Combate aos crimes ambientais: o que revelam os números de 2023 a 2026
A presença de agentes ambientais e policiais em áreas remotas da Amazônia voltou a ganhar destaque em 2026. Em outubro, operações inutilizaram dragas, escavadeiras, motores e estruturas de apoio ao garimpo ilegal. O que pode parecer uma sequência de notícias isoladas faz parte de um esforço mais amplo de fiscalização, investigação e proteção territorial realizado por diferentes instituições federais.
Os balanços divulgados em outubro de 2026 apontam 76.095 ações de fiscalização do Ibama em todo o país entre 2023 e 2026; 695 operações da Polícia Federal relacionadas a crimes ambientais na Amazônia; e cerca de 11,9 mil autos de infração lavrados pelo ICMBio em unidades de conservação federais. São indicadores expressivos, mas com metodologias distintas: não podem ser somados como se fossem operações independentes.
Em paralelo, o INPE informou que a Amazônia Legal registrou 3.335 km² desmatados no ciclo agosto de 2025 a julho de 2026, queda de 41,8% sobre o ciclo anterior. No Cerrado, a redução foi de 23,8%. Esses resultados são relevantes, embora não permitam atribuir toda a queda exclusivamente à atuação de um único órgão ou governo.
Os números da fiscalização federal
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Órgão / abrangência |
Indicador |
Resultado divulgado |
|
Ibama / Brasil |
Ações de fiscalização |
76.095 |
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Ibama / Brasil |
Autos por infrações contra a flora |
25.101 |
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Ibama / Brasil |
Multas aplicadas por infrações contra a flora |
R$ 11,8 bilhões |
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Ibama / Brasil |
Área embargada |
18.630 km² |
|
Ibama / Brasil |
Termos de apreensão / destruição |
15.306 / 4.088 |
|
PF / Amazônia |
Operações contra crimes ambientais |
695 |
|
PF / Amazônia |
Inquéritos sobre crimes ambientais |
7.967 |
|
ICMBio / UCs federais |
Autos de infração |
cerca de 11,9 mil |
|
ICMBio / UCs federais |
Multas aplicadas |
R$ 2,4 bilhões |
|
ICMBio / UCs federais |
Termos de embargo |
mais de 5 mil |
Tabela 1. Balanços acumulados de 2023 a 2026, divulgados em outubro de 2026. “Multas aplicadas” não significa valores arrecadados. Fontes: Casa Civil, MJSP e ICMBio.
Metodologia de leitura: uma operação policial pode incluir diversas ações de fiscalização, autos de infração, embargos e inutilizações. Operações integradas envolvem mais de um órgão. Portanto, o total de 695 operações da PF não deve ser somado às 76.095 ações do Ibama nem aos 11,9 mil autos do ICMBio para produzir um suposto total nacional. Os dados também possuem abrangências territoriais distintas.
O que mudou no desmatamento?
O Programa de Monitoramento por Satélites do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), do INPE, permite acompanhar a área anual desmatada. Em 2026, a taxa divulgada para a Amazônia Legal foi a menor desde o início da série, em 1988. O Cerrado também alcançou o menor valor de sua série, iniciada em 2001.

Gráfico 1. Trajetória da área desmatada na Amazônia Legal. Elaboração: Florestal Brasil, com dados do INPE/Prodes.
|
Bioma |
2025 (km²) |
2026 (km²) |
Variação |
|
Amazônia Legal |
5.731 |
3.335 |
−41,8% |
|
Cerrado |
7.235,27 |
5.516,69 |
−23,8% |
Tabela 2. Ciclos anuais de agosto a julho; 2025/2026 corresponde a agosto de 2025 a julho de 2026. Fonte: INPE.

Gráfico 2. Redução do desmatamento nos dois biomas entre os ciclos 2025 e 2026. Elaboração: Florestal Brasil.
O desmatamento permanece elevado em termos absolutos: 3.335 km² representam 333.500 hectares na Amazônia Legal em um único ciclo. A redução deve ser acompanhada tanto pelo total de supressão quanto pela localização dos polígonos, pela reincidência e pela efetividade da proteção territorial.
Onde o desmatamento caiu — e onde exigiu atenção
Na Amazônia Legal, os três estados com as maiores áreas desmatadas em 2026 foram Pará, Mato Grosso e Amazonas. Apesar da redução geral, Roraima registrou leve alta na comparação anual.
|
Estado |
2025 (km²) |
2026 (km²) |
Variação |
|
Pará |
2.064 |
1.130 |
−45,3% |
|
Mato Grosso |
1.593 |
849 |
−46,7% |
|
Amazonas |
979 |
525 |
−46,4% |
|
Roraima |
285 |
286 |
+0,4% |
|
Acre |
324 |
252 |
−22,2% |
|
Rondônia |
229 |
149 |
−34,9% |
|
Maranhão |
210 |
128 |
−39,0% |
|
Amapá |
17 |
8 |
−52,9% |
|
Tocantins |
30 |
8 |
−73,3% |
|
Amazônia Legal |
5.731 |
3.335 |
−41,8% |
Tabela 3. Distribuição do Prodes na Amazônia Legal por estado. Pequenas diferenças podem resultar de arredondamento. Fonte: Secom/INPE, outubro de 2026.
Yanomami: o que significam 11 mil ações integradas?
A desintrusão da Terra Indígena Yanomami, iniciada em março de 2024, tornou-se uma das maiores referências de atuação integrada. Segundo a Casa Civil, foram contabilizadas cerca de 11 mil ações até 14 de julho de 2026. O monitoramento oficial apontou redução de 99% na abertura de novas áreas de garimpo — indicador específico que não equivale ao fim de toda atividade ilegal no território.
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Resultado operacional acumulado |
Quantidade divulgada |
|
Acampamentos inutilizados |
926 |
|
Pistas de pouso inutilizadas |
95 |
|
Motores inutilizados |
2.302 |
|
Geradores inutilizados |
594 |
|
Aeronaves inutilizadas |
58 |
|
Aeronaves apreendidas |
15 |
|
Ouro apreendido |
cerca de 265 kg |
|
Mercúrio apreendido |
mais de 1,2 t |
|
Pessoas detidas ou presas |
389 |
Tabela 4. Resultado acumulado divulgado na atualização de julho de 2026. As ações integram órgãos diferentes e não constituem um conjunto adicional às estatísticas de cada instituição. Fonte: Casa Civil.
O alcance dessas ações depende de uma estratégia que vá além da presença pontual em garimpos. Pistas, combustíveis, aeronaves, rotas fluviais e redes de abastecimento sustentam a ocupação ilegal. O acompanhamento de indicadores de reentrada, novos polígonos de mineração, saúde indígena e recuperação ambiental é indispensável para avaliar a sustentabilidade do resultado.

Foto: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)
Operações recentes: a estrutura econômica do garimpo como alvo
Em 2026, operações realizadas em diferentes estados ilustraram estratégias de repressão em campo e investigação financeira. As informações abaixo foram extraídas das notas oficiais e não representam uma relação exaustiva de ações federais.
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Operação / local |
Órgãos |
Resultado verificado |
|
Nêmesis / rio Madeira, RO — 27/10 |
PF + Ibama |
72 bens inutilizados (17 dragas); 16 mil litros de diesel inutilizados |
|
Escudo / TI Kayapó, PA — 29/10 |
PF + Funai |
3 escavadeiras, 3 caminhonetes, 4 motos, 8 motores e 19 barracos inutilizados |
|
Caraíba IV / Parque Nacional Mapinguari — jul./ago. |
PF + ICMBio |
23 acampamentos, 2 escavadeiras, trator, motores e geradores inutilizados |
|
TIs Aripuanã, Kayabi e Sararé, MT — fev. |
Ibama + Funai + forças de segurança |
23 dragas, 12 balsas, 5 escavadeiras e 51 mil litros de combustível apreendidos ou inutilizados |
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Solo Sagrado / TI Sararé, MT — ago. |
PF + Receita + MPF |
10 mandados de busca e 1 de prisão preventiva; investigação do financiamento do ouro |
Tabela 5. Exemplos de 2026. Inutilização, apreensão e mandados são medidas diferentes. Fontes: PF e Funai.
Na Operação Escudo, na Terra Indígena Kayapó, a PF informou ainda o socorro de um trabalhador ferido, sob suspeita de submissão a condições degradantes e abandono por outros trabalhadores. A nota não apresenta conclusão definitiva sobre a responsabilidade penal no caso.
Já a Operação Solo Sagrado concentrou-se na investigação da cadeia de financiamento, suporte logístico e possível inserção do ouro ilegal no mercado formal. Segundo a PF, foram utilizadas informações bancárias, fiscais, patrimoniais e telemáticas para aprofundar o rastreamento dos envolvidos.
O caso da Operação Xapiri Mebêngôkré também demonstra a dimensão do maquinário: conforme nota da Funai publicada em outubro, uma ação realizada em junho de 2026 na TI Kayapó inutilizou 32 escavadeiras hidráulicas, além de outros equipamentos e aproximadamente 10,2 mil litros de combustível.
Foto: TI Kayapó
O papel do ICMBio nas unidades de conservação
O ICMBio é responsável pela gestão das unidades de conservação federais. Além de proteger a biodiversidade, o trabalho de fiscalização nesses territórios envolve combater exploração madeireira ilegal, mineração, desmatamento e outras infrações. Seus relatórios detalham ações de rotina e operações planejadas.

Gráfico 3. Indicadores anuais do ICMBio em unidades de conservação federais. Fontes: relatório técnico de 2025.
Em 2025, o relatório técnico do ICMBio registrou 1.060 ações de fiscalização, 3.286 autos de infração e 5.088 itens apreendidos. O relatório integrado principal menciona 1.069 ações; o documento explicita essa pequena divergência entre publicações, sem misturar as séries. O dado de 11,9 mil autos para 2023–2026 vem do balanço acumulado federal publicado em outubro de 2026.
O próprio ICMBio reconheceu limitações na etapa posterior à fiscalização. Em 2025, a meta de julgamento de autos em primeira instância não foi alcançada, e o relatório cita redução de pessoal e dificuldades de capacitação entre os fatores. Isso mostra que ampliar a capacidade operacional inclui também análise, julgamento e acompanhamento administrativo, não apenas equipes em campo.
Fortalecer Ibama, ICMBio e Polícia Federal é parte da solução
Os resultados dos últimos anos mostram a importância de manter estruturas permanentes de fiscalização e investigação. Na avaliação editorial do Florestal Brasil, esse esforço precisa incluir orçamento previsível, tecnologia, segurança operacional, veículos e aeronaves, inteligência territorial e reforço de equipes, com aproveitamento das pessoas aprovadas em concursos dentro das possibilidades legais e orçamentárias.
Em setembro de 2025, o Ministério da Gestão e da Inovação autorizou a nomeação de 460 pessoas aprovadas para o Ibama: 330 para analista ambiental e 130 para analista administrativo. Trata-se de um reforço importante, mas que deve ser considerado junto às necessidades de reposição de quadros, distribuição regional e capacidade de instrução e julgamento de processos.
O balanço de outubro de 2026 também informou aprovação de R$ 825,7 milhões do Fundo Amazônia para o projeto FortFisc, voltado ao fortalecimento da fiscalização do Ibama, incluindo sistemas, fiscalização remota, equipamentos, meios aéreos e gestão. No âmbito da PF, o Ministério da Justiça informou R$ 318 milhões em recursos do Fundo Amazônia para proteção do bioma, além do Projeto Ouro Alvo, com R$ 49,7 milhões para o enfrentamento ao garimpo ilegal.
Mais servidores, por si só, não garantem resultados automáticos: treinamento, protocolos, logística, inteligência e continuidade institucional são igualmente necessários. A defesa do serviço público ambiental precisa estar acompanhada de indicadores transparentes de produtividade, prevenção e recuperação ambiental.
Desmatamento zero até 2030: o que a meta realmente significa?
O Brasil estabeleceu a meta de desmatamento zero até 2030. No desenho de políticas como o PPCDAm, isso não significa necessariamente ausência absoluta de toda supressão autorizada: o conceito inclui a eliminação do desmatamento ilegal e a compensação da supressão legal de vegetação nativa, com recuperação e aumento dos estoques de vegetação e medidas de conservação.
Para que esse objetivo seja alcançado, fiscalização permanente é condição necessária, mas não suficiente. Também são decisivos regularização fundiária, proteção de terras indígenas e unidades de conservação, rastreabilidade de cadeias produtivas, enfrentamento do financiamento do crime, incentivos à floresta em pé e políticas de recuperação de áreas degradadas.
A queda do desmatamento em 2026 representa um avanço mensurável no monitoramento do INPE. O próximo desafio é transformar a redução anual em trajetória duradoura, com capacidade de manter a fiscalização, responsabilizar infratores e impedir que as estruturas ilegais retornem após as operações.
Os registros oficiais confirmam uma atuação extensa do Ibama, do ICMBio e da Polícia Federal desde 2023, com forte concentração de esforços no enfrentamento ao garimpo ilegal na Amazônia. A dimensão das operações é relevante, mas o êxito das políticas públicas não pode ser medido apenas por quantidade de máquinas destruídas ou autos emitidos.
O principal resultado a perseguir é a redução consistente dos danos ambientais, acompanhada de responsabilização, proteção dos povos indígenas e das unidades de conservação, recuperação das áreas degradadas e fortalecimento permanente das instituições. Nesse horizonte, ampliar e qualificar as equipes ambientais — inclusive por meio de nomeações legalmente possíveis de aprovados em concursos — deve integrar a discussão nacional sobre como atingir o desmatamento zero até 2030.
Fontes:
Casa Civil / Balanço federal 2023–2026
Ministério da Justiça / Polícia Federal na Amazônia
ICMBio / Proteção Ambiental — relatório técnico 2025
INPE / Taxas de desmatamento em 2026
Casa Civil / Desintrusão Yanomami em 2026
Polícia Federal / Operação Escudo, Kayapó (29/10/2026)
Polícia Federal / Operação Nêmesis, rio Madeira (27/10/2026)
Polícia Federal / Operação Caraíba IV (01/08/2026)
Polícia Federal / Operação Solo Sagrado (18/08/2026)
Funai / Combate ao garimpo nas TIs de Mato Grosso
Ibama / Autorização para nomeação de 460 aprovados
ICMBio / Conceito de desmatamento zero até 2030
INPE / Taxa consolidada do Prodes 2025
Funai / Operação Xapiri Mebêngôkré, Kayapó
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