Bordas urbanas de São Paulo podem recuperar mais de 400 mil hectares de vegetação
A restauração florestal costuma ser associada principalmente às áreas rurais, onde existe maior disponibilidade de terras e menor competição com a expansão urbana. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, porém, mostra que as zonas de transição entre cidade e campo podem representar uma fronteira importante e ainda pouco explorada para a recuperação da vegetação.
Conhecidas como bordas urbanas, áreas periurbanas ou interfaces urbano-rurais, essas regiões somam pouco mais de 810 mil hectares somente no Estado de São Paulo.
Desse total, aproximadamente 413 mil hectares foram identificados como potencialmente disponíveis para projetos de restauração.
O levantamento foi realizado no Instituto de Estudos Avançados da USP e analisou três décadas de desmatamento e regeneração da vegetação paulista.
Os resultados indicam ainda que, nessas regiões, a regeneração já vem superando a perda de cobertura florestal.

O que são bordas urbanas?
As bordas urbanas correspondem às regiões localizadas entre os centros urbanos mais consolidados e as áreas predominantemente rurais.
Não se trata de um tipo único de território.
Essas zonas podem incluir loteamentos recentes, áreas de expansão urbana, condomínios, agricultura familiar, núcleos rurais com características urbanas e áreas de preservação.
Por não se enquadrarem completamente na definição tradicional de cidade ou de campo, muitas vezes ficam fora das principais estratégias de planejamento ambiental.
O estudo buscou justamente compreender o comportamento da vegetação nesses territórios.
Para isso, os pesquisadores utilizaram categorias estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
As regiões com alta densidade de edificações foram classificadas como áreas urbanas densas.
As bordas urbanas corresponderam às áreas com menor densidade construtiva, incluindo zonas de expansão e núcleos com características intermediárias.
Já as áreas rurais foram definidas pela presença mais dispersa de residências e pela predominância de estabelecimentos agropecuários.
Regeneração já supera o desmatamento
Um dos conceitos utilizados pelos pesquisadores foi o de transição florestal.
Ela ocorre quando a quantidade de vegetação em regeneração passa a superar a área desmatada em determinada região.
Quando isso acontece, uma tendência histórica de perda de cobertura começa a se inverter.
Os pesquisadores identificaram que essa mudança já ocorreu no Estado de São Paulo e que, em algumas bordas urbanas, o processo começou antes do esperado.
Na macrometrópole paulista, por exemplo, a regeneração passou a superar o desmatamento em 2004.
Essa região engloba 174 municípios articulados ao redor da Grande São Paulo, incluindo Campinas, Baixada Santista e Sorocaba, e reúne aproximadamente 32,7 milhões de habitantes.
APPs começaram a se recuperar ainda nos anos 1990
Em áreas de preservação permanente associadas a rios, córregos e outras regiões ambientalmente protegidas, a mudança começou ainda mais cedo.
O mesmo ocorreu em áreas sujeitas a riscos como enchentes, erosões e deslizamentos.
Nesses territórios, a regeneração já superava o desmatamento desde o início da década de 1990.
Segundo os pesquisadores, a proteção legal existente sobre essas áreas teve papel importante nessa trajetória.
O resultado reforça a capacidade das políticas públicas de alterar a dinâmica da ocupação do solo quando existem regras de proteção e mecanismos que favorecem a manutenção ou recuperação da vegetação.
413 mil hectares podem receber projetos
Os números encontrados pelo estudo mostram a dimensão do potencial existente.
As bordas urbanas ocupam aproximadamente 810 mil hectares no Estado de São Paulo, correspondendo a cerca de 3,27% do território estadual.
Desse total, cerca de 413 mil hectares, aproximadamente metade da área analisada, foram considerados potencialmente disponíveis para projetos de restauração.
Na macrometrópole paulista, as bordas urbanas representam cerca de 235 mil hectares.
Se todo o potencial identificado fosse aproveitado, essas áreas poderiam representar aproximadamente 27% da meta estadual de restaurar 1,5 milhão de hectares até 2050.
Nas áreas urbanas mais densamente ocupadas, por outro lado, apenas cerca de 10% do território apresentou potencial semelhante.
Regeneração está aumentando, mas continua fragmentada
Apesar da tendência positiva, o estudo identificou um problema importante.
A área total de vegetação em regeneração aumentou, mas o número de fragmentos também cresceu.
Isso significa que a recuperação está ocorrendo em pequenas manchas espalhadas pela paisagem.
Uma floresta fragmentada não funciona da mesma maneira que uma área extensa e conectada.
O isolamento entre remanescentes pode dificultar o deslocamento da fauna, a dispersão de sementes e a troca genética entre populações.
Também pode reduzir a capacidade da vegetação de desempenhar funções ecológicas e aumentar os efeitos de borda.
Por isso, simplesmente aumentar o número de hectares restaurados não garante a recuperação completa da biodiversidade.
A localização e a conectividade das áreas precisam fazer parte do planejamento.
Por que essas áreas estão regenerando?
O estudo identificou a tendência, mas não teve como objetivo determinar todas as suas causas.
Os pesquisadores apontam algumas hipóteses.
Uma delas é o abandono de antigas áreas agrícolas.
Quando uma área deixa de ser cultivada e não é imediatamente ocupada por construções, a vegetação pode começar a se regenerar espontaneamente.
Outro fator possível é a expansão de condomínios de médio e alto padrão que, em determinadas situações, precisam recuperar áreas degradadas para cumprir exigências legais.
O próprio processo de consolidação urbana também pode contribuir, pois algumas regiões deixam de sofrer avanço contínuo de novas construções sobre a vegetação.
Essas hipóteses ainda precisam ser aprofundadas em estudos específicos.
Restauração próxima das cidades gera benefícios locais
Uma das principais vantagens de recuperar vegetação nas bordas urbanas é aproximar os serviços ecossistêmicos das pessoas.
Uma floresta restaurada em uma área rural distante pode trazer benefícios importantes para biodiversidade, proteção do solo, recursos hídricos e clima.
Mas determinados efeitos são essencialmente locais.
A redução da temperatura é um exemplo.
A presença de árvores, copas e vegetação contribui para criar ambientes mais frescos, reduzindo a exposição direta ao Sol e auxiliando na regulação térmica.
Quando essa vegetação está próxima das regiões habitadas, o benefício chega diretamente à população.
Vegetação pode ajudar cidades a enfrentar eventos extremos
As áreas restauradas também podem contribuir para a adaptação às mudanças climáticas.
Entre os benefícios apontados pelos pesquisadores estão a regulação hídrica, a melhora da qualidade do ar e a proteção de nascentes e cursos d'água.
A vegetação também pode ajudar a controlar processos erosivos e reduzir a vulnerabilidade de determinadas áreas a deslizamentos.
Nas regiões sujeitas a enchentes, a recuperação dos ambientes naturais pode integrar estratégias mais amplas de gestão das águas.
A restauração pode ainda criar espaços de lazer e recreação próximos às cidades.
Projetos podem gerar empregos locais
A recuperação da vegetação também depende de uma cadeia de atividades econômicas.
É necessário produzir mudas, preparar áreas, realizar plantios, acompanhar o desenvolvimento das plantas e executar atividades de manutenção.
Nas bordas urbanas, parte dessa mão de obra pode ser encontrada nas próprias comunidades próximas aos projetos.
A restauração pode, portanto, criar oportunidades de trabalho associadas à produção de mudas, implantação e monitoramento das áreas recuperadas.
Isso amplia o potencial social dos projetos, além dos benefícios ambientais.
Restauração não pode aumentar desigualdades
Os pesquisadores alertam, porém, que os benefícios ambientais não surgem automaticamente de maneira justa.
As bordas urbanas frequentemente concentram populações em situação de vulnerabilidade.
Em muitas cidades, famílias de menor renda foram progressivamente empurradas para regiões periféricas justamente pelo elevado custo das áreas mais centrais.
Além disso, essas zonas são disputadas por diferentes usos.
Elas podem ser destinadas à expansão imobiliária, agricultura, infraestrutura ou conservação ambiental.
Projetos de restauração precisam considerar essa complexidade.
Uma iniciativa ambiental que valorize fortemente determinada região pode, por exemplo, contribuir para processos de valorização imobiliária e deslocamento da população que anteriormente vivia no local.
Por isso, os autores destacam a importância de evitar processos de gentrificação associados à melhoria ambiental.
Agricultura familiar também ocupa as bordas das cidades
Outro cuidado necessário envolve as atividades produtivas.
Parte das regiões periurbanas é utilizada pela agricultura familiar e por pequenos produtores.
Nesse contexto, a restauração não pode simplesmente substituir todo uso existente do território.
Será necessário definir quais áreas realmente apresentam maior potencial para recuperação e como diferentes atividades podem coexistir.
Isso exige negociação entre proprietários, comunidades, gestores públicos e organizações responsáveis pelos projetos.
A restauração precisa ser incorporada ao planejamento territorial, e não tratada como uma intervenção isolada.
Estudo utilizou três décadas de MapBiomas
Para avaliar as mudanças na cobertura vegetal, os pesquisadores cruzaram informações de dois conjuntos de dados produzidos pelo MapBiomas.
Foram analisados produtos relacionados ao desmatamento e à regeneração, além de mapas de cobertura e uso da terra.
A pesquisa considerou um período de 30 anos, entre 1990 e 2020.
A partir dessas informações, foi possível identificar, pixel por pixel, como a vegetação mudou nas áreas urbanas densas, nas bordas urbanas e nas zonas rurais.
A separação entre essas categorias permitiu mostrar que elas possuem dinâmicas diferentes e, portanto, não deveriam receber exatamente as mesmas políticas ambientais.
Políticas de restauração precisam olhar para as cidades
Grande parte das políticas e metas de restauração concentra seus esforços nas áreas rurais.
O estudo não questiona a importância dessas iniciativas.
Em vez disso, propõe ampliar o olhar.
As bordas urbanas representam territórios onde a regeneração já está ocorrendo e onde ainda existe disponibilidade de áreas para ampliar esse processo.
A estratégia pode ser especialmente eficiente porque não seria necessário reverter completamente uma tendência de desmatamento crescente.
Segundo os pesquisadores, o cenário encontrado já apresenta aumento da regeneração e redução da perda de vegetação.
O desafio é criar políticas capazes de fortalecer uma transformação que já está em andamento.
Ciência e gestores públicos trabalharam juntos
Outra característica do estudo foi a participação direta de profissionais envolvidos na formulação e execução de políticas ambientais.
Entre os autores estão servidores da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, do Instituto de Pesquisas Ambientais e da Fundação Florestal.
A pesquisa foi construída a partir da colaboração entre cientistas e gestores.
Segundo os autores, essa integração permite combinar o conhecimento técnico da academia com a experiência prática de quem atua diretamente no território e conhece os entraves administrativos, políticos e sociais.
O objetivo é aumentar as chances de que os resultados científicos sejam efetivamente incorporados às políticas públicas.
Projeto integra o Biota Síntese
O trabalho faz parte do projeto Biota Síntese, um Centro de Ciência para o Desenvolvimento financiado pela FAPESP.
A iniciativa reúne pesquisadores da USP e representantes do governo paulista.
Entre os objetivos estão fornecer subsídios ao Plano de Ação Climática do Estado de São Paulo e apoiar a implementação de soluções baseadas na natureza.
Nesse contexto, mapear áreas próximas às cidades que apresentam potencial para regeneração pode contribuir para combinar políticas climáticas, conservação da biodiversidade e melhoria da qualidade de vida.
Restaurar onde as pessoas vivem
Os resultados reforçam que a restauração florestal não precisa acontecer exclusivamente longe das cidades.
As bordas urbanas possuem espaço disponível, apresentam uma tendência já existente de regeneração e podem oferecer benefícios diretamente às populações próximas.
Mas aproveitar esse potencial exige planejamento.
Será necessário conectar os fragmentos restaurados, considerar as atividades produtivas existentes, evitar impactos sociais e integrar diferentes políticas de uso da terra.
Com aproximadamente 413 mil hectares potencialmente disponíveis apenas no Estado de São Paulo, as zonas de transição entre cidade e campo podem se tornar parte importante das estratégias de restauração.
Além de recuperar biodiversidade, essas áreas podem ajudar a reduzir temperaturas, proteger cursos d'água, controlar erosões, gerar empregos e aproximar os benefícios das florestas das milhões de pessoas que vivem nos grandes centros urbanos.
O artigo científico Urban boundaries are an underexplored frontier for ecological restoration foi publicado na revista Scientific Reports.
Fonte: Jornal da USP.
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