Espécies invasoras dominam florestas jovens, mas perdem espaço conforme a mata se recupera
Árvores não nativas e invasoras podem ocupar uma parcela significativa das florestas tropicais durante os primeiros anos de regeneração, principalmente em locais anteriormente utilizados pela agricultura. Mas, conforme a floresta cresce e recupera sua estrutura, essas espécies tendem a perder espaço para a vegetação nativa.
A conclusão é de um amplo estudo internacional liderado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), publicado na revista científica Nature Plants.
A pesquisa analisou 1.561 áreas florestais distribuídas por dez países da região neotropical e mostra que a própria regeneração natural pode funcionar como uma importante ferramenta para reduzir a presença relativa de espécies exóticas e invasoras.
O trabalho foi conduzido por Angélica F. Resende, pesquisadora do Laboratório de Silvicultura Tropical (Lastrop) da Esalq-USP, e reuniu uma rede internacional de 66 autores vinculados a 60 instituições.
Os dados foram obtidos por meio da rede global 2ndFor, dedicada ao estudo de florestas secundárias tropicais.
Mais de 3,7 mil espécies analisadas
Os pesquisadores avaliaram dados de 58 cronossequências, conjuntos de áreas com diferentes idades de regeneração que permitem reconstruir uma espécie de linha do tempo do desenvolvimento da floresta.
No total, foram analisadas 3.735 espécies lenhosas, classificadas de acordo com sua origem e seu potencial invasor.
As espécies não nativas estavam presentes em 81% das áreas estudadas, com uma ocorrência particularmente elevada nas florestas úmidas.
Nos estágios iniciais de regeneração, entre 10 e 20 anos, essas espécies chegaram a representar até 28% dos indivíduos e 22% da diversidade encontrada nas florestas úmidas.
Esse resultado demonstra a facilidade com que determinadas árvores exóticas conseguem ocupar ambientes recém-abertos ou submetidos a distúrbios.
Por que as espécies não nativas avançam primeiro?
Muitas das espécies encontradas pelos pesquisadores compartilham características que favorecem sua rápida colonização.
Em geral, são plantas pioneiras, capazes de crescer rapidamente e aproveitar condições de elevada disponibilidade de luz.
Após o abandono de uma área agrícola, por exemplo, o ambiente apresenta grande incidência solar e poucos obstáculos para a chegada e o estabelecimento de novas plantas.
Espécies introduzidas pelo ser humano e já presentes na paisagem conseguem aproveitar essas condições e se estabelecer com facilidade.
Por isso, podem atingir elevada abundância durante os primeiros anos da sucessão florestal.
Essa vantagem, entretanto, tende a diminuir conforme a vegetação se desenvolve.
Fechamento do dossel muda as condições da floresta
À medida que as árvores crescem, suas copas começam a ocupar o espaço disponível e formar um dossel mais fechado.
Com isso, menos luz solar consegue alcançar as camadas inferiores da floresta.
Segundo o estudo, essa transformação é fundamental para reduzir a presença relativa das espécies não nativas.
Muitas delas possuem características típicas de ambientes abertos e iluminados. Quando a quantidade de luz diminui, espécies nativas mais adaptadas às condições sombreadas passam a ter vantagem competitiva.
O resultado é uma redução gradual tanto da abundância quanto da diversidade relativa das árvores não nativas.
A floresta, portanto, passa por uma reorganização natural de sua composição à medida que amadurece.
Espécies invasoras não desaparecem completamente
Apesar da forte redução observada, os pesquisadores verificaram que as espécies não nativas continuam presentes mesmo depois de décadas de regeneração.
Elas passam a representar uma parcela menor da comunidade, mas não necessariamente são eliminadas.
Isso significa que essas plantas ainda podem exercer influência sobre a estrutura e o funcionamento do ecossistema mesmo em florestas mais maduras.
O resultado também demonstra que permitir a regeneração não significa ignorar completamente o problema das invasões biológicas.
Em determinadas situações, espécies invasoras podem exigir acompanhamento ou ações específicas de manejo, especialmente quando apresentam grande capacidade de reprodução e dispersão.
Atividades humanas favorecem espécies exóticas
O estudo identificou uma forte relação entre a presença de árvores não nativas e a influência humana sobre a paisagem.
Regiões com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresentaram maior riqueza dessas espécies.
Segundo os pesquisadores, esse padrão está relacionado a fatores como urbanização, agricultura e introdução intencional de plantas.
Muitas árvores exóticas chegaram a novos territórios porque possuem algum valor econômico ou cultural.
Elas podem ser utilizadas para produção de frutos, obtenção de madeira, arborização, paisagismo ou outras finalidades.
Quanto maior o cultivo e a distribuição dessas espécies, maior a quantidade de sementes e indivíduos disponíveis para alcançar ambientes naturais próximos.
Essa chamada pressão de propagação aumenta as chances de estabelecimento e dispersão das plantas fora das áreas onde foram originalmente introduzidas.
Paisagens mais florestadas apresentam menos espécies não nativas
O entorno das áreas em regeneração também exerceu influência importante.
Locais cercados por maior cobertura florestal apresentaram menor incidência de espécies não nativas.
Uma paisagem com remanescentes conservados oferece maior disponibilidade de sementes de espécies nativas, além de condições mais favoráveis à recuperação da biodiversidade original.
Por outro lado, áreas muito fragmentadas ou cercadas por ambientes agrícolas e urbanos podem ficar mais expostas à chegada de espécies exóticas.
O clima, as características do solo e o histórico de uso do território também interferiram na presença e distribuição dessas árvores.
Regeneração natural pode ajudar no controle
Um dos principais resultados do estudo é o potencial da regeneração natural como ferramenta para enfrentar invasões biológicas.
Para Pedro Brancalion, professor da Esalq-USP, coordenador do Lastrop e coautor do trabalho, o desenvolvimento natural da floresta não deve ser entendido apenas como uma recuperação passiva.
Conforme a mata cresce, ela modifica as próprias condições ambientais.
A redução da luminosidade, o aumento da competição entre plantas e a chegada de espécies nativas podem tornar o ambiente progressivamente menos favorável para determinadas árvores exóticas.
Nesse sentido, a própria sucessão ecológica atua como um mecanismo de controle biológico.
Conservar o entorno fortalece a recuperação
Os resultados também indicam que restaurar uma área isoladamente pode não ser suficiente.
A conservação da paisagem ao redor influencia diretamente a trajetória da regeneração.
Florestas mais conectadas oferecem maior fluxo de sementes, fauna dispersora e outras interações ecológicas capazes de favorecer o estabelecimento da vegetação nativa.
Ao mesmo tempo, ambientes conservados podem funcionar como uma barreira à expansão de algumas espécies invasoras.
Por isso, estratégias de restauração precisam considerar não apenas a área que está sendo recuperada, mas também a estrutura da paisagem em que ela está inserida.
Uma solução baseada na própria natureza
As invasões biológicas estão entre as principais ameaças à biodiversidade em escala mundial.
Controlar espécies invasoras depois que elas se estabelecem pode exigir grandes investimentos, mão de obra constante e intervenções de longa duração.
O novo estudo sugere que favorecer processos naturais de regeneração pode ser uma estratégia complementar mais econômica e duradoura em determinadas situações.
Reduzir distúrbios humanos, manter remanescentes de vegetação e permitir que a floresta avance em sua sucessão ecológica cria condições para que espécies nativas recuperem espaço naturalmente.
Essa abordagem se encaixa no conceito de soluções baseadas na natureza, que utiliza processos ecológicos para enfrentar desafios ambientais.
Uso de espécies nativas pode reduzir novas invasões
Os pesquisadores também defendem políticas públicas que incentivem o uso de espécies nativas em atividades produtivas, projetos de restauração e outras iniciativas de plantio.
Grande parte das árvores invasoras identificadas no estudo possui múltiplas utilizações humanas.
Quando essas espécies são amplamente plantadas, aumenta também o risco de escaparem do cultivo e alcançarem ecossistemas naturais.
A conscientização sobre esse problema e a ampliação da oferta de alternativas nativas podem diminuir novas introduções e reduzir a pressão sobre as florestas.
Invasões biológicas têm impactos econômicos
Além dos efeitos ecológicos, espécies invasoras também provocam prejuízos econômicos.
Segundo as informações apresentadas pelos pesquisadores, somente na produção mundial de alimentos esses organismos estão associados a perdas anuais estimadas em aproximadamente US$ 280 bilhões.
Os impactos podem envolver competição com espécies cultivadas, transmissão de doenças, alterações ambientais e custos elevados de controle.
Compreender como essas espécies se comportam dentro de florestas tropicais em regeneração é, portanto, importante tanto para a conservação quanto para a gestão do território.
Florestas maduras podem recuperar parte do equilíbrio
O estudo traz uma mensagem relevante para os esforços de restauração: a elevada presença inicial de espécies não nativas não significa necessariamente que uma floresta permanecerá dominada por elas no futuro.
Quando a regeneração consegue avançar e o ambiente é protegido contra novos distúrbios, a própria transformação estrutural da floresta pode favorecer progressivamente as espécies nativas.
Isso não elimina a necessidade de monitoramento ou de intervenções em situações mais graves, mas demonstra que processos naturais podem desempenhar um papel decisivo no controle das invasões.
Conservar florestas próximas, reduzir a fragmentação e permitir que áreas degradadas avancem em seu processo de recuperação podem ser estratégias capazes de fortalecer a biodiversidade nativa e tornar os ecossistemas mais resistentes às espécies invasoras.
O artigo científico foi publicado na revista Nature Plants e reúne dados de mais de 1,5 mil áreas em dez países da região neotropical.
Acesse o artigo na íntegra clicando aqui: https://doi.org/10.1038/s41477-026-02327-3
Fonte: Esalq-USP.
Créditos imagem capa: Estudo em uma floresta dominada pela espécie invasora não nativa Lecaena leucocephala. Créditos: Matheus Ferreira
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