AmazonFACE: experimento vai simular a atmosfera do futuro para descobrir como a Amazônia reage a mais CO₂

AmazonFACE: experimento vai simular a atmosfera do futuro para descobrir como a Amazônia reage a mais CO₂

Como a Floresta Amazônica vai responder a uma atmosfera com muito mais dióxido de carbono?

Essa é uma das perguntas mais importantes — e ainda incertas — da ciência climática. Para tentar respondê-la, pesquisadores estão construindo na própria Amazônia um dos experimentos ecológicos mais ambiciosos já realizados em uma floresta tropical.

O projeto se chama AmazonFACE, sigla para Amazon Free-Air CO₂ Enrichment.

Em vez de estudar pequenas mudas dentro de uma estufa ou depender exclusivamente de modelos computacionais, o experimento vai modificar a concentração de CO₂ ao redor de árvores adultas de uma floresta amazônica preservada, mantendo o restante do ecossistema exposto às condições naturais.

Na prática, os pesquisadores pretendem criar uma pequena amostra da atmosfera que a Amazônia poderá enfrentar nas próximas décadas.

No novo vídeo do Florestal Brasil, mostramos de perto a lógica do experimento, o que os pesquisadores pretendem medir e por que descobrir a resposta das árvores ao aumento do CO₂ é tão importante para compreender o futuro da floresta.

Assista ao vídeo completo sobre o AmazonFACE no canal do Florestal Brasil

Uma floresta dentro da atmosfera do futuro

O AmazonFACE está instalado na estação experimental ZF2, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ao norte de Manaus.

A proposta é utilizar estruturas instaladas ao redor da vegetação para liberar dióxido de carbono diretamente no ambiente da floresta.

Em parte das parcelas experimentais, a concentração atmosférica deverá aumentar dos atuais aproximadamente 420 partes por milhão para cerca de 620 ppm, um acréscimo próximo de 50%. Outras parcelas permanecerão submetidas às condições atmosféricas atuais e servirão como controle.

Essa comparação é fundamental.

Ao acompanhar simultaneamente áreas submetidas ao CO₂ elevado e áreas mantidas nas condições normais, os pesquisadores poderão identificar quais mudanças realmente estão relacionadas ao aumento do gás.

A floresta será monitorada desde o solo até o topo das copas, permitindo acompanhar diferentes respostas do ecossistema.

Por que aumentar o CO₂?

O dióxido de carbono é uma das matérias-primas utilizadas pelas plantas durante a fotossíntese.

De maneira simplificada:

mais CO₂ disponível pode significar mais matéria-prima para a fotossíntese;

mais fotossíntese pode favorecer o crescimento;

maior crescimento pode produzir mais biomassa;

e mais biomassa pode representar mais carbono armazenado em troncos, galhos, folhas e raízes.

É justamente daí que surge uma das grandes dúvidas sobre o futuro das florestas tropicais.

Será que o aumento do CO₂ atmosférico permitirá que a Amazônia cresça mais e retire uma quantidade maior de carbono da atmosfera?

Ou existem outros fatores capazes de limitar essa resposta?

Essa segunda possibilidade é especialmente importante.

Uma árvore não cresce apenas com carbono.

Ela também precisa de água, luz e nutrientes.

Mais CO₂ não significa necessariamente mais floresta

Em experimentos realizados em outros ecossistemas, o aumento do dióxido de carbono pode estimular a fotossíntese e o crescimento das plantas.

Mas as florestas tropicais possuem características muito particulares.

Os solos amazônicos, por exemplo, podem apresentar limitações na disponibilidade de determinados nutrientes. Isso significa que uma árvore pode receber mais carbono e, ainda assim, não conseguir transformar todo esse recurso adicional em crescimento.

Imagine que a atmosfera ofereça mais CO₂.

A planta percebe uma oportunidade para produzir mais biomassa.

Para construir novas folhas, raízes e madeira, porém, ela também precisa encontrar nutrientes suficientes no solo.

Se esses nutrientes não estiverem disponíveis, o efeito da chamada fertilização por CO₂ pode ser limitado.

É exatamente esse tipo de interação que experimentos como o AmazonFACE pretendem investigar em condições reais de floresta.

As raízes já dão pistas sobre a complexidade da resposta

Pesquisas associadas ao programa já mostraram que plantas do sub-bosque submetidas durante meses a concentrações elevadas de CO₂ podem modificar a maneira como exploram o solo.

Foram observadas mudanças nas raízes presentes na serrapilheira, com produção de estruturas mais compridas e finas, além de maior associação com fungos micorrízicos.

Essas alterações podem representar uma estratégia para ampliar a capacidade de obtenção de nutrientes.

O resultado ilustra por que a resposta da floresta pode ser muito mais complexa do que simplesmente afirmar que mais dióxido de carbono produzirá automaticamente mais árvores.

A planta pode ter carbono disponível para crescer e, simultaneamente, precisar investir mais energia na procura por nutrientes necessários para sustentar esse crescimento.

Um experimento em uma floresta extremamente diversa

Realizar esse tipo de pesquisa na Amazônia representa um desafio muito diferente de conduzir o mesmo experimento em uma floresta temperada ou em uma plantação.

A área experimental possui centenas de espécies arbóreas.

Segundo informações divulgadas pela Unicamp, foram identificadas 423 espécies de árvores na região onde o AmazonFACE está instalado. A instituição também destaca que o tipo de solo existente no local ocorre em uma parcela expressiva do bioma amazônico.

Isso significa que diferentes espécies poderão apresentar respostas completamente distintas ao aumento do CO₂.

Algumas podem aproveitar melhor a concentração adicional.

Outras podem ser limitadas pela disponibilidade de nutrientes.

Algumas podem investir mais em crescimento.

Outras podem alterar principalmente suas raízes, folhas ou estratégias de uso da água.

E essas diferenças podem modificar, ao longo do tempo, a própria composição da floresta.

Quais árvores poderão ser favorecidas?

Essa é outra questão central.

Quando falamos em resposta da Amazônia às mudanças climáticas, não basta saber se a quantidade total de biomassa aumentará ou diminuirá.

Também precisamos saber quem estará crescendo.

Se determinadas espécies responderem melhor ao CO₂ elevado do que outras, a competição dentro da floresta poderá mudar.

Espécies mais eficientes em obter fósforo ou outros nutrientes podem ganhar vantagem.

Árvores capazes de utilizar melhor a água podem apresentar respostas diferentes durante períodos secos.

Mudanças desse tipo podem alterar lentamente a composição das comunidades vegetais.

Por isso, os pesquisadores pretendem acompanhar não apenas o carbono armazenado, mas também biodiversidade, nutrientes, água e diversos outros componentes responsáveis pelo funcionamento do ecossistema.

Água também entra nessa equação

O CO₂ influencia diretamente a fisiologia das plantas.

Para absorver dióxido de carbono, as folhas utilizam pequenas estruturas chamadas estômatos.

Quando os estômatos estão abertos, o CO₂ consegue entrar.

Ao mesmo tempo, água é perdida para a atmosfera.

Com uma concentração maior de dióxido de carbono ao redor da folha, algumas plantas podem conseguir captar a quantidade necessária mantendo os estômatos menos abertos.

Isso pode alterar sua eficiência no uso da água.

Mas novamente a resposta não é simples.

O resultado final dependerá das espécies, das condições ambientais, das temperaturas e da disponibilidade hídrica.

É por isso que um experimento realizado diretamente sobre uma floresta madura possui tanto valor científico.

A ciência precisa reduzir uma enorme incerteza

Os modelos climáticos precisam representar a interação entre atmosfera e vegetação.

Para projetar o clima de 2050, 2070 ou 2100, é necessário estimar quanto carbono as florestas continuarão absorvendo.

Se a Amazônia responder fortemente à fertilização por CO₂, determinado cenário climático pode surgir.

Se a resposta for pequena porque nutrientes, água ou temperatura limitam o crescimento, o resultado pode ser diferente.

Essa incerteza influencia previsões sobre o ciclo global do carbono e sobre a própria velocidade do aquecimento.

O AmazonFACE pretende produzir dados capazes de aperfeiçoar esses modelos e melhorar as projeções sobre a capacidade da maior floresta tropical do planeta de continuar contribuindo para a regulação climática.

E o experimento não acompanha somente árvores

Uma floresta funciona por meio da interação de inúmeros organismos e processos.

O aumento do CO₂ pode modificar a produção de folhas.

Isso pode alterar a serrapilheira.

A serrapilheira influencia decompositores.

Mudanças nas raízes podem afetar fungos e microrganismos do solo.

Alterações na fotossíntese podem modificar a quantidade de carbono enviada para diferentes partes da planta.

Tudo isso pode interferir na ciclagem dos nutrientes.

Por isso, os instrumentos instalados no experimento acompanham o ecossistema desde o chão até a copa das árvores.

Temperatura, concentração de CO₂, crescimento, fotossíntese, raízes, nutrientes, água e biomassa estão entre os componentes fundamentais para compreender a resposta da floresta.

O grande diferencial está justamente em estudar essas interações acontecendo simultaneamente em um ambiente natural.

Um laboratório sem paredes

A tecnologia FACE já foi utilizada em outros ecossistemas do mundo.

Sua grande vantagem é permitir alterar a concentração de dióxido de carbono sem colocar as plantas dentro de uma estufa fechada.

A chuva continua caindo.

O vento continua passando.

Animais continuam circulando.

As árvores continuam competindo por luz e nutrientes.

Fungos continuam interagindo com as raízes.

O solo continua sujeito às condições naturais.

Isso transforma a própria floresta em um enorme laboratório a céu aberto.

O AmazonFACE é pioneiro justamente por levar essa abordagem à escala de uma floresta tropical madura e altamente biodiversa.

Projeto entra em uma etapa decisiva

O programa foi estabelecido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em 2014 e possui coordenação científica do Inpa e da Unicamp.

Em agosto de 2026, a Unicamp anunciou um investimento de R$ 113 milhões, resultado de um acordo de cooperação envolvendo Petrobras, Unicamp e Inpa.

Os recursos deverão viabilizar o fornecimento do principal insumo utilizado no experimento por aproximadamente cinco anos, além de bolsas de pesquisa, equipamentos e materiais. A instituição informa que o enriquecimento experimental deverá começar após os testes necessários com CO₂ elevado, eventuais ajustes técnicos e contratação dos fornecedores.

Quando toda a infraestrutura estiver operacional, a expectativa é manter o experimento funcionando continuamente por aproximadamente dez anos.

Essa duração será fundamental.

Florestas não respondem a mudanças ambientais apenas em dias ou meses.

Algumas alterações podem aparecer rapidamente na fotossíntese.

Outras dependerão de anos de crescimento, mortalidade, mudanças nas raízes, competição entre espécies e transformação dos nutrientes disponíveis.

O que o AmazonFACE poderá responder?

No fundo, existe uma pergunta gigantesca por trás de toda essa estrutura:

quanto tempo a Amazônia conseguirá continuar funcionando como uma aliada contra o aumento do CO₂ atmosférico?

O experimento poderá ajudar a descobrir quanto carbono adicional a floresta consegue utilizar, quanto consegue armazenar na biomassa, quais espécies são favorecidas ou prejudicadas e até que ponto a fertilização por CO₂ continua funcionando quando água ou nutrientes começam a limitar o crescimento.

Essas respostas terão consequências que vão muito além da área experimental próxima a Manaus.

Os dados poderão ser incorporados aos modelos que projetam o futuro do clima e ajudar a reduzir incertezas sobre o papel das florestas tropicais no ciclo global do carbono.

O AmazonFACE não pretende descobrir se podemos emitir mais carbono

Existe também uma interpretação que precisa ser evitada.

Se as árvores crescerem mais sob concentrações elevadas de CO₂, isso não significará que o aumento das emissões deixou de ser um problema.

A capacidade de fertilização possui limites.

A floresta continua exposta ao aumento da temperatura, às secas, aos incêndios, à degradação e ao desmatamento.

Além disso, o carbono utilizado no crescimento das árvores representa apenas uma parte do enorme desequilíbrio causado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.

O objetivo do AmazonFACE é compreender melhor a resposta da floresta diante de uma transformação atmosférica que já está acontecendo.

O futuro da Amazônia sendo observado no presente

Talvez essa seja a característica mais impressionante do projeto.

Nós normalmente estudamos o futuro utilizando modelos.

No AmazonFACE, parte desse futuro será simulada sobre árvores que estão crescendo agora.

Uma atmosfera com aproximadamente 620 ppm de CO₂ será colocada em contato com uma floresta real.

E os pesquisadores poderão observar a resposta.

As árvores crescerão mais?

Quanto carbono será armazenado?

As raízes mudarão?

Haverá limitação por fósforo?

O uso da água será diferente?

Algumas espécies serão beneficiadas?

Outras perderão espaço?

A floresta conseguirá manter uma resposta positiva durante anos?

Ou o efeito inicial desaparecerá quando outros recursos se tornarem limitantes?

Responder essas perguntas pode mudar profundamente nossa compreensão sobre o futuro da Amazônia.

E foi justamente para explicar esse experimento que o Florestal Brasil produziu um vídeo especial sobre o AmazonFACE, mostrando como ele funciona e o que está em jogo para a ciência climática.

▶️ Assista ao vídeo: AmazonFACE — o experimento que vai testar a Amazônia na atmosfera do futuro

O AmazonFACE representa algo raro na ciência: a oportunidade de observar, diretamente em uma floresta tropical madura, uma condição atmosférica que poderá fazer parte do futuro do planeta.

Os resultados não vão dizer apenas como algumas centenas de árvores próximas a Manaus responderam ao aumento do dióxido de carbono.

Eles poderão ajudar a responder uma pergunta muito maior:

como a maior floresta tropical do planeta vai funcionar em um mundo com cada vez mais CO₂ na atmosfera?

Fonte: AmazonFACE, Inpa, Unicamp e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

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