor, que registram a origem e o transporte da madeira nativa. Mas um papel só diz o que alguém declarou. Ele não substitui a verificação do material que está diante do fiscal. Quem trabalha no setor conhece bem o termo “esquentamento”: madeira ilegal que circula com documento de madeira legal.

O que está em jogo

Algumas das madeiras mais visadas são também das mais ameaçadas. O pau-brasil (Paubrasilia echinata), espécie exclusivamente brasileira, teve suas populações reduzidas em mais de 80% nas últimas três gerações e hoje está criticamente em perigo. O mogno (Swietenia macrophylla) foi tão explorado que, em algumas áreas, levantamentos registraram a retirada de 90% a 95% das árvores adultas. E o pau-rosa (Aniba rosaeodora) foi derrubado por décadas para extrair o óleo usado em perfumes, esgotando estoques naturais em várias regiões da Amazônia.

O Brasil é o país mais biodiverso do planeta, com estimativas de 15% a 20% de toda a diversidade biológica mundial. Perder uma dessas espécies é perder milhões de anos de história evolutiva.

A impressão digital química da madeira

A ideia da pesquisa é simples de entender. Cada espécie de árvore produz, no seu metabolismo, um conjunto característico de moléculas orgânicas. Esse conjunto funciona como uma impressão digital química, capaz de diferenciar uma espécie da outra.

Para ler essa impressão digital, os pesquisadores do Laboratório de Análise Orgânica do Inmetro usaram a espectrometria de massas, uma técnica já comum na indústria farmacêutica, de alimentos e de petróleo. O trabalho foi feito em parceria com o Serviço Florestal Brasileiro, a UnB, o INPA, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a empresa Waters Technologies do Brasil, e publicado em março de 2026 na revista científica ACS Omega.

Foram analisadas 60 amostras de cerne de quatro espécies tropicais de importância comercial: mogno, cedro, andiroba e jatobá. Mogno e cedro (gênero Cedrela) têm o comércio internacional controlado pela Cites, a convenção que regula o comércio de espécies ameaçadas. As amostras, de diferentes locais da Amazônia, vieram de xilotecas, as coleções científicas de madeira.

Os resultados

O modelo de classificação acertou cerca de 95% na validação cruzada. Em um teste cego, com 12 amostras que não tinham sido usadas para construir o modelo, o acerto foi de 100% para as quatro espécies.

Outro ponto importante é a praticidade. O equipamento usado:

É compacto e mais simples que os espectrômetros de alta resolução, e custa cerca de 20% do valor do equipamento mais usado hoje.

Exige pouca preparação das amostras e não precisa de condições de laboratório tão controladas.

Faz a análise em cerca de um minuto por amostra, com classificação automática.

Isso abre a possibilidade de, no futuro, testar a tecnologia em portos, aeroportos, bases policiais ou laboratórios móveis, perto de onde a decisão de fiscalização precisa ser tomada.

Calma: ainda é uma prova de conceito

Os próprios pesquisadores fazem questão de deixar claro: ainda não é possível colocar qualquer madeira brasileira no equipamento e descobrir automaticamente a espécie. O estudo testou quatro espécies. O próximo passo é ampliar a biblioteca de referência, com mais espécies, mais indivíduos e mais origens geográficas, para saber até onde o método funciona.

Também vale lembrar que o equipamento não é portátil como um aparelho de mão. Ele é menor e mais simples que os de alta resolução, mas ainda é um instrumento de bancada.

O que eu penso

Como engenheiro florestal que trabalha com certificação florestal, vejo essa pesquisa com muito interesse. Na certificação FSC e PEFC, a rastreabilidade é tudo: cada tora precisa ser identificada e acompanhada da floresta até o comprador. Mas todo sistema de rastreabilidade baseado em documentos tem o mesmo ponto fraco: depende de que o que está escrito corresponda ao que está na carga.

Título: Tora com etiqueta de rastreabilidade e selo FSC em concessão florestal na Floresta Nacional do Amapá - Descrição: Tora com etiqueta de rastreabilidade e selo FSC em concessão florestal na Floresta Nacional do Amapá

Tora com etiqueta de rastreabilidade e selo FSC em concessão florestal na Floresta Nacional do Amapá

É aí que uma ferramenta como essa faz diferença. A identificação anatômica, feita por especialistas com lupa, continua sendo fundamental, mas depende de gente treinada, que é pouca para o tamanho da Amazônia. Um método químico rápido e automatizado não substitui esses profissionais, mas pode ser um filtro poderoso para indicar quais cargas merecem uma análise mais detalhada.

E o contexto importa. A taxa de desmatamento da Amazônia Legal caiu 12% em 2025, para 5.731 km², e os alertas do Deter caíram 36% entre agosto de 2025 e julho de 2026. São avanços reais, mas as operações continuam encontrando madeira ilegal. Reduzir o desmatamento não torna a fiscalização desnecessária. Torna ainda mais importante manter e melhorar as ferramentas que funcionam.

Por fim, uma pesquisa como essa, feita com instituições brasileiras e acervos de xilotecas nacionais, mostra que o país pode produzir ciência de ponta sobre a sua própria biodiversidade. Ciência não prende ninguém nem substitui fiscal, mas dá a evidência que a fiscalização precisa.

E você, acha que tecnologias como essa vão mudar a fiscalização florestal no Brasil? Conte nos comentários!

Saudações florestais!

Arthur Brasil, Engenheiro Florestal

Fonte: artigo de pesquisadores do Inmetro sobre o estudo publicado na revista ACS Omega (março de 2026). Pesquisa com apoio da Faperj e do CNPq.

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