Aumento da temperatura na Amazônia reduz absorção de gás de efeito estufa por bactérias

Aumento da temperatura na Amazônia reduz absorção de gás de efeito estufa por bactérias

No primeiro semestre deste ano, a Organização Meteorológica Mundial divulgou o Relatório sobre o Estado Global do Clima, que destacou o aumento alarmante da temperatura global e reforçou que as mudanças climáticas são um dos maiores desafios para a humanidade.

Estudo em laboratório, liderado por Júlia Brandão Gontijo, investigou produção e consumo de metano nas comunidades microbianas amazônicas – Fotomontagem Jornal da USP feita com imagens de Vinícius Mendonça/Ibama – Flickr CC BY-SA 2.0, vectorjuice/Freepik e Manuel Almagro Rivas/Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0

Uma nova pesquisa da USP investigou como as comunidades microbianas, responsáveis pelo ciclo do metano – um potente gás de efeito estufa – reagem a essas mudanças na Amazônia. Entre as principais descobertas, os experimentos de laboratório mostraram que o aumento da temperatura resultou em uma redução significativa na capacidade de absorção de metano nas florestas de terra firme da Amazônia.

O estudo foi liderado por Júlia Brandão Gontijo, engenheira agrônoma e pesquisadora formada pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, sob orientação da professora Tsai Siu Mui. A pesquisa foi publicada na revista Environmental Microbiome em julho.

"Estamos vivenciando os efeitos das mudanças climáticas e as previsões são alarmantes", alerta Júlia, destacando que "o metano possui um poder de aquecimento cerca de 27 vezes maior que o dióxido de carbono". Segundo a cientista, compreender como esses ciclos serão afetados pelas mudanças climáticas é fundamental.

Estudo em laboratório

A pesquisa teve como objetivo investigar como as comunidades microbianas em várzeas e florestas de terra firme da Amazônia respondem a cenários simulados de mudanças climáticas, focando nas variações de temperatura e no regime de inundações. “Queríamos entender o impacto dessas mudanças sobre a composição e a dinâmica das comunidades microbianas e suas implicações nas emissões de metano”, explica Júlia.

Para isso, os pesquisadores coletaram solos de duas várzeas (rios Amazonas e Tapajós) e de uma floresta de terra firme, simulando condições de seca e inundação em diferentes temperaturas (27 °C e 30 °C) em um experimento de microcosmo.

Experimento em microcosmos em que foram simuladas as condições de mudanças climáticas testadas neste estudo - Foto de Wanderlei Bieluczyk

As comunidades microbianas foram monitoradas ao longo de 30 dias por meio de sequenciamento do gene 16S rRNA e qPCR. O sequenciamento identificou os tipos de microrganismos presentes no solo, enquanto o qPCR quantificou sua abundância. Além disso, foram analisadas propriedades químicas do solo, fluxos de metano e distribuições específicas de isótopos para avaliar como variações de temperatura e inundações influenciam a produção e o consumo de metano.

“Isolar esses fatores no laboratório foi um desafio”, comenta Júlia. “Mantivemos as amostras em estufas para controlar a temperatura e simulamos condições de seca e cheia, mantendo o solo em umidade específica. Isso nos permitiu observar o que pode acontecer em diferentes cenários climáticos.”

Variações no nível da água nas estações de cheia e seca no Rio Amazonas, nas proximidades de Santarém-PA - Fotos de Júlia B. Gontijo

Um dos resultados mais surpreendentes foi a estabilidade das comunidades microbianas nas várzeas, mesmo com o aumento da temperatura. “Esperava encontrar maiores mudanças nas várzeas, mas elas se mostraram bastante estáveis. Provavelmente, a microbiota já está adaptada às variações sazonais de inundação e seca”, observa Júlia.

Por outro lado, as florestas de terra firme apresentaram uma resposta preocupante. “A capacidade de absorção de metano foi reduzida em 70% com o aumento da temperatura, sugerindo que áreas antes consideradas sumidouros de metano podem se tornar fontes desse gás devido ao aquecimento global”, adverte a pesquisadora.

Medições das condições de campo e amostragem de solos para montagem do experimento - Foto de Fabiana S. Paula

Impacto em políticas públicas

De acordo com Júlia, os resultados da pesquisa podem ajudar na formulação de políticas públicas e incentivar esforços para mitigar as mudanças climáticas. “Nossos dados reforçam a importância de preservar a floresta, que atua como um sumidouro de metano. É urgente criar políticas públicas que evitem o desmatamento e reduzam as emissões de gases de efeito estufa”, enfatiza.

Atualmente, em seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia, Júlia continua estudando a Amazônia, focando na correlação entre a presença de microrganismos e sua atividade. “Não basta saber que os microrganismos estão lá, precisamos entender o que eles estão fazendo. Estamos utilizando novas ferramentas moleculares para investigar como esses microrganismos estão ativos em diferentes estações e como isso se relaciona com as emissões de gases de efeito estufa.”

A engenheira destaca que o próximo passo é expandir os estudos de campo, em colaboração com o Soil Eco Genomics Laboratory da Universidade da Califórnia, liderado pelo professor Jorge Rodrigues. “Estamos conduzindo estudos diretamente no campo, correlacionando a presença dos microrganismos com sua atividade nas diferentes estações”, afirma Júlia, ressaltando que “mais pesquisas são essenciais para uma compreensão mais profunda dos ciclos de metano na Amazônia”.

O artigo completo está disponível neste link.

Fonte: Jornal da USP