Fóssil de cogumelo mais antigo do mundo é achado no Brasil
Fungo de 115 milhões de anos encontrado em sítio paleontológico no Nordeste pode ajudar no estudo da transição das plantas da água para terra
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| Fonte: HEADS, SAM et al./PLUS ONE |
Para a paleontóloga Mírian Pacheco, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus
de Sorocaba, que não participou da pesquisa, é surpreendente um
cogumelo conseguir resistir à ação do tempo dessa maneira. “Esses fungos
são formas de vida efêmeras e de baixo potencial de fossilização,
preservando-se apenas em condições excepcionais, como as verificadas na
bacia do Araripe”, diz ela. “Trata-se de um achado raro e muito importante para a reconstituição paleoambiental.” O fungo foi batizado de Gondwanagaricites magnificus
pelos pesquisadores norte-americanos, que estimam que o cogumelo tenha
habitado o Nordeste brasileiro no contexto do Gondwana, o
supercontinente formado há cerca de 200 milhões de anos e que agrupava
América do Sul, África, Madagascar, Índia, Oceania e a Antártida. O
fungo tem cerca de 5 centímetros de altura e cor marrom alaranjada.
A hipótese da equipe de Sam Heads é que o cogumelo deve ter caído em um
rio e sido levado a uma lagoa salina, onde foi envolto por camadas
estratificadas de água salgada até ser coberto por sedimentos finos. Com
o tempo, o organismo foi mineralizado, e seus tecidos aos poucos
substituídos por pirita, mineral composto basicamente por ferro e
enxofre, conforme descreveram em um artigo publicado na revista PLOS ONE
no dia 7 de junho. No entanto, análises mais rigorosas da composição
química e mineral do fóssil ainda são necessárias para validar essa
hipótese. Seja como for, destaca o geólogo Gabriel Osés, do Programa de
Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UFSCar, campus
São Carlos, o achado amplia as perspectivas de pesquisas sobre a forma
como esses fósseis se preservam. “O estudo contribui para calibrar a
evolução das relações de parentescos ente os fungos ao longo do tempo
geológico”, afirma.
Os fungos estão entre os organismos mais diversos deste planeta e
apresentam um papel chave na biosfera e, consequentemente, fazem parte
dos processos que explicam as origens da diversificação biológica entre
organismos macroscópicos. Eles são capazes de decompor a matéria
orgânica, participando ativamente na ciclagem de nutrientes, crucial na
estrutura dos ecossistemas. As evidências científicas coletadas e
analisadas até agora sugerem que, ecologicamente, os fungos tenham tido
um papel muito importante no estabelecimento e na diversificação das
plantas em ambientes terrestres. Desse modo, é possível que o fóssil
apresentado no estudo na PLOS ONE ajude a explicar como se deu a
transição das plantas do ambiente aquático para o terrestre, ainda que
esses organismos pertençam a reinos distintos.
Fontes: Revista Pesquisa Fapesp, HEADS, Sam W. et al. The oldest fossil mushroom. PLOS ONE. 7 jun. 2017.