Estudo cria 10 regras para tornar projetos de restauração ecológica mais eficientes
Restaurar um ecossistema não significa apenas plantar espécies nativas ou repetir uma técnica que funcionou em outro lugar.
Para aumentar as chances de sucesso, é necessário entender quais evidências sustentam cada decisão, verificar se elas realmente se aplicam ao contexto local e incorporar conhecimentos de quem vive e trabalha naquele território.
Essa é a proposta de um novo estudo publicado no Journal of Applied Ecology, que sistematizou dez regras para orientar projetos de restauração ecológica baseados em evidências.
O trabalho reúne pesquisadores e profissionais do Brasil, México, China, Etiópia, Gana, Espanha e Inglaterra e foi desenvolvido com apoio da FAPESP por meio do núcleo BIOTA Síntese.
A ideia é oferecer um guia suficientemente prático para ser aplicado em diferentes ecossistemas, mas sem ignorar as particularidades ambientais, sociais e institucionais de cada região.
Ter evidências não significa saber utilizá-las
A restauração ecológica já possui uma ampla produção científica.
Existem estudos sobre técnicas de plantio, regeneração natural, controle de invasoras, manejo do solo, recuperação de processos ecológicos e inúmeras outras estratégias.
O problema identificado pelos pesquisadores é outro.
Mesmo quando a informação existe, profissionais responsáveis pela restauração nem sempre possuem um caminho claro para avaliar quais evidências são confiáveis e se elas realmente servem para determinado projeto.
Segundo Rafael Chaves, vice-diretor do BIOTA Síntese e especialista do Instituto de Pesquisas Ambientais, pesquisas anteriores já mostravam as vantagens de utilizar evidências na restauração, mas ainda faltava uma orientação prática sobre como fazer isso.
O novo trabalho tenta preencher justamente essa lacuna.
Primeiro é preciso conectar conhecimento e prática
Uma das primeiras diretrizes apresentadas pelo estudo envolve o chamado knowledge brokering.
O termo pode ser entendido como a criação de mecanismos capazes de conectar quem produz conhecimento com quem precisa utilizá-lo.
Na restauração ecológica, existe frequentemente uma distância entre artigos científicos, gestores públicos, empresas, organizações ambientais, comunidades e profissionais que executam intervenções no campo.
Não basta produzir conhecimento.
É necessário garantir que ele chegue às pessoas responsáveis pelas decisões e seja apresentado de uma forma que possa ser utilizada.
Essa articulação também funciona no sentido contrário.
Problemas observados no campo podem revelar perguntas que ainda não foram adequadamente respondidas pela pesquisa científica.
Antes da técnica, é necessário definir o problema
Outro princípio destacado pelos pesquisadores é a definição clara dos objetivos e desafios prioritários do projeto.
Uma área pode apresentar diferentes formas de degradação.
Pode haver perda da cobertura vegetal.
Compactação ou erosão do solo.
Alteração do regime hídrico.
Presença de espécies invasoras.
Ausência de dispersores ou polinizadores.
Fragmentação da paisagem.
Conflitos relacionados ao uso da terra.
Cada situação exige perguntas diferentes.
Por isso, antes de decidir qual intervenção realizar, o restaurador precisa compreender qual problema pretende resolver.
Nem toda evidência possui a mesma qualidade
Depois de identificar o problema, é necessário buscar as melhores informações disponíveis.
Mas encontrar um artigo ou relatório não significa que determinada estratégia deva automaticamente ser aplicada.
O estudo recomenda avaliar aspectos como robustez, possíveis vieses e aplicabilidade das evidências.
Uma técnica que apresentou bons resultados em um determinado ecossistema pode não produzir o mesmo efeito em outro.
Diferenças de clima, solo, biodiversidade, histórico de uso e contexto social podem alterar completamente o resultado.
A restauração baseada em evidências exige, portanto, mais do que simplesmente copiar práticas consideradas bem-sucedidas.
Contexto local é fundamental
Uma decisão precisa responder não apenas à pergunta “isso funciona?”, mas também:
isso funciona aqui?
Uma intervenção testada em determinada região pode depender de condições ambientais que não existem em outro local.
O mesmo vale para condições econômicas, sociais e institucionais.
Por isso, os autores defendem uma avaliação crítica das evidências antes de transformá-las em decisão de manejo.
A proposta é utilizar o melhor conhecimento disponível sem ignorar a realidade onde o projeto será executado.
Conhecimento científico não é o único conhecimento relevante
Um dos pontos importantes do trabalho é a valorização de diferentes sistemas de saberes.
Segundo os pesquisadores, projetos de restauração devem considerar não apenas estudos científicos, mas também conhecimentos práticos, indígenas e de comunidades locais.
Povos e comunidades que vivem há gerações em determinado território podem possuir informações detalhadas sobre sazonalidade, espécies, comportamento da vegetação, disponibilidade de água e mudanças ocorridas na paisagem.
Profissionais que trabalham diretamente em projetos de restauração também acumulam experiências que muitas vezes não aparecem formalmente na literatura acadêmica.
Integrar essas diferentes fontes pode melhorar a qualidade das decisões.
Restaurar também é uma questão social
A restauração de ecossistemas acontece em territórios ocupados e utilizados por pessoas.
Isso significa que decisões ecológicas possuem consequências sociais e econômicas.
Uma área pode ser importante para produção agrícola, abastecimento de água, comunidades tradicionais, conservação da biodiversidade ou várias dessas funções simultaneamente.
Projetos que desconsideram essas relações podem enfrentar conflitos ou produzir resultados diferentes dos planejados.
É por isso que os pesquisadores defendem uma abordagem transdisciplinar.
A restauração precisa considerar simultaneamente processos ecológicos e dinâmicas socioambientais.
Políticas públicas também influenciam o resultado
Outro aspecto destacado pelo estudo é a necessidade de observar o contexto institucional.
Legislação, políticas públicas, programas governamentais e mecanismos de financiamento podem determinar quais práticas são possíveis e quais objetivos são priorizados.
A restauração pode estar relacionada, por exemplo, a obrigações legais, compensações ambientais, conservação da biodiversidade, recuperação de recursos hídricos ou compromissos climáticos.
Nesse cenário, aproximar ciência, políticas públicas e prática torna-se essencial.
Conhecimento científico pode ajudar a orientar políticas mais eficientes.
Ao mesmo tempo, pesquisadores precisam compreender as limitações e necessidades enfrentadas por gestores e profissionais responsáveis pela implementação.
Restaurar para o futuro, não apenas para o presente
Um dos pontos mais relevantes do guia é a necessidade de considerar cenários socioecológicos futuros.
O ambiente restaurado hoje continuará sujeito a transformações nas próximas décadas.
Mudanças climáticas podem alterar temperaturas, precipitação, disponibilidade de água e ocorrência de eventos extremos.
O uso da terra no entorno também pode mudar.
Novas espécies invasoras podem surgir.
Populações humanas podem crescer ou diminuir.
A restauração precisa considerar essas possibilidades.
Um projeto considerado adequado para as condições atuais pode não ser resiliente às condições ambientais futuras.
Mudanças climáticas tornam a restauração mais complexa
Historicamente, muitos projetos procuram reconstruir um ecossistema tomando como referência uma condição observada no passado.
Esse princípio continua sendo importante, mas as mudanças climáticas acrescentam uma dificuldade.
O clima futuro pode ser diferente daquele existente quando o ecossistema de referência se desenvolveu.
Isso exige decisões capazes de equilibrar conservação, funcionamento ecológico e capacidade de adaptação.
Não existe necessariamente uma solução única.
Em muitos casos será necessário trabalhar com cenários e incertezas.
Toda decisão envolve escolhas
Os autores também destacam a importância de reconhecer os chamados trade-offs.
Em uma tradução aproximada, são escolhas em que favorecer determinado objetivo pode implicar custos ou perdas em outro.
Uma intervenção pode maximizar armazenamento de carbono, por exemplo, sem necessariamente ser aquela que oferece o maior benefício para biodiversidade.
Outra pode beneficiar determinadas espécies e produzir impactos sobre atividades econômicas locais.
Uma terceira pode apresentar excelentes resultados ecológicos, mas ter custo financeiro inviável.
Essas diferenças precisam ser explicitadas.
Tomar decisões com base em evidências também significa reconhecer os conflitos entre objetivos e discutir quais prioridades serão adotadas.
Evidência não elimina a tomada de decisão
A ciência pode indicar probabilidades, riscos e resultados observados.
Mas ela não define sozinha quais valores devem ser priorizados.
Essa escolha envolve gestores, comunidades, proprietários, organizações, governos e outros atores interessados.
Por isso, o estudo propõe que os trade-offs sejam discutidos de maneira transparente.
A evidência científica serve para melhorar a qualidade dessas escolhas, e não para esconder que elas existem.
Conhecimento deve ser produzido em conjunto
Uma das últimas diretrizes apresentadas pelo estudo trata da coprodução de conhecimento.
Ao aplicar as regras propostas, gestores e pesquisadores inevitavelmente encontrarão lacunas.
Pode ser que não exista informação suficiente sobre determinada espécie.
Talvez uma técnica nunca tenha sido testada naquele ecossistema.
Ou pode haver dúvidas sobre seus efeitos sociais.
Essas lacunas devem gerar novas pesquisas.
Em vez de ciência e prática funcionarem separadamente, a proposta é criar um ciclo.
O conhecimento orienta a restauração.
A aplicação revela novas perguntas.
Essas perguntas geram novos conhecimentos.
E os resultados retornam aos projetos seguintes.
Instituições de articulação têm papel estratégico
Para que esse processo funcione, são importantes pessoas e instituições capazes de atuar na interface entre diferentes áreas.
Universidades, órgãos ambientais, organizações não governamentais, empresas e comunidades podem participar da produção e aplicação do conhecimento.
Essa estrutura é especialmente importante porque resultados científicos nem sempre chegam diretamente a quem toma decisões.
Ao mesmo tempo, problemas enfrentados por profissionais de campo nem sempre chegam aos pesquisadores.
Criar canais permanentes entre esses grupos pode tornar a restauração mais adaptativa.
Estudo combina literatura científica e experiência prática
O próprio desenvolvimento das dez regras seguiu uma abordagem transdisciplinar.
Os autores possuem experiência em órgãos governamentais, organizações não governamentais, empresas privadas e instituições de pesquisa.
O grupo reúne participantes de quatro continentes.
Segundo os autores, a proposta foi construída combinando uma revisão consistente da literatura científica com experiências práticas na aplicação de evidências em diferentes projetos e ecossistemas.
Essa combinação permitiu transformar conceitos acadêmicos em recomendações voltadas à realidade da restauração.
Uma mesma receita não serve para todos os ecossistemas
O guia não pretende oferecer um modelo universal de intervenção.
O objetivo é justamente o contrário.
As dez regras ajudam a definir como escolher uma estratégia a partir das melhores evidências disponíveis e das condições locais.
Isso é particularmente importante em países megadiversos como o Brasil.
Restaurar uma floresta amazônica exige práticas diferentes daquelas aplicadas no Cerrado.
Campos naturais não devem ser tratados como florestas degradadas.
Manguezais dependem de processos hidrológicos específicos.
Áreas de Mata Atlântica podem enfrentar graus muito diferentes de fragmentação.
Por isso, evidências precisam sempre ser interpretadas considerando o ecossistema e a paisagem.
Monitorar também faz parte da restauração
Embora o objetivo seja recuperar ecossistemas, nenhum projeto consegue garantir antecipadamente que todas as intervenções terão exatamente o resultado esperado.
A restauração ocorre em sistemas ecológicos complexos.
Por isso, acompanhar os resultados é fundamental para verificar se as estratégias adotadas realmente estão funcionando.
Quando os resultados diferem das expectativas, novas decisões podem ser tomadas.
Essa lógica está relacionada ao manejo adaptativo: avaliar, aprender e ajustar continuamente.
Restauração ecológica ganha importância mundial
A necessidade de recuperar áreas degradadas tornou-se uma das grandes agendas ambientais do século.
Governos, empresas e organizações estabeleceram metas envolvendo milhões de hectares.
Mas o aumento da escala traz outro desafio.
Restaurar mais não significa necessariamente restaurar melhor.
Projetos mal planejados podem desperdiçar recursos e produzir benefícios ambientais limitados.
Em situações extremas, uma intervenção inadequada pode até prejudicar ecossistemas naturais.
A utilização sistemática de evidências busca diminuir esse risco.
O desafio não é apenas recuperar hectares
Metas ambientais frequentemente são apresentadas em números de hectares.
Essa métrica é importante, mas não revela sozinha se um ecossistema recuperou suas funções.
Uma área pode possuir vegetação novamente e continuar com baixa diversidade.
Pode apresentar árvores, mas não recuperar a dinâmica hídrica.
Pode acumular carbono sem restabelecer outras funções ecológicas.
Por isso, projetos precisam definir claramente o que significa sucesso.
Esses objetivos devem determinar quais evidências serão buscadas e quais indicadores serão monitorados.
Dez regras para aproximar ciência e restauração
O novo estudo procura transformar o conhecimento acumulado pela ciência em uma ferramenta mais acessível para quem precisa tomar decisões.
Em vez de simplesmente afirmar que projetos devem ser “baseados em evidências”, os pesquisadores propõem um caminho para chegar até essas evidências, analisá-las criticamente e incorporá-las à prática.
O processo inclui articular conhecimentos, identificar prioridades, avaliar a qualidade das informações, considerar diferentes sistemas de saberes, observar políticas públicas, trabalhar com cenários futuros, discutir compensações entre objetivos e produzir novos conhecimentos quando existirem lacunas.
A mensagem central é que restauração ecológica não deve ser tratada como uma receita pronta.
Cada ecossistema apresenta sua história, seus processos ecológicos e seu contexto social.
Quanto melhores forem as evidências utilizadas para compreender essas diferenças, maiores serão as chances de que os recursos destinados à restauração realmente resultem em ecossistemas funcionais, resilientes e capazes de persistir no futuro.
O artigo Ten rules for using evidence to guide ecosystem restoration foi publicado no Journal of Applied Ecology.
Texto original de: Tatiana Maria | Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP.
Legenda foto superior: Autores também destacam a necessidade de projetar cenários socioecológicos futuros, para garantir a eficácia a longo prazo da restauração (foto: Pedro Brancalion/Lastrop-USP)
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